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A Barbárie em face do humano: as tribos pós-modernas | de Michel Maffesoli

* Dados do autor
** Tradutora Rosza vel Zoladz

As tribos pós-modernas fazem parte, agora, nos dias atuais, da paisagem urbana. Isso, após terem sido objeto de uma conspiração silenciosa das mais estritas – quanta tinta elas fizeram correr! Tudo de uma vez, para relativizá-las, marginalizá-las, invalidá-las depois de denegri-las. Coloquemos uma questão simples. Essas tribos, não são elas a expressão da figura do bárbaro que, regularmente, retorna a fim de fecundar um corpo social, um pouco debilitado? O que há de certo é quando uma forma do laço social se satura e que uma outra (re)nasce – isso se faz, sempre, com temor e vacilação. É o que faz com que certas boas almas se choquem por essa renascença, porque ela desloca um pouco a moral estabelecida. Do mesmo modo, certas belas almas podem se ofuscar, pois essas tribos não fazem senão privilegiar a primazia do Político. Eu o disse, em textos anteriores. Política ou Jogo. E a prevalência deste último (Jogo) é tão evidente que a Política, ela mesma, se teatralizou e tornou-se objeto da des-razão: resumindo foi contaminada pelo lúdico.

Qual seja, e qualquer que seja o sentimento que a elas se atribua, essas tribos pós-modernas estão lá. E, a menos que as exterminem todas, o que corre o risco de ser difícil, pois nossas crianças são ingênuas, é preciso fazê-lo com a acomodação de suas maneiras de ser e de aparecer, com os seus piercings e tatuagens diversas, de seus curiosos rituais, de suas músicas barulhentas: em poucas palavras, a nova cultura, da qual elas são seguidoras advertidas de uma seita e dinâmicas. Certo é que a (re)emergência dessas novas maneiras de estar junto não lhes falta ser desconcertantes. Ela não é menos compreensível. Com efeito, como isso se passa pelo indivíduo, traduz um simples processo de compensação. Progressivamente, esquecendo-se do choque cultural que lhe deu nascimento, a civilização moderna se homogeneizou, ela se racionalizou ao extremo. E sabe-se que o enfado nasceu da uniformidade. A intensidade de ser se perde quando a domesticação se generalizou.

De onde e quando, um ciclo acaba o mecanismo da compensação. Pouco a pouco, a heterogeneidade ganha terreno. No lugar de uma razão soberana, o sentimento de pertencença retoma direito de cidade. E, confrontá-la a uma enfadonha segurança da existência, o que denominava a efervescência, como elemento estruturante de toda comunidade, retorna com força sobre o que se tem diante da cena social. O gosto do risco, de maneira difusa, reafirma sua vitalidade, o instinto domesticado tende a se mostrar selvagem; em poucas palavras, sob formas múltiplas, a barbárie se refere a nossa boa lembrança. Mas em uma palavra, pode ser preciso lembrar de onde vem esta tenaz e constante inquietação de domesticação própria à tradição judaico-cristã,ou melhor dizendo, à ideologia semítica. Tudo simplesmente decorre da certeza da natureza corrompida do ser humano. É isto que funda a moral e o que retorna ao mesmo assunto, a política da modernidade. No lento processo de secularização, a Igreja, depois o Estado, cujo braço armado é a Política e a Tecnoestrutura, têm por função essencial corrigir o Mal absoluto e originário. Trata-se de uma missão, na qual se verá mais adiante a hipocrisia, que sob nomes diversos vai continuamente irrigar a vida publica ocidental.

Projeto prometeano, se ele o é, sobre o qual não se dirá jamais o suficiente, que encontrará sua fonte na injunção bíblica de “submeter a natureza” (Genèse.ch.1.,v.28) em seu aspecto envolvente; fauna e flora, mais igualmente fundante do indivíduo e do social. É, seguramente, em uma tal lógica da dominação que vai se elaborar o mito do Progresso e do igualitarismo, que é o seu corolário. Para dizê-lo em termos mais familiares, os três mamilos de um tal projeto eram o higienismo (ou o risco zero), a moral e a sociedade “Nickel”. É preciso acrescentar e isto não é negligenciável, a especificidade cultural dessa tradição que foi o Universalismo. De São Paulo de um ponto de vista teológico, às Luzes de uma perspectiva filosófica, a o que tenha sido o apanágio de alguma tribos nômades do Oriente Médio, depois o que foi peculiar de um pequeno cantão do mundo, a Europa, deveria servir de critério para o mundo em sua totalidade.

Notemos que houve fanatismo numa tal pretensão. Mas é esse fanatismo, que ao final do século XIX permitiu que esses valores específicos se tornassem valores universais. E desde que o imperador Meiji abriu suas portas aos navios europeus ou desde que o Brasil inscreveu na sua bandeira a célebre fórmula de Augusto Comte: Ordem e Progresso, se pode dizer que a homogeneização do mundo alcançou um apogeu até aquele momento desconhecido. Mas não se pode ignorar que existe também uma patogênese de certa pulsão dominadora. Sem falar dos estudiosos e outros genocídios culturais. Não será inútil de se lembrar o laço existente entre o mito do Progresso e a filosofia das Luzes de um lado, e os campos de concentração (em nome da pureza da raça ou da classe) e as guerras enraivecidas e suicidas do século XX de outro lado.

A INOCÊNCIA DO DEVENIR

Colocando o acento sobre a moral, do que o lembro repousa sobre uma lógica do dever-se e se acaba em excessos não previstos. Isso se chama hétérotélie. Se obtém o contrário do que se desejava. Por exemplo a tentativa de domesticação do animal humano o conduz a ser bestial. Isto é o que testemunham os diversos campos e goulag do século passado. Efeito perverso se o é, mas bem na lógica da pesquisa da perfeição. Há ainda a sabedoria popular, que vem depois de Blaise Pascal, que pode nos ser de alguma utilidade, remarcando fortemente ao que se diz “quem quer fazer o anjo, faz a besta”. Indicarei aqui sob forma de alusão, mas há aí dois vícios na abordagem dos detentores do universalismo ou o que retorna da mesma maneira nos protagonistas a filosofia da Luzes: a hipocrisia e o auto-engano. Assim R. Roselleck (La règne de la critique, 1979) fez bem em chamar a atenção de que isso se dava, sempre, em nome da moral, de uma nova moral, que queria governar no lugar daqueles que governam. Assim, falar em nome da Humanidade e da Razão é particularmente pérfido, pois isso mascara (de leve) o fato de que a motivação real de todos esses “moralistas” é, pura e simplesmente, o poder.

Poder econômico, poder político, poder simbólico, tais são bem, a finalização normal da filosofia da história e dos filósofos moralistas. E sempre em nome do Bem, do Ideal, do Humano, da classe e outras entidades abstratas que se cometem as piores Torpezas. Há aí sempre no moralista um homem ressentido que está adormecido! Eis de onde se vem. Eis o que constitui o cérebro venal do homem moderno, e que fica no fundamento das formas de pensamento estabelecido e das instituições sociais. Mas essa bela construção, em aparência que não sofre danos, é fissurada de todas as partes. E esta é bem de uma tal porosidade que as tribos pós-modernas são todas, ao mesmo tempo, a causa e o efeito. Que exprimem elas, senão o que de um modo premonitório, Nietzsche denominava “a inocência do devenir” Aceitação do amor fati. Consenso nesse plano a esse mundo. Esse último, ao encontro da doutrina judaico-cristã, não encontra sua origem numa criação que vem do nada, mas ele está ali, tal como um “dado” com o qual convém tanto para o bem como para o mal, concordar. Eis o que o bárbaro um pouco pagão se empenha em nos lembrar!

Certo, tudo isso não é conscientizado, nem mesmo verbalizado enquanto tal. Mas amplamente vivido no retorno às tradições, religiosas ou espirituais, no exercício das solidariedades no quotidiano, na revivescência, digamos, das forças primitivas. Isto conduz à (re)valorização dos instintos, das éticas, das etnias. O que induz essa nova sensibilidade, se poderia dizer esse novo paradigma, é um poderoso imanenteísmo. Isso pode tomar formas as mais sofisticadas e mais triviais. O hedonismo, os prazeres do corpo, o jogo das aparências, o presenteísmo estão aí tanto como pontuação daquilo que não é um ativismo voluntarista, mas também como expressão de uma real contemplação do mundo. Ou, para dizer em outros termos, a aceitação de um mundo que não é o céu sobre a terra, que também não é o inferno sobre a face da terra, mas, sim, a terra sobre a terra. Com tudo o que isso comporta de trágico (amor fati) mas também de júbilo. Deixai fazer, deixai viver, deixar ser. Eis o que poderiam ser as palavras chave dessas tribos “inocentes”, instintuais, um pouco animais e, certamente, bem vivas.

A EXPERIÊNCIA TRIBAL

A modernidade terminante em seu estrito sentido ”desinervou” o corpo social. O higienismo, a securização, a racionalização da existência, as interdições de todas as ordens, tudo isso foi agregado ao corpo individual ou ao corpo coletivo a capacidade de emitir as reações necessárias na sua sobrevida. Pareceria, para retomar uma expressão de Georg Simmel, que se assiste, com a pós-modernidade, a uma “intensificação da vida nervosa”. O instinto, o primitivismo, encontra seu lugar nos “nervos”. Isto é considerar que o peculiar da natureza humana não se resume somente ao cognitivo, ao racional, mas bem um “complexio oppositorum” que se poderá traduzir como uma assemblage, uma tecelagem de coisas opostas. Tudo isso que convém saber ver na efervescência tribal contemporânea. Algumas dessas manifestações podem, eu o disse, nos desgostar ou nos ofuscar. Elas exprimem, por vezes de uma maneira desajeitada, a afirmação que ao encontro do pecado original, que à oposição da corrupção estrutural, existe uma bondade intrínseca ao ser humano. E que no cofre no qual esse último se situa, a terra, ela é igualmente desejável.

Mas um tal imaneteismo acaba por murchar a política. Ou antes, ao que essa, estando de alguma forma transfigurada, se inverte em doméstica, torna-se ecologia. Domusoikos, termos designando a casa comum que convém proteger dos saques aos quais a modernidade nos fez habituar. As maquinações deste homem “mestre e possuidor do universo” segundo a expressão de Descartes, acabaram na devastação que se sabe. As tribos, mais prudentes, mais precavidas também, se empregam a menos “maquinar“ os outros e a natureza, e é isto que faz sua inegável especificidade. É igualmente a recusa da maquinação política que está na origem do seu receio, que inspira essa nova maneira de estar junto. Receio, que engendra as muitas faltas cometidas pelas bárbaras tribos, em particular nas “cidades” e diversas periferias urbanas. A “imprensa de todas as peles”, e não somente aquelas direcionadas ao sensacionalismo fez sua escolha sem obter resultado. E numerosos são os foliculares que se utilizam disso para fazer chorar Margot. No franglês contemporâneo, isso se chama a pesquisa doscoop. A expressão habitualmente utilizada para estigmatizar o fenômeno tribal é o termo “comunitarismo”. Como toda estigmatização oriunda do medo daquilo que é, é uma forma de preguiça pela qual se pode pagar caro. Tique de linguagem amplamente distribuído, tanto à esquerda como à direita. Isso é também uma forma de tolice. Com efeito, não se resolve o que é posto em questão suprimindo-o ou denegando-o.

Atitude infantil, igualmente, que é a de encantação: se repetem as palavras, a maioria delas vazias de sentido, e se pensa assim resolver um problema. Mas para além do medo, da preguiça, da tolice é do infantilismo de fato do que se trata? Foi a especificidade da organização social da modernidade no que pretendeu reduzir toda coisa à unidade. De evacuar as diferenças. De homogeneizar as maneiras de ser. A expressão de Auguste Comte: redutio ad unum, resume bem um tal ideal, o de uma República Una e Indivisível. E não se pode negar que se trata aqui de um verdadeiro ideal cujos resultados culturais, políticos, sociais foram inegáveis. Mas, na longa duração, as histórias humanas nos ensinam que nada é eterno. E não é a primeira vez que se observa a saturação desse ideal unitário. Impérios romano, inca, asteca, se poderia, ao infinito, multiplicar os exemplos de formas organizacionais centralizadas, reunidas no ossário das realidades.

Realidades que nos forçam a constatar, como indiquei sob a forma de alusão, que a heterogeneidade está de volta. É aquilo a que Max Weber dava o nome de politeísmo dos valores. Assim, a reafirmação da diferença, os “localismos” diversos, as especificidades das línguas e culturais, as reivindicações étnicas, sexuais, religiosas, as múltiplas coisas parecidas em torno de uma origem comum, real ou mitificada.

Tudo serve para celebrar um estar junto, cujo fundamento é menos a razão universal que a emoção partilhada, o sentimento de pertencença. É assim que o corpo social se difracta em pequenos corpos tribais. Os corpos, em sua teatralidade, se tatuam, se furam. As cabeleiras se eriçam ou se cobrem de lenços, de kipas, de turbantes ou de outros acessórios, tal como griffe Hermès. Em breve, no incandescido cotidiano, a existência com manchas púrpuras de cores novas traduz assim a fecunda multiplicidade das crianças dos deuses. Porque se sabe que aqui existem muitas casas na morada do Pai.

Eis o que caracteriza o tempo das tribos. Sejam sexuais, musicais, religiosas, esportivas, culturais, e até políticas, elas ocupam o espaço público. É uma constatação que é pueril e irresponsável de negar. Não leva a nada as estigmatizar. Será mais bem inspirado, fiéis com isso a uma imemorial sabedoria popular, acompanhar uma tal mutação. E isto, para evitar que ela se torne perversa, depois totalmente incontrolável. Após tudo, por que não enfocar a res publica, a coisa pública que se organiza a partir do ajustamento, a posteriori dessas tribos eletivas? Por que não admitir que o consenso social, mais perto de sua etimologia (cum sensualis) possa repousar sobre a partilha de sentimentos diversos?

Desde que elas estão ali, por que não aceitar as diferenças comunitárias, ajudar a encaixá-las e aprender a compor com elas? O jogo da diferença, longe de empobrecer, enriquece. Após tudo uma tal composição pode participar de uma melodia social, ao ritmo talvez um pouco mais “coaligido”, mas não menos dinâmico. O ajustamento dos diversos teclados da música techno traduz, também, uma forma de cultura. Resumindo, é perigoso, em nome de uma concepção um pouco retrógrada da unidade nacional, não reconhecer a força do pluralismo. O centro da união pode se viver na conjunção, a posteriori, de valores opostos. À harmonia abstrata de um unanimismo, digamos, de fachada, está se sucedendo, por meio de múltiplos ensaios-erros, um equilíbrio conflitual, causa e efeito da vitalidade das tribos.

INTERNET: A INICIAÇÃO A UMA NOVA ORDEM COMUNICATIVA

Não há mais lugar para ser velhos rabugentos, ofuscados pelos “bons velhos-tempos” de uma Unidade fechada sobre si mesma. O que os filósofos da Idade Média denominavam unicidade, exprimindo uma coerência aberta, poderia ser uma boa maneira de compreender uma ligação, um laço social fundado sobre a disparidade, o policulturalismo, a polissemia. O que, certamente, se denomina de uma audácia intelectual. Essa de saber pensar o verdor de um ideal comunitário em gestação. Sim, há momentos onde é importante pôr em marcha um pensamento de longo curso que seja capaz de aprender as novas configurações sociais. E por isso não se pode ficar satisfeito com esses conceitos autistas, rarefeitos, fenômeno a que, em italiano, se dá o nome, bem adequadamente, deconcetti, vistos do espírito. Em resumo, não se pode, o que é o pecado mignon do intelectual, criar o mundo do que se quer que ele seja. Audácia, portanto, permitindo entender que, em oposição à solidariedade puramente mecânica que foi a marca da modernidade, o ideal comunitário das tribos pós-modernas repousa sobre o retorno de uma sólida e rizomática solidariedade orgânica.

Porque, paradoxo que não é menos considerável, esta velha coisa que é a tribo, e estas antigas formas de solidariedade que são vividas no cotidiano, exercidas o mais próximo, nascem, se exprimem, se confortam graças às diversas redes eletrônicas. Daí a definição que se pode dar à pós-modernidade: sinergia entre o arcaico e o desenvolvimento tecnológico. Lembrando certamente que o arcaico, no seu sentido etimológico, o que é o primeiro, fundamental, vê desdobrados seus efeitos pelos novos meios de comunicação interativa. A imagem do que foi a circunavegação na madrugada dos tempos modernos, navegação sendo a causa e o efeito de uma nova ordem do mundo (o que Carl Schmitt denomina o “Nomos da terra”), certos sociólogos mostram bem em que a “circunavegação” própria à Internet está na iminência de criar novas maneiras de ser, de mudar, em profundidade, a estrutura do laço social (www.ceag-sorbonne.org, Gretech, grupo de pesquisa sobre a tecnologia, direção Stéphane Hugon).

Não é necessário ser perdidamente apaixonado por essas novas tecnologias interativas para se compreender a importância do que se convencionou denominar, justamente, de sites comunitários. My SpaceFacebook, que permitem aos internautas tecer os laços, trocar idéias e sentimentos, paixões, emoções e fantasmas. Do mesmo modo You Tube favorece a circulação do vídeo, da música e de outras criações artísticas. E, mais ultimamente, Lively tenta liderar a vida on line de seus usuários. A expressão mestra, se declinando até não ter mais sede, é a da vida comunitária. E ali onde se vê que o medo do comunitarismo é bem o fantasma de uma outra época, e é totalmente defasado em relação ao mundo real daqueles que constituem a sociedade, já hoje, num golpe certo de amanhã.

Graças à Internet, com efeito, uma nova ordem comunicativa se coloca. Quem favorece os encontros, o fenômeno dos flashmob como testemunho; onde, a propósito das coisas fúteis, sérias ou políticas, as mobilizações se fazem e se desfazem no espaço urbano e virtual. Dá-se o mesmo com o streetbooming, permitindo que nas grandes megalópolis contemporâneas, nessas selvas de pedras que favorecem o isolamento, ao se conectarem à Internet as pessoas se encontram, se falam, se conhecem, criando assim uma nova maneira de estar junto, fundada sobre a partilha da criatividade. Tais redes sociais on line, assim como os fenômenos de encontros a que isto induz, deverão nos tornar atentos a uma sociedade específica, onde o prazer lúdico comporta a simples funcionalidade. Aliás, é interessante notar que se utiliza, cada vez mais, os termos dos iniciados para caracterizar os protagonistas desses sites de encontro.

Iniciação sob novas formas de generosidade, de solidariedade em minúsculo, que não têm mais nada a ver com o “Estado providência” e sua visão deformada. Se, como indica Hélène Strohl, um boa conhecedora deste problema, “L’État social ne fonctionne plus” (Albin Michel, 2008), isto é bem porque é a base, no quadro comunitário, graças às técnicas interativas, que se difundem, mutuamente, sob todas as forma. Retorno curioso a uma ordem simbólica que se acreditava ultrapassada. Mas para bem compreender uma tal ordem, importa colocar a mão na massa não com pensamento crítico, i.e., judicativo, mas um questionamento bem mais radical, tendo de apreender os arcanos da socialidade. Há, aqui, com efeito, no coração mesmo do desenrolar histórico, como ação política, um princípio secreto que é preciso saber descobrir. Nesse ponto é que nos diz a verdade, na sua origem grega: aletheia, o que desvela o escondido? Ainda é preciso que se saiba respeitar o velado! Estranho paradoxo do pensamento radical: saber dizer claramente o que é complicado, aceitando totalmente reconhecer que as “pregas” do ser individual ou coletivo permanecem uma realidade intransponível. É esta a lição de coisas que, continuamente, nos dá a existência. É isto aqui que constitui o mistério da vida.

PROCURAR O ESSENCIAL NO INAPARENTE DAS APARÊNCIAS

No desprezo do romantismo, desde o surrealismo, os situacionistas, nos anos 60 do século passado, partiram à procura dessa mítica passagem do noroeste abrindo sobre os horizontes infinitos. E para fazer isso, colocaram em marcha uma psicogeografia, ou deriva, lhes permitindo descobrir, para além da simples funcionalidade da cidade, que existe um labirinto do vivido, contrariamente mais profundo e assegurando, invisivelmente, os fundamentos reais de toda existência social. Pode-se extrapolar um tal questionamento poético-existencial e os arcanos da cidade podem ser úteis para compreender uma estrutura tácita que, em certos momentos assegura a eternidade da vida em sociedade. Tácito: que não se exprime verbalmente, que tudo é subentendido. Implícito: que vai se alojar na dobra do mistério e do inconsciente coletivo.

Jean Baudrillard, no seu tempo, tornou-se muito atento a esta “sombra das maiorias silenciosas”, a este “ventre mole” do social. Da minha parte, de diversas maneiras, analisei a centralidade subterrânea, a socialidade obscura e outras metáforas, pontuando a retirada do povo sobre seu Aventino. Orfandade da tradição mística, retornando, subrepticiamente, ao gosto do dia! Um tal tecido repregueado é frequente nas histórias humanas. E ele é sempre o indicador de uma demanda de reconhecimento. Contra o patriciado romano, o povo se refere a seus direitos. Isso se dá igualmente em nossos dias. E a demanda implícita, silenciosa, que tem dificuldade em se formular, necessita que se saiba fazer uma espécie de geologia da vida social. E, na maneira de ser, uma pesquisa das estruturas heterogêneas que a constituem. Mas fiquemos nesta ambivalência. Esta bipolaridade entre isto que é retraído e o que se mostra. Ainda mais hermético que em evidência. Salvemo-nos aqui do comentário que fez Lacan do conto de Edgar Poe, “a carta roubada”. É porque ela está aqui, sob o manto da chaminé que o comissário que está à sua procura não a vê. E como em eco, ouçamos o conselho de Gaston Bachelard: “não há ciência fora do obscuro”.

Dizendo com clareza esse escondido nos arruína os olhos. E por pouco que se tome seriamente a teatralidade dos fenômenos, este theatrum mundi, de antiga memória, se saberá aí ver os novos modos de vida em gestação. Para além de nossas certezas e convicções: políticas, filosóficas, religiosas, científicas, convém se por em acordo simplesmente, humanamente, ao que se dá a ver. Procurar o essencial no inaparente das aparências. Estas da vida cotidiana. Estas desses prazeres miúdos e de pouca importância, constituindo o humano onde cresce o estar-junto. Não será isso a cultura? “Os aspectos os mais importantes para nós estão escondidos por causa de sua banalidade e de sua simplicidade” (WITTGENSTEIN). Talvez a partir de um tal principio de incerteza se será capaz de fazer um bom prognóstico. Quer dizer, ter a intuição dos fenômenos, esta visão do interior, fazendo tanta falta à paranóia tão frequente nas elites. A partir do olhar penetrante nos será permitido ver o núcleo fatíco das coisas. Fatídico, porque nos falta ser mestres. Isso vem de bem longe, e não se deixa dominar pela pequena razão instrumental peculiar à modernidade. Núcleo arquetípico, no qual é importante localizar a fecundidade.

(2007)

 

* Michel Maffesoli é professor na Sorbonne e membro do Institut Universitaire de France.

 

** Rosza vel Zoladz: Sou imensamente agradecida ao sociólogo da Sorbonne, Michel Maffesoli, pelo envio do texto por mim traduzido. Foi uma satisfação enorme traduzí-lo, às vésperas das Festas do fim de ano (2008). A amizade, a colaboração intelectual com Maffesoli estão sempre, para mim, se renovando por meio de iniciativas acadêmicas, concretizadas no Brasil e no exterior, que já datam de 1981 e se reforçaram com o convite que lhe enderecei para fazer palestras, conferências, seminários, na Escola de Belas Artes da UFRJ. Ali, as iniciativas dessa ordem devem muito à Linha de Pesquisa da Imagem e Cultura do PPGAV, sempre com o estímulo do Coordenador do Programa, Prof. Dr. Rogério Medeiros, e o apoio do Consulado da França no Rio de Janeiro. Agora, tenho que agradecer a Heloisa Buarque de Holanda, Coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC-FCC-UFRJ) que, de muitas maneiras, com seu apoio e amizade, me faz encorajar para o que é aqui apresentado e também me incentiva a realizar, publicar, produzir inúmeras iniciativas acadêmicas. Beatriz Resende, com quem realizei o Pós-doutorado no Programa, me estimulou tanto que continuo as minhas pesquisas iniciadas naquele Programa. Last but not least, não posso deixar de mencionar o psicanalista Dr. Edson Lannes, um interlocutor inestimável, que muito contribui, com as suas idéias, disponibilidade e pertinência, nos meus trabalhos e pesquisas. Continuo fiel ao meu objeto de estudo de toda a vida, ou seja, o artista e a arte. Agora, examinando o seu mundo do trabalho.

 

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O “velho” bardo, uma nova tradução, um pequeno comentário | de Josely Vianna

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Há mais mitologia em torno de William Shakespeare do que necessita a nossa vã idolatria. O resultado é uma certa esquizofrenia (com o perdão da rima pobre). Pois enquanto a obra do “bardo” é felizmente encarada sem muita cerimônia, em versões várias para o teatro, o cinema etc., seu nome vive cercado por uma névoa de mitos que, essencialmente, comprazem-se em negar a possibilidade chã de certo cidadão inglês do século XVI, dedicado profissionalmente ao teatro, ser o autor das peças e dos poemas a ele desde sempre atribuídos. Se isto, somado ao título de “maior poeta da história”, de fato não compromete a recepção de seu teatro, de alguma forma impregna a de sua lírica.

Os sonetos de Shakespeare são, assim, cercados de questões extrapoéticas que ameaçam torná-los mais opacos do que o mais esotérico poeta barroco. Shakespeare, porém, era um classicista. A clareza e a relativa simplicidade sintática de seus sonetos costumam ser muito maiores que a da maioria de seus contemporâneos. Saber então quem foi a tão famosa quanto desconhecida “dark lady”, presumida destinatária de alguns sonetos, ou decidir se outros, cujo imputado destinatário é um homem jovem, possuem ou não viés homoerótico, pode ter algum interesse acadêmico, e mesmo muito interesse amador, mas pouco ou nada diz de sua poética. Além disso, e mais importante, tais mistérios não são capazes de alterar certos fatos intrínsecos, como o de que seus sonetos envelhecem mais que suas peças. Melhor dito: que seus sonetos envelhecem visivelmente (ao menos em alguns aspectos), enquanto suas peças parecem imunes à ação do tempo (em parte graças às próprias releituras).

O contrário acontece, por exemplo, com a obra de seu contemporâneo Luís de Camões. Enquanto seu épico nacional-imperial, Os Lusíadas, parece cada vez mais um épico nacional-imperial do século XVI (sem compromisso das magnificências de sua poética), muitos de seus sonetos soam surpreendentemente modernos. A ponto de um deles, há pouco tempo, ter sido musicado por um grupo pop brasileiro (se a grandeza poética do soneto nada perdeu, e se a pobreza musical típica do pop pouco ganhou, o resultado, em todo caso, não pareceu um híbrido absurdo ou impossível). Guardadas as proporções, principalmente quanto à distinta popularidade dos dois poetas, é o equivalente ao que acontece cotidianamente com as peças de Shakespeare. Mas não com seus sonetos. Um dos motivos fica claro ao se analisar, por exemplo, o “Soneto XIV”, recém traduzido por Josely Vianna Baptista.

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O “Soneto XIV” não apresenta, nas duas primeiras quadras, maiores dificuldades de interpretação. Mas apresenta algumas na terceira quadra e no dístico final – equivalentes, no soneto inglês, aos dois tercetos do soneto italiano. Equivalência que explica a divisão temática deste soneto. A forma soneto possui uma estrutura que pressupõe ou impõe um arranjo de silogismo, pelo qual a primeira estrofe apresenta os pressupostos ou argumentos, a segunda os desenvolve e as duas finais os resolvem. Se no caso do soneto italiano a divisão estrófica, em 4-4-3-3 versos, marca ou traduz tal estrutura temática, no caso do soneto inglês isto não acontece. Assim, se o soneto inglês seguisse sua própria divisão/organização, em 4-4-4-2 versos, teria três estrofes para apresentar e desenvolver os argumentos, e apenas dois versos finais para concluí-los, o que resultaria pesadamente desequilibrado (se o número total de versos da terceira quadra e do dístico final ingleses é o mesmo, seis, dos dois tercetos italianos, a igualdade de dimensão entre a terceira quadra e as duas primeiras a torna parte de seu conjunto, deixando apenas o dístico isolado – enquanto no soneto italiano as duas primeiras quadras formam um conjunto e os dois tercetos outro). Isto explica, afinal, que este soneto tenha uma estrutura inglesa, mas uma organização de argumentos claramente italiana.

As duas quadras iniciais, assim, apresentam e desenvolvem a tese de que o personagem em primeira pessoa não pratica ou não sabe praticar previsões habituais baseadas nos astros, o que não o impede, porém, de acreditar (methinks) que tenha alguma “astronomia”: “And yet methinks I have astronomy”. Tal “astronomia” (ou astrologia, em termos contemporâneos) particular será afinal apresentada, portanto, no primeiro verso da terceira estrofe (depois de o argumento inicial ocupar as duas primeiras). A explicação está nas “estrelas” em que essa “astronomia” peculiar se baseia, que são os olhos do interlocutor. Se isto explica o fato de o narrador ter e não ter “astronomia” (não tê-la no sentido habitual, e tê-la no sentido particular que é o próprio objeto do poema), não explica, porém, quem é esse interlocutor.

Tratando-se de Shakespeare, há aqui muitas interpretações correntes e concorrentes. Tratando-se, porém, de Shakespeare, há interpretações francamente dominantes. Neste caso, a maioria dos sonetos shakespearianos é lida como tendo por destinatário um jovem companheiro do poeta, que assume a posição e o ponto de vista do homem mais velho (enquanto uma minoria seria destinada à “dark lady”). É o caso do “Soneto XIV”. Seu tema retoma um antigo e conhecido topos medieval (Shakespeare, afinal, viveu na transição entre a Idade Média e a Moderna), o da efemeridade da carne – aqui referida, por metonímia, como “truth and beauty”. A equivalência entre carne e beleza não carece de explicação. Já o par “beleza e verdade” não carece de explicação trabalhosa: a identificação entre o belo e o verdadeiro, de matriz e matiz platônicos, é tradicional. O que, enfim, o poeta sabe ler nas “estrelas confiáveis” (“constant stars”) dos olhos, o conhecimento que deles deriva (“from thine eyes my knowledge I derive”), sua sapiência ou expertise (ou art, no original, no sentido medieval de engenho, aprendizado), é: ou aquele que possui a beleza e a verdade as preserva, ou se transforma em seu destruidor. Pois o seu fim é o fim das mesmas beleza e verdade, segundo o belíssimo e aliterante último verso: “Thy end is truth’s and beauty’s doom and date”.

O verso que introduz a condição de preservação diz: “If from thyself to store thou wouldst convert”. To convert, aqui, tem o sentido de virar (-se para). O verbo to store significa manter, estocar, preservar. Trata-se, então, de dizer para o interlocutor voltar-se, isto é, voltar sua atenção, para a preservação daquelas qualidades. Como, porém, preservá-las, se somos mortais e se, antes de morrer, envelhecemos? Daí, afinal, a leitura desse to store, de modo figurado, como mantê-las vivas, ou seja, semeá-las, procriá-las. Ou o destinatário se decide a se reproduzir, e assim reproduzir sua beleza e verdade, ou encara o fato de ter se tornar o veículo de sua destruição, depois de ter sido o de sua materialização. O poema é, em suma, uma exortação à procriação, à paternidade, ainda que o seja como uma convocação à perpetuação da beleza. De qualquer maneira, é inevitável a percepção de que se trata de algo estranho à nossa época, ao contrário, por exemplo, dos solilóquios de Hamlet. Em primeiro lugar, beleza e verdade há muito deixaram de ser sinônimos, complementares ou mesmo próximos. Entre inúmeros motivos, porque a beleza é hoje por construção falsa, no sentido de artificial, enquanto a verdade existe apenas no sentido e na dimensão comezinhos e cotidianos de sinceridade. Além disso, somos ambíguos quanto às excelências de nossa descendência. Se por um lado louvamos, por exemplo, sua enorme familiaridade com os instrumentos complexos da sociedade da informação, por outro lado lamentamos sua enorme familiaridade com os instrumentos complexos da sociedade da informação, que se dá em detrimento de inúmeras outras capacidades, desde o hábito de leitura até o da conversação civilizada. Por fim, os atributos tanto físicos quanto intelectuais de nossa prole são hoje creditados não tanto às excelências ao mesmo tempo morais e transcendentes dos progenitores (cuja beleza física costumava idealmente traduzir a beleza ou virtude de seu espírito, ou seja, sua Verdade), mas à qualidade dos genes e dos exames pré-natais. Isto dito, a beleza do poema parece tão verdadeira quanto duradoura.

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Seus pentâmetros iâmbicos, versos de cinco pés sem correspondência exata no português, têm como equivalente o decassílabo heróico (pois cada um dos cinco pés do pentâmetro possui duas sílabas), acentuado obrigatoriamente na sexta e na décima sílabas. Este é, portanto, o metro escolhido por Josely Vianna Baptista. A maior dificuldade tradutória talvez resida então no fato de que o inglês é uma língua rica em monossílabos e dissílabos, enquanto no português predominam os trissílabos e tetrassílabos. Como o pentâmetro tem grosso modo o mesmo número de sílabas que o decassílabo, a tendência é caber mais informação no verso inglês do que em seu equivalente em português. “Of plagues, of dearths, or season’s quality”: “Das pragas, das misérias ou da qualidade da estação”. Na tradução de JVB, “Ou o tempo, a miséria, a epidemia”: “a qualidade” do tempo, do clima, é portanto elidida.

O “Soneto XIV”, em todo caso, demonstra que Shakespeare é de fato mais simples do que se costuma supor. Ao menos em termos sintáticos. Pois tem a clareza (sintática) como objetivo, nos sonetos ainda mais do que nas peças, porque o texto destas é cercado de inúmeros recursos não-verbais, enquanto um poema conta apenas consigo próprio, e porque seus modelos eram os clássicos greco-romanos então em voga, nos quais a clareza era de rigor. Daí a simplicidade, a diretividade sintática dos oito primeiros versos, seguida de perto por JVB, que, isto resolvido, dedica-se a recuperar a beleza da sonoridade original com o ritmo e as rimas da língua portuguesa.

As maiores dificuldades, como referido, começam a partir do nono verso. Não porque então Shakespeare se torne “barroco”, mas porque passa a usar imagens menos diretas. A sintaxe, porém, continua simples, advindo a complexidade dos últimos versos da sutileza imagética e, principalmente, da densidade sonora. Exemplo maior é o verso final: “Thy end is truth’s and beauty’s doom and date”. “Seu fim é a condenação e a extinção da beleza e da verdade”, diz simplesmente. Porém a forma como materializa essa afirmação nada tem de simples. Ou seja, sua sonoridade e a organização dessa sonoridade.

Em primeiro lugar, o ritmo. Há aqui uma marcação quase marcial, pela qual cada par de palavras curtas recai quase perfeitamente sobre um dos pés duplos (feitos de uma sílaba breve e uma longa) do verso: Thy end / is truth’s / and beau / ty’s doom / and date (a última sílaba átona, -te, não entra na contagem). As separações entre as palavras e as divisões entre os pés têm, portanto, uma correspondência perfeita (o que não é necessário nem comum: “Or else of thee this I prognosticate”). Sobre esse ritmo ominoso, Shakespeare amarra uma densa trama sonora, feita, primeiro, pela repetição dos tt (“Thy end is TruTh’s and beauTy’s doom and daTe”), e, segundo, pelo par doom and date, que pela carga semântica, pelo ritmo marcado, pela aliteração e, afinal, pela gravidade de suas vogais, parece o bater de um tambor. Sem falar na perfeita interação entre significado e posição, esta reforçando aquele, pois a palavra date, data, no sentido de duração de tempo, logo, de seu fim, fecha o verso e o poema.

Como reproduzir ou recuperar tudo isso numa tradução? Não recuperando nem reproduzindo. A tradução de um poema, porém, é ainda assim a tradução de um poema, logo, deve traduzir o poema, objeto feito de significantes e de significados – e mais ainda, das relações particulares que podem adquirir na linguagem poética em geral e que de fato adquirem nas mãos de um grande poeta em particular. Enfim, se não se pode reproduzir tudo, deve-se recuperar o máximo (torna-se então notável, nos dois sentidos, a elegância e a clareza, na presente tradução, daquele complexo verso 12 – “Se o que te é dado dás a semear-te” –, ou a recuperação do par aliterante final doom and date pelo par anagramático termo e morte).

Traduzir, sabe-se, é um jogo de perdas e ganhos. Vence aquele cujos ganhos, sempre difíceis, equilibram as perdas sempre inevitáveis. Portanto todos perdem e todos ganham. Perde o poema o que tinha de irrecuperável, ganha a tradução o que havia de recuperável, ganha o tradutor ao não se deixar vencer, ganha a língua de chegada um novo poema, e ganham um novo poema os leitores dessa língua. Há perdas que não se pode deixar de querer ganhar. Pois se traduzir mal é, enfim, falhar simplesmente, traduzir bem, ou muito bem, é buscar a melhor, mais trabalhosa e mais bela maneira de fracassar. JVB “fracassa” belissimamente.

Luis Dolhnikoff

William Shakespeare, Sonnet XIV

Not from the stars do I my judgment pluck;
And yet methinks I have astronomy,
But not to tell of good or evil luck,
Of plagues, of dearths, or seasons’ quality;
Nor can I fortune to brief minutes tell,
Pointing to each his thunder, rain and wind,
Or say with princes if it shall go well,
By oft predict that I in heaven find:
But from thine eyes my knowledge I derive,
And, constant stars, in them I read such art
As truth and beauty shall together thrive,
If from thyself to store thou wouldst convert;
Or else of thee this I prognosticate:
Thy end is truth’s and beauty’s doom and date.

 

Soneto XIV (tradução Josely V. Baptista)

Não está nas estrelas o meu tino;
Sei um pouco, porém, de astronomia,
Mas não para prever qualquer destino,
Ou o tempo, a miséria, a epidemia:
Não posso em um minuto dar a sorte,
A cada qual seu raio, ou chuva, ou vento,
Nem por indícios a que o céu me aporte,
Ao príncipe augurar feliz intento.
Mas de teus olhos vem-me esse saber,
E os vejo (astros constantes) com tal arte,
Que o belo e o verdadeiro irão crescer
Se o que te é dado dás a semear-te:
Senão teu fim, prevejo a tua sorte,
Da beleza e verdade é o termo e a morte.
*Josely Vianna Baptista é poeta, editora e tradutora de literatura hispano-americana. Recebeu em 1999 o Prêmio Jabuti pela tradução de livros de Jorge Luis Borges para as Obras Completas. Sol sobre nuvens (Perspectiva, 2007) reúne parte representativa de sua poesia, que inclui os livros Ar (Iluminuras, 1991), Corpografia (Iluminuras, 1992; com arte visual de Francisco Faria) e Outro (Mirabilia, 2001, em colaboração com Maria Angela Biscaia e Arnaldo Antunes), entre outros.

 

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Jovens de favelas na produção cultural brasileira dos anos 90 | Silvia Ramos

Para Paul Heritage

Neste artigo, pretendo identificar a existência de traços comuns em iniciativas culturais de jovens de periferias e favelas de centros urbanos brasileiros, surgidas em meados dos anos 90. Proponho que, embora se constituam como experiências heterogêneas e não-articuladas, algumas delas apresentam, em primeiro lugar, aspectos inovadores no repertório de princípios e práticas das Organizações Não-Governamentais (ONGs) e do campo da esquerda, nos quais as iniciativas da sociedade civil brasileira tradicionalmente se inscrevem. Em segundo lugar, proponho que algumas dessas expressões se tornaram uma referência forte no contexto das manifestações culturais, da segunda metade da década passada e da atual. Ao identificar pontos de contato entre manifestações produzidas por jovens das favelas e aspectos da contracultura dos anos 60 e 70, e estabelecer ligações entre alguns de seus personagens, busco responder à questão: serão os grupos de jovens das periferias, na presente década, com sua “arte a serviço da justiça social”, os herdeiros mais diretos da tradição cepecista de “arte engajada”? Entre “CPC, vanguarda e desbunde”, quais continuidades e rupturas é possível estabelecer?

Três ou quatro características da produção cultural de jovens de favelas

Entre os acontecimentos marcantes na cena política brasileira dos anos 90, no campo de iniciativas da sociedade civil, está o surgimento de grupos de jovens de favelas e periferias ligados a iniciativas de cultura e arte. Em geral, começam como projetos ou programas locais baseados em ações culturais e artísticas, frequentemente desenvolvidos e coordenados pelos próprios jovens. Exemplos desses empreendimentos são os grupos Olodum, em Salvador, o AfroReggae, o Nós do Morro, a Cia. Étnica de Dança e a Central Única de Favelas (CUFA), no Rio de Janeiro, além de agrupamentos mobilizados em torno da cultura hip-hop nas periferias de São Paulo, nas vilas de Porto Alegre, nos aglomerados de Belo Horizonte e em bairros pobres de Recife, Brasília e São Luís. Acompanho mais de perto a trajetória de três desses grupos, o AfroReggae, o Nós do Morro e a CUFA e creio que algumas de suas principais características anteciparam aspectos que estão presentes entre dezenas, talvez centenas de grupos espalhados por favelas e bairros de periferias em centros urbanos brasileiros.

Esses grupos expressam, por meio de diferentes linguagens, como a música, o teatro, a dança e o cinema, idéias e perspectivas dos jovens das favelas. Ao mesmo tempo, buscam produzir imagens alternativas aos estereótipos da criminalidade e do fracasso associados a esse segmento da sociedade. Alguns falam abertamente no compromisso de produzir alternativas para os jovens fora da criminalidade e das fortes atrações materiais e simbólicas oferecidas pela rede de tráfico de drogas, presentes na maioria desses territórios – dinheiro, “respeito” imposto pela ostentação das armas, acesso às roupas e aos tênis da moda, enorme capacidade de atração de garotas bonitas, ambiente onde circulam carros e motos e em que a música rola pela madrugada, além, obviamente, do acesso às drogas. Outros grupos, como indicarei, recusam-se a situar seus esforços num suposto dilema “crime x arte” e apresentam um discurso que recusa a idéia de “tirar jovens do tráfico”; apenas falam em produzir arte de qualidade para romper estereótipos e estigmas. Seja como for, todas as iniciativas procuram exercer não só na comunidade de jovens locais, mas também em outras comunidades, uma sedução ligada ao glamour da arte, à visibilidade e ao sucesso.

Apesar de configurarem um campo heterogêneo, e até bem recentemente não-articulado, é possível identificar pelo menos quatro aspectos comuns a esses grupos. Tais características surpreendem, sobretudo, pelo fato de surgirem no campo de ações da sociedade civil, no qual predominam, desde os anos 90 até a presente década, modelos associativos bem estabelecidos, o das chamadas organizações não-governamentais.1

Celebridades. A primeira característica forte é o componente de investimento nas trajetórias individuais e nas histórias de vida. Vários grupos valorizam o campo simbólico da subjetividade e investem na formação de artistas e líderes, cuja fama passa a servir como modelo. Numa contra-operação de criação de estereótipos, procuram construir imagens de jovens favelados que, contrariando a profecia, tornaram-se dançarinos, cineastas, artistas de teatro ou músicos. Usam insistentemente a grande mídia e tentam parcerias com os fortes conglomerados de comunicação, aparecendo simultaneamente como artistas e como ativistas que falam em nome dos jovens das favelas. Nesse sentido, eles se afastam do modelo sindical e associativo de esquerda, no qual a cultura do “coletivo” deve imperar sobre as trajetórias individuais. Não há apenas um foco voltado para “o grupo”, “a favela”, mas há um investimento explícito na construção de “personagens”. Anderson e José Júnior, do AfroReggae e MV Bill, da CUFA, são os exemplos mais evidentes dessa estratégia. Em outras palavras, o sucesso e a fama seriam entendidos como metas políticas e as estratégias de mídia, muitas vezes bastante sofisticadas, seriam elementos de uma militância.2

Mercado. Uma segunda característica marcante desses grupos é o seu interesse no mercado. Ao contrário das ONGs tradicionais, buscam a curto prazo alternativas de renda e emprego para seus integrantes, além de colocação no mercado e profissionalização. Neste sentido, criam uma cultura oposta à do “sem fins lucrativos” que caracteriza as ONGs brasileiras.3 Ao serem simultaneamente “ponto-org” e “ponto-com”,4 em geral operam com duas identidades jurídicas: como organização não-governamental (a partir da qual recebem doações de fundações internacionais, nacionais e governamentais), e como “empresa cultural”. Embora reafirmem o pertencimento ao campo do “trabalho social”, a maioria desses grupos move-se no sentido de dependência cada vez menor das doações internacionais e das governamentais, isto é, viver cada vez menos “de projetos”, “de avaliação de impacto” etc.,5 na procura pela capacidade de sustentação como empresas culturais que disputam o mercado.

O Grupo Cultural AfroReggae, por exemplo, estabeleceu explicitamente metas relativas ao autofinanciamento. Em abril de 2007, afirmava que 30% de sua receita total como ONG mantenedora de mais de 60 projetos advinha da venda de shows de sua banda profissional e de produtos associados à marca AfroReggae.6 Neste ano, o AfroReggae passou a custear a maioria de suas atividades por meio de uma nova modalidade de financiamentos: ofereceu “cotas” da organização que foram compradas por duas empresas (uma privada e outra estatal) as quais, por três anos, fornecerão recursos em troca da propaganda das suas marcas em todas as ações do grupo.

Território. A terceira característica bastante comum a quase todos os grupos de jovens de favelas é sua afirmação territorial. As letras de músicas, as camisetas e as roupas, as imagens associadas aos grupos reafirmam permanentemente os nomes das comunidades de origem (Vigário Geral, Vidigal, Cidade de Deus, Alto do Vera Cruz, Capão Redondo, Brooklin, Alto do Pina etc.). Curiosamente, a reiterada afirmação de compromisso com o território de origem não se traduz em bairrismo ou nacionalismo. Os grupos combinam o “amor à comunidade” com a adesão aberta aos signos da globalização (Coca-Cola, tênis Nike e outros) e produzem conexões entre o local e o universal via internet, sites e revistas. Atribuem alta prioridade aos intercâmbios com outras comunidades – inclusive com jovens de classe média – e às viagens nacionais e internacionais.

Orgulho racial. Um último componente do novo repertório introduzido por jovens de favelas é a forte presença da denúncia ao racismo e à afirmação racial negra, seja nas letras das músicas, nas indumentárias (cabelos afro, roupas), seja nos nomes de projetos e líderes (AfroReggae, Companhia Étnica, Negros da Unidade Consciente, Mano Brown, Zé Brown etc.). Nos anos 90, esses grupos foram responsáveis, no âmbito da cultura, juntamente com outros grupos de expressão mais comercial, mas igualmente preocupados com a juventude das periferias, como O Rappa,7 pelo rompimento do silêncio sobre a temática racial que, curiosamente, predominou na fervilhante cena musical desde os anos 60. Isto se deu não só nas expressões culturais tradicionais como o samba, mas também na bossa nova, na jovem guarda e na maioria das manifestações culturais em que “juventude” era sinônimo de estudantes de classe média dos centros urbanos.

A incorporação da temática racial na produção cultural dos grupos oriundos das favelas situou-os, nos anos 90, em uma curiosa posição: aparecem como “porta-vozes” da problemática da desigualdade racial e, ao mesmo tempo, mantêm certa dessintonia com o tom de vitimização usado por lideranças negras tradicionais. Sem pertencerem ao chamado “movimento negro”, esses jovens referem, em grande parte das músicas, dos filmes ou das entrevistas, o fato de serem “negros” e “favelados” e de pertencerem à periferia ou ao “gueto”. E o fazem por meio de uma fórmula curiosa, que combina denúncia com orgulho racial e territorial, muitas vezes cantados e dançados numa explosão de alegria que não combina com a sisudez e as estratégias punitivas que predominaram no movimento negro tradicional, como é o caso de grupos como o Olodum e o AfroReggae. As expressões “atitude” e “auto-estima” são as que melhor definem, na linguagem nativa, a ideia de que em todos os grupos se pretendem forjar novas imagens e novos estereótipos associados aos jovens negros das favelas.8

O papel dos grupos de jovens de favelas nas respostas brasileiras à violência

No campo dos estudos sobre as respostas brasileiras à violência, vários desses grupos tornaram-se importantes como “mediadores”, ou seja, como tradutores entre a juventude das favelas e governos, mídia, universidades e, muitas vezes, atores internacionais, como fundações e agências de cooperação. Esses jovens estabelecem pontes entre os mundos fraturados da cidade e da favela e frequentemente são os únicos pontos de contato para quem pretende entender como pensam, o que sentem, como vivem e o que querem esses moradores de bairros pobres das cidades. Como se sabe, os jovens, em especial os jovens negros moradores das periferias brasileiras, estão no centro do problema da violência, seja como vítimas, seja como protagonistas.9 As ações culturais dos jovens de periferias são parte importante dessas respostas, mas estão longe de ser um campo homogêneo de ações convergentes.

No que diz respeito à violência e à criminalidade, alguns desses grupos procuram exercer diretamente papéis de mediadores na “guerra” entre facções do tráfico de drogas, e assumem a missão de “tirar jovens do tráfico”. É o caso, por exemplo, da CUFA e do AfroReggae,10 mas esta não é a regra. Por exemplo, o grupo Nós do Morro, do Rio de Janeiro, recusa sistematicamente aproximação ou diálogo com os chamados “traficantes” locais e não alude ter qualquer compromisso associado à criação de alternativas à criminalidade entre os seus objetivos.11

Outras iniciativas, por sua vez, assumem posições até mesmo ambíguas em relação ao “mundo do crime”. É o caso do grupo de rap Racionais MCs que, exercendo forte influência sobre muitas “posses” de hip-hop pelos bairros de São Paulo e mesmo do Brasil, identifica-se com os “manos” presos e faz poucas concessões aos discursos politicamente corretos contra a criminalidade, atitude que se depreende das letras de suas músicas. Nas raras entrevistas de componentes deste grupo, as posições são menos duvidosas,12 mas identificam um discurso bastante diverso, por exemplo, daquele do MV Bill que, após a exibição de Falcão, meninos do tráfico, em outubro 2006, aceitou discutir com o presidente Lula e os seus ministros a construção de alternativas para prevenir e recuperar jovens envolvidos com o tráfico de drogas. Um outro tema delicado que parece ser bastante heterogêneo entre os grupos que estamos analisando é o das drogas. Enquanto AfroReggae e MV Bill passaram a assumir discursos críticos não só em relação ao tráfico, mas ao consumo de drogas, Nós do Morro mantém silêncio sobre o assunto e Racionais, entre outros grupos de hip-hop evocam claramente em suas músicas o “barato” do consumo.

Uma outra distinção necessária é que essas iniciativas – que no campo de respostas à violência identifico como novas mediações – não são nem as únicas, nem as principais, nem necessariamente as mais eficientes para “tirar jovens do tráfico”. Hoje desenvolvem-se no Brasil um sem-número de ações em favelas e bairros de periferias voltadas para jovens. São projetos governamentais, empresariais e civis, liderados por grupos religiosos, associações de moradores ou ONGs, ligados à educação, ao esporte, à saúde e também à cultura, que têm capacidade infinitamente maior de atingir diretamente jovens em risco de ingresso na criminalidade.

As marcas específicas e fortes dos grupos que produzem cultura e arte nas favelas e assumem o papel de mediadores entre “favela” e “cidade formal” não são, portanto, os chamados “projetos socais” que eles desenvolveriam, mas sim a liderança assumida por seus jovens componentes. Essa liderança traz como novidade a produção de um discurso na primeira pessoa; a capacidade de expressar signos com os quais os jovens das favelas se identificam e, ao mesmo tempo, de criar modelos que recusam as imagens tradicionais; a criação de metáforas por meio das histórias de vida; por último, a capacidade de transitar na grande mídia e na comunidade, entre diferentes facções, classes sociais e governos; percorrer o local e o internacional. Em outras palavras, esses grupos são tão ou mais importantes como interlocutores na vida da “cidade” (na relação com governos, mídia, universidades) do que na vida da própria “favela”.

Se é inegável que tais iniciativas culturais fizeram desses grupos atores centrais do debate sobre juventude e personagens definitivos das soluções que o país terá que encontrar para reduzir a violência e a chamada “exclusão” da juventude pobre, resta perguntar: que importância esses grupos, esses artistas têm para a cena cultural dos anos 90 e da presente década?

Tropicalismo, contracultura e favelas: personagens e pontos de contato

Ao contrariar o bom senso, eu gostaria de argumentar que há mais arte e produção cultural na trajetória de alguns desses grupos do que a onipresença dos “projetos sociais” permite identificar a olho nu. Que foi exatamente a incorporação do papel de artistas – músicos, escritores, cineastas, atores – que impediu que essas lideranças e esses grupos tivessem se tornado, ainda nos anos 90, apenas operadores da justiça social ou defensores dos oprimidos.

Quando traduzimos a questão para os termos do debate que suscitaram o presente livro, em que medida esses grupos de jovens de favelas, voltados para cultura e para a arte, seriam tributários de influências do CPC, da esquerda nacionalista e populista ou da opção revolucionária dos anos 70? No dilema luta armada x desbunde (ou mais especificamente arte engajada x vanguarda experimentalista) dos anos 60 e 70, que grosseiramente poderia ser transposto hoje para trabalho social x produção cultural, quanto existe de produção de arte nos grupos oriundos das favelas preocupados com a violência e a justiça? Efetivamente, há uma tensão permanente, um dilema entre a “cultura a serviço do social” e a opção pela arte. Isto se verifica e se reitera ao longo da história de organizações como o AfroReggae e o Nós do Morro,13 que têm feito esforços para não sucumbir aos riscos inerentes ao seu percurso: a influência demasiada de seus patrocinadores, especialmente quando eles são grandes empresas ou governos e as eleições se aproximam, e a construção involuntária de novos estereótipos, como o de garotos negros bem comportados que fazem música e teriam “escapado do crime”, ou ainda o de “favelados que fazem teatro” etc.14

No caso da banda AfroReggae, o grupo parece responder a isto procurando uma solução estética própria, fugindo não só do estereótipo “meninos que tocam tambor”, mas também do estilo “batidania”.15 O antropólogo Hermano Vianna definiu assim a música da banda:

o multiestilo afroreggae é produto do encontro de algumas das manifestações mais vitais surgidas na música brasileira em tempos recentes: mangue beat; rap paulistano; samba-reggae baiano; funk carioca. Aqui e ali os ecos do reggae jamaicano traduzido pelo Rappa, do hip-hop-hardcore transformado pelo Planet Hemp, das batidas de xaxado e techno ou de toques de capoeira e candomblé. Não é fusão. Mas é mais que justaposição. Música-Barraco: construída com uma variedade estonteante de elementos, mas elementos que se juntam seguindo um método, um plano e transformam-se em lares (sonoros ou não), e o conjunto dos lares forma uma comunidade.16

As novas produções musicais de MV Bill, segundo a crítica, vêm seguidamente incorporando formas mais musicais, além de samplers de samba e de músicos, como Caetano e Sandra de Sá,17 inovações heterodoxas no contexto hip-hop, como se observa em seu último CD, Falcão, o bagulho é doido. Como escritores, MV Bill e Celso Athayde tornaram-se primeiramente co-autores, com Luiz Eduardo Soares, e depois autores de livros com grande vendagem nacional. Como cineastas, Bill e Athayde optaram pela parceria com a Rede Globo para finalizar seu primeiro documentário.18

O Nós do Morro tem dado inúmeras mostras de sua preocupação com uma produção efetivamente artística e de qualidade. Ao combinar, na trajetória de 20 anos, criações coletivas (Amores trágicos) com textos clássicos (Sonhos de uma noite de verão e Dois cavaleiros de Verona), uma preocupação central tem sido a profissionalização de atores e a produção de bons espetáculos.

Tudo indica que esses grupos sabem que sucumbirão num mercado altamente competitivo se permanecerem na perspectiva dos “jovens de projetos socais”, e vêm investindo enormes esforços para se capacitarem como artistas profissionais. Além disso, a circulação desses grupos e de suas lideranças entre artistas da música, da literatura e do cinema contemporâneos da cena cultural brasileira dos anos 90 e da presente década marcou possivelmente suas trajetórias culturais tanto quanto seus compromissos com a comunidade.

É o que se denota da intensa e surpreendente relação entre o grupo AfroReggae e Waly Salomão, desde o segundo ano de criação do grupo, em 1993. Segundo longos depoimentos de José Júnior, coordenador executivo do AfroReggae, Waly foi responsável por ter intuído que o AfroReggae “seria uma potência social e cultural quando a base do grupo era um quarto e uma dúzia de garotos voluntários com muita boa vontade”.19 Além de tê-los apresentado a Caetano Veloso e a Regina Casé, que depois se tornariam “padrinhos” do AfroReggae, Waly levou o grupo para tocar no lançamento de Algaravias, na livraria Timbre, no Shopping da Gávea, em 1996; também os levou ao lançamento de Tarifa de embarque, em 2000, com um show na rua Dias Ferreira, no Leblon – experiências que Júnior descreve como altamente impactantes no livro Da favela para o mundo.

Segundo Júnior, Waly amava as favelas, os becos, Vigário, Conexões Urbanas – este um projeto que entre 2002 e 2005 levou 40 shows com artistas famosos para o interior de favelas do município do Rio de Janeiro. O livro Da favela para o mundo é dedicado a dois “mestres”, Waly Salmão e Lorenzo Zanetti (coordenador da FASE, organização não-governamental que orientou a elaboração dos primeiros projetos do AfroReggae).

Sintomaticamente, Júnior fala da importância de Waly, como “mestre, guru e ídolo”, que o ajudou a lapidar o conhecimento artístico e cultural que tem, que o ensinou a ler e a escrever e que semanalmente agendava encontros e eventos culturais para o grupo. Waly é sempre referido em reuniões do AfroReggae como o responsável pela quebra de paradigmas e preconceitos, não só musicais e artísticos, mas também de padrões afetivos e sexuais.20 A casa-estúdio multimídia que está sendo construída em Vigário Geral e que pretende ser o principal pólo de produção cultural de favelas da cidade será chamada “Waly Salomão”.

De fato, não só Caetano, Gil e Regina Casé, personagens com intensa participação no movimento tropicalista e “pós-tropicalista”,21 no caso de Casé, mas Jorge Mautner e, posteriormente, Gerald Thomas tornaram-se parceiros artísticos do AfroReggae,22 em um caminho certamente tributário à influência inicial de Waly. Também é expressivo o fato de que no festival “Tropicália, a Revolution in Brazilian Culture”, organizado pelo Barbican, em Londres, entre fevereiro e maio de 2006, o AfroReggae tenha sido o grupo jovem convidado para apresentar dois shows e a participar de uma semana de oficinas e debates.23 Efetivamente, é possível estabelecer linhas de contato entre a “atitude incorporativa”, a operação com a idéia de “inclusão”, e a “bricolagem”, típica dos tropicalistas,24 e o multiestilo AfroReggae, que não é fusão e é mais que justaposição, segundo Hermano Viana, citado acima.

Também a assunção radical do palco, a movimentação cênica parodística25 conectam-se ao estilo de palco do grupo de Vigário Geral, já definido como de uma “alegria guerreira”. O namoro com os canais de massa e o desejo de “cantar na televisão”, abertamente assumidos pelos tropicalistas, em oposição às restrições da “produção cultural engajada” dos anos 60 e 70, reportam para as posições do AfroReggae, da CUFA e do Nós do Morro. Incluem-se, ainda, os debates acalorados no interior do movimento hip-hop e as restrições das organizações de esquerda. Por último, a desconstrução das oposições fetichizadas entre o “nacional” e o “autêntico”, de um lado, e o “alienígena” e o “descaracterizador”, de outro,26 operada pela atitude tropicalista, encontra nexo na curiosa capacidade de convivência que o AfroReggae e os outros grupos são capazes de estabelecer com a dedicação quase obsessiva à “comunidade” e a abertura para signos e marcas nada locais, como internet, Coca-Cola ou Red Bull.27 Em outras palavras, a possibilidade de manterem o foco na favela sem se tornarem provincianos, bairristas ou nacionalistas e a capacidade de articularem diálogos com o “estrangeiro” e o “multinacional” indicam uma operação sofisticada que a maioria desses grupos tem sido capaz de fazer até aqui, mais relacionada à ousadia tropicalista do que à tradição cepecista ou de esquerda.

Chama a atenção igualmente que outros participantes ou personagens do momento da contracultura, como Cacá Diegues, seja conselheiro e colaborador da CUFA – e diretor de clipes de artistas desses grupos, além de diretor de um documentário sobre o AfroReggae – assim como André Midani, colaborador deste último grupo.

Em 2006, o Nós do Morro iniciou sua comemoração de 20 anos com a apresentação de Dois cavaleiros de Verona, em montagem apresentada em Stratford-upon-Avon, a convite da Royal Shakespeare Company. Trata-se de encenação que dialoga com elementos do tropicalismo, reunindo dança, música e acrobacias, num resultado que surpreende não porque os atores são negros e da favela, mas porque são jovens e preparados. Enfatizo este ponto para indicar que o Nós do Morro não comemora seus 20 anos com um teatro “engajado” ou “do oprimido”, nem com um espetáculo que “fala sobre a favela”, mas com uma, digamos, montagem-favela de Shakespeare.

Recentemente, no início de 2006, três desses grupos – AfroReggae, Nós do Morro e CUFA – criaram, juntamente com a organização Observatório de Favelas (um grupo que trabalha com educação e pesquisa, originalmente baseado na favela da Maré), uma instância, um “dispositivo” chamado Favela 4, ou F–4. Trata-se da primeira articulação formal entre essas iniciativas e, segundo José Júnior, resulta de uma ação “política e empresarial”, que procura ligar conceitos, saber e tecnologias sociais. Possivelmente essa articulação deverá aprofundar ou potencializar os dilemas ou a tensão entre trabalho social e produção cultural; em torno dela a vida desses grupos – muitas vezes intuitivamente – tem se organizado desde os anos 90. Os próximos anos dirão se serão capazes de sobreviver ocupando com tanta intensidade, como têm feito até aqui, os cadernos de cultura e os cadernos de política dos jornais.

Na minha opinião, engana-se quem imagina que a função ou o “valor” dessas manifestações seja “tirar jovens do tráfico”. Pelo contrário, há milhares de iniciativas que desenvolvem esse papel provavelmente melhor que esses grupos. As novas lideranças políticas surgidas nos anos 90, esses jovens artistas, estão trazendo novidades importantes para a cena cultural. E isto não só porque transportam a periferia para o centro e produzem um discurso, falado na primeira pessoa, sobre a favela – ou porque, pela primeira vez, um movimento político e cultural jovem não corresponde a um acontecimento exclusivo das classes médias – mas também porque têm a função de indicar que não há só marasmo depois dos anos 70.

A despeito das restrições desses grupos em relação às drogas, acho que não há nenhuma experiência tão forte atualmente, no Rio de Janeiro, no sentido das “viagens que podem mudar a sua vida”, muitas vezes referidas no contexto da “explosão anárquica do tropicalismo” ou da “opção vitalista de produção alternativa”,28 como a de ir a uma favela à noite para assistir a uma peça do Nós do Morro ou a um show do AfroReggae.

* Silvia Ramos é pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes.

Referências Bibliográficas

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YÚDICE, George. A conveniência da cultura: usos da cultura na era global. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

 

NOTAS

1 Ver Landim, 1988 e Fernandes, 1988.
2 Note-se que essas operações nem sempre se realizam sem contradições. O acordo da CUFA com a Rede Globo de televisão, para a exibição do documentário Falcão, meninos do tráfico, e a participação de MV Bill no programa Fantástico, em outubro de 2006, gerou polêmica no “mundo do hip-hop”. Acalorados debates em entrevistas e sites se verificaram na ocasião. A superexposição de José Júnior, do AfroReggae, promovida tanto por entrevistas como por filmes, muitas vezes gerou suspeitas de lideranças de grupos de favelas e de militantes de ONGs. Os argumentos mais frequentes são de que o AfroReggae estaria perdendo seus ideais. Igualmente, o contraste com a estratégia do grupo Racionais MCs, de São Paulo, que via de regra não dá entrevistas e “não vai onde a Globo está”, demarca posições fortes sobre como a produção dos grupos de favelas deve se relacionar com a grande mídia.
3 Ver Landim, 1988.
4 Sintomaticamente, as páginas web do AfroReggae, da CUFA e do Nós do Morro, podem ser acessadas tanto pelo endereço de prefixo “org” como “com”.
5 Para uma discussão sobre o “império dos projetos” como formato obrigatório de sobrevivência de organizações que vivem de doações internacionais, ver Arantes, 2000 e Landim, 2002.
6 Veja referência na página web: www.afroreggae.org.br (acessado em 10 abr. 2007).
7 Frases que ficaram famosas nos anos 90, como “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” (O Rappa) e músicas como Negro Drama, Periferia é periferia, Racistas otários, Favela Sinistra, Favela 100%, A cada 13 minutos (Racionais MCs); Coisa de Negão, Som de VG e Tô Bolado (AfroReggae); Preto em movimento, Um crioulo revoltado com uma arma e Manifesto do Gueto (MV Bill) são expressões da reiterada tematização do racismo, do pertencimento à favela e da violência policial.
8 Ver Soares, 2004.
9 Entre os quase 50 mil brasileiros assassinados por ano no Brasil, os jovens de 15 a 24 anos são vitimados em proporções extraordinariamente altas. A taxa de homicídios do país situava-se em 27 por 100 mil habitantes em 2004 (países da Europa Ocidental, como França, Inglaterra e outros, têm taxas de 3 homicídios por 100 mil habitantes). Em alguns estados, como Rio de Janeiro e Pernambuco, essas taxas atingiram 50 por 100 mil. Entre jovens de 15 a 24 anos, as taxas ultrapassam 150 por 100 mil habitantes, como é o caso de São Paulo, Espírito Santo, Pernambuco e Rio de Janeiro. A grande maioria dessas vítimas é pobre, negra e mora nas favelas dos grandes centros. Para uma discussão sobre o assunto, ver Silvia Ramos, 2006.
10 Neat & Platt, 2006 e Bill Soares & Athayde, 2005.
11 Ver www.nosdomorro.com.br (acessado em 10 abr. 2007).
12 Para conhecer posições dos Racionais ver, por exemplo, entrevista de K.L Jay em julho de 2002: http://cliquemusic.uol.com.br/br/entrevista/entrevista.asp?Nu_Materia=3699 (acessado em 16 abr. 2007). Em uma entrevista em outubro de 2005, ao jornal Agora São Paulo, Mano Brown, líder dos Racionais, assumiu a defesa do desarmamento.http://www1.folha.uol.com.br/agora/spaulo/sp1010200501.htm (acessado em 10 abr. 2007).
13 Para uma discussão sobre o dilema, ver Yúdice, 2004 e Ochoa, 2003. Para conhecer os pontos de vista dos próprios grupos, ver Júnior, 2003 e entrevista concedida por Guti Fraga, fundador do grupo Nós do Morro, a Mauro Ventura, s/d. (http://www.nosdomorro.com.br/acontece.htm) (acessado em 10 abr. 2007).
14 Fraga, idem.
15 Referência à idéia de batida e cidadania. Ver Yúdice, 2004:208.
16 CD Nova Cara.
17 Ver Luiz Fernando Vianna. Folha de S. Paulo, 09 de junho de 2006.
18 É sintomático que MV Bill e Celso Athayde venham se definindo em entrevistas, a partir de 2006, como “escritores e cineastas” e não como ativistas sociais. Ver http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG73596-6014-410,00.html. Publicada em 23 mar. 2006 (acessado em 10 abr. 2007).
19 Júnior, 2003:11.
20 É preciso ter em mente que grupos como o AfroReggae e diversos outros ligados aos jovens de favela são organizações predominantemente masculinas, marcadas por evidentes traços de misoginia e homofobia. A “bissexualidade” de Waly, seu estilo de amor declarado pelos meninos, suas risadas e brincadeiras irreverentes marcaram fortemente a formação do AfroReggae.
21 Hollanda, 2004.
22 Além de Mautner, chama a atenção que uma das músicas de grande sucesso do grupo é Mosca na sopa, de Raul Seixas. O último CD do grupo traz canções compostas em parcerias com Arnaldo Antunes, Nando Reis e Geraldinho Carneiro, além dos rappers ingleses Ty e Estelle.
23 Ver http://www.barbican.org.uk/artgallery/series.asp?ID=261 (acessado em 16 abr. 2007).
24 Ver Naves, 2001.
25 Naves, idem.
26 Naves, 2002:54.
27 No caso específico do AfroReggae, os pontos de interdição situam-se na recusa de patrocínios ou parcerias com empresas de cigarro ou bebida alcoólica. Ver Júnior, 2003.
28 Ver Hollanda, 2004:15.

 

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Dona Zefa, a criação do mundo através de imagens: do verbo faz-se a carne | de Zeca Ligiéro

“Nas história antiga, que eu conheci, dos meus bisavós… e os antigos, né?! Porque de livro não me interessa. Pelo menos, eu sei, eu vou contar as histórias do que se contava no passado.”

O presente artigo investiga as narrativas da artista, contadora de caso e benzedeira dona Zefa, moradora de Araçuaí, Vale do Jequitinhonha. Muitas de suas histórias são baseadas na Bíblia, mas passam por um processo de reinvenção, onde a narradora acrescenta elementos não originários das escrituras sagradas. As forças da natureza aparecem eloquentemente, tanto em seu trabalho escultórico como em sua narrativa, o que nos convence de que suas histórias se referem diretamente ao universo afro-ameríndio. Exclusivamente, por meio da sua performance, a narradora não só encarna a história como reinventa seus significados originais, dando-lhes novos contornos e novos contextos. Seu texto existe apenas como parte da sua performance oral, portanto ele só existe enquanto toma forma na voz e no corpo da performer, que literalmente o corporifica pela comunicação com o ouvinte/espectador. O artigo, portanto examinará a narrativa não apenas como texto literário, mas como elemento propriciador da performance oral, onde a história narrada não só exemplifica a relação do sujeito com o tema, mas o posiciona como criador de imagens vivas. Zefa reúne em seu ofício as diversas atividades ocupadas tradicionalmente pela pessoa de teatro: o dramaturgo ou adaptador do texto, o diretor de cena, o ator e espectador privilegiado da própria história já que ela faz pequenos comentários que poderíamos classificar como próximos à proposta do teatro Épico de Bertolt Brecht, coisa que, naturalmente, nunca ouviu falar. Seu cenário de fundo é composto de duas cortinas com estamparia floral que dão acesso a outros cômodos da casa e duas paredes totalmente revestidas com uma coleção de fotos de família, de colecionadores de seus trabalhos e amigos intercalados com toda a sorte de imagens de santos, cartões postais, recortes de jornal etc. Isto é sua sala de visita e oficina repletas de suas esculturas recém-terminadas ou ainda em processo, feitas em troncos de madeiras. A maioria delas é feita na forma de colunas com caras duras, anjos retorcidos junto, peregrinos e beatos das memórias longínquas das mesmas terras onde pisaram Antonio Conselheiro e Lampião e de onde ela tem as suas raízes familiares e onde viveu a sua juventude.

Mas, ao contrário do griôs conhecidos, Zefa não interpreta os personagens de suas histórias, ela os apresenta. Ela reproduz seus diálogos curtos com uma comedida pontuação, uma prosódia peculiar, emprestando-lhes sempre um tom coloquial como o da conversa de vizinhos na varanda de suas casas nas noites de lua cheia, assim ela trata os seus espectadores, não importa se autoridade ou criança que se chega. Seu teatro aproxima-se do universo da performance, pois ela conta com a imaginação do espectador para completar a história, embora o sentido da mesma ela não deixe escapar. Em nenhum momento cria a mimesis ou a linguagem corporal do personagem, não há em nenhum momento preocupação em recriar alguma atmosfera “teatral”, imitando trejeitos ou forma de falar de algum personagem. Os fatos são mais importantes que as reações físicas dos personagens, o que eles fazem e falam é mais importante do que eles sentem. Ela talha a sua narrativa num tom firme e extremamente convincente. São histórias do sertão, das terras secas e quentes do norte da Bahia, de Sergipe e Alagoas onde perambulou quando jovem, e as terras misteriosas das Gerais, os serros frios e desertos, serpenteados pelo rio Jequitinhonha.

Além de contadora de histórias, dona Zefa é uma ativa escultora em madeira, profissão que abraçou depois de fugir da seca do nordeste, onde trabalhou como feirante, vendedora ambulante, construtora de malas e carpinteira de camas “feitas a prego” para finalmente fixar residência no Vale do Jequitinhonha, uma região repleta de histórias e lendas. Ali também encontrou seu oficio mais nobre: a arte – ceramista por três anos, quando adoece e descobre a escultura em madeira que a projetou nacionalmente. Zefa Alves dos Reis é originária da região fronteiriça entre os estados de Alagoas, Sergipe e Bahia. Quando seu irmão mais velho, em 1958, foi construir Brasília em busca de uma situação melhor para família, viu-se em completa miséria, pois o irmão nunca mais deu notícias e nem retornou ao lar, ela então, como milhares de nordestinos, migrou para o sul ao lado da cunhada, que também não tinha uma profissão definida, em busca de uma vida melhor. O mundo encantado das lendas que ouviu, a Bíblia aprendida dentro de uma tradição oral e a própria história de vida se mesclam em seu trabalho escultórico bem como em suas narrativas épicas. Ela é contadora de caso desde criança como ela própria aponta em uma de suas histórias:

Foi lá na Serra dos Aimorés, (…) também tinha essa família que era de imigrante que veio de Portugal, aí os pais moraram lá numa sede muito boa, eram muito ricos, aí eles morrero e deixou duas filha. Duas foi vizinha nossa, uma morava, a casa dela ficava na frente da casa que nós morava e a outra morava mais longe, não sei cumé o nome dela, sei que eu fiquei na casa dela muitos dias com ela, porque naquela época não havia televisão e eu contava muita história de folclore né, porque na fazenda de meu avô, naquele tempo todo mundo sabia história, mas quem tinha memória boa pra guardá história, pai dizia assim “Zefa vai divertir o povo” contando história né, aquele multidão de gente sentava na calçada e eu sentava o pau pra contá história, e Preta, essa menina de Portugal, chamavam ela Preta. Mas era branca de olho azul, a peça mais bonita, parecia uma grande modelo né, era bonita demais. Ela casou com um tenente, o tenente era mineiro, mas naquele tempo que a tuberculose era igual a AIDS agora, que não encontra remédio, então a tuberculose tava matando gente demais, então o moço um dia começou a sentir uma dor, assim que ele casou, ele começou a sentir uma dor, por dentro nos intestino. Aí ela levou ele pra Belo Horizonte, aí ele passou no raio X, quando passou no raio X aí era tuberculose, tinha começado a mancha da tuberculose. Interessante, que o homem tava quase de lua de mel né, aí o médico disse assim “Aparta a dormida com sua esposa porque você ta contaminado, tuberculoso”, aí ela disse que veio, esse homem veio desesperado, aí passou remédio, aí retorna lá de novo em Belo Horizonte, aí ele foi e chegou, passou um dia, no outro dia, que ele disse assim “Ô Preta vai pegar uma água pra mim”, aí ela foi. Quando ela foi pegar a água, a casa era muito grande, quando ela foi pegar a água lá na cozinha, ele detonou o revólver perto do ouvido e morreu, aí ele morreu e ela ficou desesperada também, bom, quando nós chegamo lá tinha quinze dia que o marido dela tinha se matado e ela tava impressionada né. Aí de parente dela…. tinha uns amigo né, que os pai deixou, os parente são os amigo como eu tenho aqui né, é os amigo, só tinha uma irmã, aí eu contando muita história e o amigo disse assim, “ô Preta vamo divertir na casa de Sô Jão”, Zefa tá lá contando história e tem muita gente assistindo. Aí ela foi, assistiu, se divertiu muito, aí disse “Seu João”, meu pai se chamava João Aldo né, “Seu João Aldo, o senhor pode me dá a Zefa pra ela passar uns dia comigo, pra ela me divertir, contar história”. Porque ela perdeu o marido, tava pra perder o juízo, aí pai disse assim “Ah, a menina ta fazendo nada não, ela pode passa até meses com você, é aqui vizinho…”

Interessante como ela própria percebe o poder performativo de suas histórias, capaz de, como afirma Schechner, “transportar e transformar o espectador”. (SCHECHNER: 1985) O contato com as narrativas orais permite a viúva da história narrada transcender a sua própria dor individual ao mergulhar num universo místico criado pela contadora. Sua história, mesmo sem intenção, exerce um alto poder terapêutico. Atualmente com 84 anos, Zefa escreve a própia história de mulher e cidadã em Araçuaí, uma comunidade dominada pelo imaginário de vaqueiros e mineiros, tradições de lavadeiras cantoras e com muitos artistas e artesões, onde se destacam também suas conhecidas ceramistas: dona Lira, famosa por suas máscaras com motivos afro-brasileiros e dona Isabel, por suas bonecas grandes de cerâmica vestidas de noivas coloridas com os diferentes barros da região. Dona Zefa, não atribui a si própria a versão das histórias que conta, mas ao que foi aprendido com os mais velhos. Em suas histórias, se destaca a sua relação com a Mãe Terra, algo apreendido ao longo de sua existência e que considera primordial passar para os outros, como narra:

O moço da imprensa falou comigo “Zefa, é engraçado que eu tenho feito entrevista no mundo inteiro. Eu nunca soube da pessoa conversar com Deus considerando a Mãe Terra como mesa da comunhão. É a coisa mais bonita que eu achei na minha vida e eu vô passar pruns amigo meu que é estrangeiro.” Porque é assim: antigamente… são confissão de antigamente, dos antigo. Então antigamente a cidade, pra você conhecer o padre era muito difícil, então tinha a santa confissão é… que os padre andava celebrando santa missão para confessar os povo, para confessar os povo, que era muito bruto e inocente, que morava nas montanha, no centro da roça. Então… você tem uma pessoa doente, que ele tá pra morrer. E como é que ele confessa se num tem padre? Eu moro num lugar distante, e aí? A cidade fica distante 5 ou 6 légua, e meu parente na cama da morte, e como é que ele confessa? Então antigamente a cidade era muito distante uma das outra. O antigo ensinou… essa oração da confissão ela já vem de muito mais de mil anos… muito mais! Muito mais! Isso vem dos antigo. Então diz assim. A pessoa vai conversar com Deus. Foi a confissão que o Cabeça de Ferro fez. Aqui teve um.. no mundo… teve um valentão igual a Lampião, igual a cangaceiro. Vivia matando os outro pra roubar. Só que ele não tinha companheiro, ele era sozinho. Então, chamava… o povo tinha tanto medo dele que chamava “Cabeça de Ferro”, porque não tinha ninguém. Era… o destino dele era o de matar, né? De dia… de noite… de dia ele tava no mato escondido e de noite ele saía escondido pra matar. Só que ele matava porque aquilo parece que era uma fraqueza da cabeça dele, ele era um matador de fama, né? Conta há muitos anos atrás, né? Milhares de anos… o Cabeça de Ferro era conhecido no mundo inteiro, né? Um caçador tava caçando e o Cabeça de Ferro tava escondido no mato que era pra noite… Ele invadir as casas, né? Aí quando o caçador viu o Cabeça de Ferro, ele desmaiou e caiu com a espingarda na mão. Aí o Cabeça de Ferro falou “Já viu um homem cair sem eu matar?” Mas mesmo assim o homem tava morto. Aí ele disse assim “eu não sou gente não, se o homem só de me ver, ele morre, eu não quero ter mais vida”. Aí foi e se ajoelhou num pedá de pau e disse assim: “Aqui me ajoeio, Senhor, nesta mesa de finar, minha alma se alegra de ver tão rico manjar. O manjar excelente dado pelo Senhor, que os pecado que eu tinha, agora num dia se confessou. Eu agora vós digo, Senhor, sem saber quanto eles são, perdoai os meus pecado, na santa mesa da comunhão.’’ Aí vai e beija… a terra, ce reza oiando pra o céu, porque é ajueiado, né? Você se ajueia e reza, porque tá conversando com Deus, com Jesus Cristo.

Quase sempre ela ilustra o pensamento com uma história, criando uma espécie de parábola em que demonstra uma espécie de moral sobre o assunto abordado. Em outra ocasião ela teoriza sobre o poder da Mãe Terra:

Porque a Mãe Terra é a dona de nosso corpo. Ela tem todo o poder. Ela tem a graça de Deus de criar nóis. Ela criô nóis, cria tudo que nela existe, ela muda uma serra de um lugar pro outro, conforme uma tempestade de chuva. Ói, eu merma visitando a Lapa de Bom Jesus, eu merma vi o rio onde é que era… ele foi mudado… mudado, né? Bom, então a Mãe Terra muda a serra dum lugar pro outro. Por que ela não pode mudar nossa vida?

Dentre as inúmeras histórias colhidas, sem dúvida, a da Criação do Mundo, por ser a mais conhecida de todos, se torna a mais interessante por apresentar uma versão bastante inusitada, pois seus protagonistas são apresentados de forma coloquial, demasiadamente humanos em suas reações: Adão um tipo curioso e metido a esperto, Eva ingênua e gulosa, o Anjo um tanto futriqueiro e Deus, onipresente, mas meio esquecido. Ela não faz comentário sobre os personagens, percebemos seu comportamento através de algumas reações tão diferentes da percepção clássica de quadros estereotipados como “A tentação de Eva”, “A expulsão do paraíso” etc. A história de Zefa começa com que o já é conhecido, Deus criando Adão a partir de um monte de barro e deixando-o para que ele possa descobrir, sozinho, a natureza. Em algum momento depois, ele fica curioso para saber como está a sua criação e ele pede ao Anjo:

“- Óia, vai ver como Adão tá.” E Deus sabia tudo que ia acontecer né. Aí o Anjo chegou lá, Adão tava acocorado por trás do pau com a mão na cabeça. O Anjo chegou assim: “- Ó Adão, que tristeza é essa? Você tem tudo nas suas mão, tem tudo à vontade e você tá triste assim, tem tudo enquanto é bicho pra você se divertir.” E ele tá calado. “- É o quê, Adão? Por que você tá triste? O que é que te faz alegrar?” E ele dizia assim ó: “- Só tenho alegria se aparecer uma companheira.”

Em sua narrativa mítica ela trata os personagens sagrados sem nenhuma cerimônia, como fazendo parte do universo caipira em que ela se insere, com tranquilidade e respeito; eles são extremamente informais e falam a linguagem do povo. Quando o Anjo dá a notícia para Deus, ele decide ir lá falar com Adão pessoalmente:

“- Adão”, “- Tô aqui.” “- Cê tá querendo uma companheira, né, Adão? Tão deita aí.” Aí pegou a costela mindinha dele e fez a mulher, deu vida. Aí Deus contou a ele; aí ele perguntou assim: “- Por que o Senhor tirou o osso menor, a costela menor da cintura?” “- Porque a mulher tem que ser igual a você.” “- Por que não tirou da cabeça?” “- Porque a mulher não pode dominar o homem.” “- E por que não tirou dos pés?” “- Porque o homem não pode pisar na mulher.” Aí foi perguntando tudo.

Aqui a preocupação entre a equidade entre os gêneros surpreende, pois tradicionalmente o papel da mulher tem sido pouco enfatizado pela visão ortodoxa católica. Entretanto, o enunciado acima pode ser interpretado também como uma máxima reguladora da visão do universo católico rural, na qual o homem é quem tradicionalmente domina a mulher, portanto o inverso nunca pode acontecer. Ele, uma vez exercendo esse domínio, nunca deve maltratá-la. Mas de qualquer forma, a igualdade do paraíso, onde pareciam feitos um para o outro, nivelados pela inocência, um estado de graça foi definitivamente perdido e alcançado apenas num mundo mítico.

Mas Deus sabia de tudo que ia acontecer. Aí foi mostrou os arvoredos tudo. “- Agora desse arvoredo aí, que vocês não podem comer, viu?” E a serpente tava perto, escutando. “- Não pode, porque se vocês comer desse arvoredo é pecado mortal, não pode de jeito nenhum!” A tentação ficou lá. Não apareceu a Adão. A mulher sempre tem a cabeça, o juízo, mais leve, leve, assim iludida né (riso). Aí a tentação tava toda graciosa lá no pé do arvoredo, né?! Aí a mulher assim: “- Ô fruta bonita, meu Deus!” Aí ela foi e comeu. Aí disse: “- Ó, Adão, vem cá. Vem comer um pouco pra você ver.” Aí Adão chegou e falou:” “- Devera, mas é bão de mais, tá doido! (riso).

E quando Deus mandou o Anjo ver como Adão estava, a visão foi inesperada e ele detalhou para Deus a situação em que encontrou o primeiro homem:

“- Ó Senhor, ele desobedeceu ao senhor porque ele tá vestido de fôia. Tá vestido. E se apadrinharam, tudo envergonhado com vista no chão.” E foi ele pessoalmente chamar a atenção “- Ó, Adão, que que aconteceu com você mais com sua mulher? Foi você que inventou de atrair ela pra comer daquela fruta?” “- Foi ela. Foi ela que me iludiu e eu comi. Fiquei nesse estado.” “- Pois é, se vocês agora vocês tão vestidos, vocês se viram. Eu vou dar uma semente pra você plantar, dagora por diante você vai comer do suor do teu rosto. Porque você perdeu a veste da graça de Deus. Então agora você vai se vestir e comer do suor do teu rosto. Ademais, eu vou mandar o Anjo trazer tá?! Pra você plantar.” Aí foi, mandou o Anjo. O Anjo chegou com a enxada e a semente. Diz: “- Óia Adão, aqui é a semente do algodão, que a profissão de Eva é tecer roupa. Porque vocês, a geração de vocês vai se estender. Aí você pega a enxada e vai trabaiá. Aí ele foi, aí o Anjo foi embora.

A história bíblica toma um caráter extremamente nordestino, campesino: aqui a divisão do trabalho é claramente definida, embora sem hierarquia. O homem é o lavrador e a mulher a tecelã, enquanto ele lida com a terra, ela com o trabalho da criação das vestimentas. Entretanto, o grande ponto de mudança proposta pela história de dona Zefa ocorre neste momento:

Quando bateu a enxada no chão aí brotou sangue da… do corte da enxada na terra, a terra foi e gemeu. Aí ele disse assim: “- Você é igual meu corpo, pois eu não vou cortar mais não, cê gemeu. Ah não, ah não. Não vou desobedecer, cortar ninguém não.” Aí foi pra casa, foi comer fruta. No outro dia, aí Deus mandou o Anjo: “- Vai ver se Adão plantou mesmo.” Chegou lá: “- Adão, por que você não plantou?” Aí ele contou o caso. Aí o Anjo voltou. Já foi ao Senhor: “- Ele não plantou nada não. Que a primeira enxadada que ele deu, a terra gemeu e brotou sangue. E ele disse que se era igual o corpo de que ele não ia plantar não.” Aí o Senhor falou: “- Eu tenho que ir lá.” Chegou assim: “- Ó Adão. Como é que aconteceu que diz que você cortou a terra e ela gemeu?’E disse assim:“- Ó Adão, é porque ela é virgi, porque o homem nunca cortou, porque o homem nunca trabalhou na terra. Eu vou conversar co ela pra fazer sua plantação.” Aí foi ele e disse assim ó: “- Mãe Terra você deixa Adão cultivar você, cortar você, porque você mesmo dá, você mesmo come.”Você vê que tudo que a terra produz ela mesmo come, né. E aí falô: “- Corta terra agora.”Aí ela não gemeu mais e Adão foi e plantou.

A terra desempenha um papel crucial na história, pois o próprio Deus vai pedir licença à Grande Mãe para que seu filho possa trabalhar nela. A explicação sobre o sangue e a virgindade da terra a torna humana. Mesmo sendo a Grande Mãe, ela permaneceu virgem até o homem perder a sua “vergonha”. A terra não fala, mas geme, ela parece ter sofrido ao primeiro corte dado, pois Adão a ouve e recua. Poderíamos levantar questões sobre uma religiosidade pré-cristã, relacionar aos mitos romanos e gregos, a Deméter e a Gaia, mas certamente estas culturas não parecem estar presentes nas palavras de Zefa. Ao que tudo indica devemos considerar muito mais o manancial indígena das culturas fortemente presentes na região de onde ela veio, inúmeros grupos, dentre os quais poderíamos destacar os Kariri-Xocós, os Pankarus, os Funiôs, os Pataxós, cujas culturas estabelecem uma forte relação com a Mãe Terra. E embora a presença Guarani nesta região não seja significante, sua mitologia é de forte impacto no imaginário da população brasileira, assim vemos muita semelhança com este momento engendrado na mitologia bíblica pela contadora. Na mitologia de origem Guarani, a Mãe Terra nasce do sopro do cachimbo do Grande Deus, que mandou os sete anciãos com as sementes-desenhos de tudo que seria criado com a missão também de criar o ser humano como o guardião da roça.

Na história narrada por Zefa, a terra ao se permitir ser germinada, após ter oferecido o seu próprio barro, a matéria prima para criação do primeiro corpo humano, ela então permite que em seu ventre sejam geradas as sementes plantadas por mão humana que vão servir de alimentos e algodão para criar abrigos. E desta forma, permitir ao homem que possa executar o seu castigo principal, o trabalho, pois a sua prole é uma consequência inexorável de sua existência comum com o sexo oposto.

“- Ói, só tem uma coisa. A sua desobediência foi demais. Seu trabalho é plantar algodão. Agora vai vim filho de toda parte. Vai encher a casa deles. Faz uma casa grande porque home não pode morar no tempo. E o trabalho de Eva é só fiar pra vestir os filhos porque vem filho demais por aí.” Aí foi de geração em geração e foi gente toda vida, e gente toda vida, e Adão trabaiando e trabaiando junto com os filhos mais véio.

A história poderia terminar aqui, como geralmente acontece, “e a partir daí as gerações foram se sucedendo…” Mas Zefa introduz um elemento inesperado, a incapacidade do homem de vestir a sua prole. Quanto mais o casal trabalhava, mais filhos tinha e mais gente nascia para ser vestida. E Deus mandou o Anjo, mais uma vez, para verificar como estava indo a coisa. Mas aí, novamente, a narradora expõe Adão como um orgulhoso a querer enganar ao seu pai.

“- Cês se esconde pro Anjo não ver.” Mas os menino queria ver né. Aí ele disse assim: “- Amanhã o Senhor vem te visitar e conhecer seus filho.” Aí ele foi mais Eva e disse assim:“- Vocês fiquem bem ó, vocês se esconde viu?! Porque o Senhor não pode ver vocês despidos não. Só aparece os vestidos.” O Senhor sabia de tudo né. Aí quando o Senhor chegou, chegou a multidão de filhos tudo vestido. E arvoredo tava por todo lado, os outros ficaram por lá apadrinhado, escondido, à frente dos arvoredo e apontando as cara, como macaco ainda por cima. O Senhor tava conversando com ele e disse assim: “- Que mói de gente é esse aí?” Quando Adão, não pôde falar nada, abaixou a cabeça assim.” “- Adão cê mentiu pra mim né? Né Adão?! Que tanta gente pelado é esse me espiando atrás dos pau? Nem é filho seu não Adão?” “- Não, num é meus fio não. Deve ser de algum bichinho por aí.”

Percebemos já no primeiro homem, os graves defeitos da raça humana, querer enganar ao próximo, e no caso o próximo era Deus. Mas, ao contrário da imagem do Deus colérico judaico-cristão, temos nesse de Zefa um Deus com um grande senso de humor. Pois diante da multidão de cabeças saindo de trás das árvores, e ao perceber que Adão estava trapaceando ele completa:

“- Pois é, esses que tão me espiando é seus fio né. Mas você escondeu de mim, então, em macaco eles se transformará.” Aí ficou a geração braba de macaco no mundo todo. Mas é tudo família de Adão. Tudo que é completo no homem é completo no macaco.

A história aponta para as semelhanças entre o homem e o macaco e sua origem comum, explicando de forma mítica o elo perdido entre as duas espécies. É crucial percebermos na narrativa desta história a luta entre o mundo perfeito, sem pecado, proposto por Deus, (mesmo sabendo do seu insucesso na empreitada da criação, de acordo com a autora) e a vida humana enquanto conflito permanente. Ou poderíamos avançar e tomar a definição de Fitzgerald, empregada por Deleuze na abertura do seu capítulo Porcelana e Vulcão: “Toda vida é, obviamente, um processo de demolição.” Comentando o autor, Deleuze acrescenta:

Eis um homem e uma mulher, eis casais (por que casais, a não ser porque já se trata de um movimento, de um processo definido como díada?) que têm tudo para serem felizes, como se diz, belos, encantadores, ricos, superficiais e cheios de talento. E depois alguma coisa se passa, fazendo com que eles quebrem exatamente como um prato ou um copo. (DELEUZE, 2006:157).

 

É claro, que na ótica de Zefa, o sentido da demolição ou da fissura, como aponta Deleuze passa por um filtro extremamente bem humorado. Ela, como mística e perfeitamente harmonizada com as forças da natureza está muito mais próxima da perfeição do criador do que do mundo da geração braba de macacos consumidores. Ela, portanto, vê o casal primeiro, que mal pode saborear as delícias do paraíso, para ter que dar duro para sustentar uma prole, cada vez mais necessitada, como algo que cotidianamente escolhemos na nossa vida distraída e descomprometida com as necessidades da Mãe Terra. E conclui com certa ironia a sua história da Criação do Mundo: “As história antiga são essas, é piada, né?! Uma coisa muito bonita pra se contar. Bom, eu gosto do antigo, a história antiga faz sentido né?!” O sentido que faz é sua possibilidade de associação e contextualização, a sua performance.

Zefa conta as suas histórias sentada no mesmo banquinho, junto ao chão em que trabalha fazendo suas esculturas em madeira. Seus gestos são econômicos, sua voz mansa, não dramatiza e não dá pronto os estados dos seus personagens. Sua palavra então, como uma lâmina de cristal, oferece transparência total e o verbo se faz carne não pelo que representa, mas pelo que criamos enquanto ela desfila seus incontáveis casos antigos. Acompanhamos sutilmente a sucessão de fatos, nos quais suas lembranças mais remotas se desenovelam em fios de lembranças recuperadas, sentimentos recuperados, não em função de um princípio religioso, mas pelo prazer fundamental de fazer do verbo carne. E por momentos fugazes experimentamos as delícias do paraíso perdido, transformados e transportados pelas palavras-imagens de Zefa.
Fotos de Lucas Vandebeuque

* Zéca Ligiéro é professor do PPGAC-UNIRIO, coordenador do Núcleo de Estudos de Performances Afro-Ameríndias -NEPAA. Dirigiu espetáculos no Brasil e no exterior. Entre os seus livros se encontram: Iniciação ao Candomblé (1993),Iniciação à Umbanda (1998) e Malandro Divino: a vida e a lenda de Zé Pelintra um malandro típico da Lapa Carioca (2004), Teatro a partir da comunidade (2005) eCarmen Miranda: uma performance afro-brasileira (2007).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Editora Perspectiva, São Paulo, 2006.

LIGIÉRO, Zeca. Entrevistas realizadas pelo autor com dona Zefa, Arquivo do Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias, NEPAA-UNIRIO (2006, 2007 e 2008).

SCHECHNER, Richard. Between Theater and Anthropology. University of Pennsylvania Press, 1985.

 

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Poesia e Vídeo-arte – algumas aproximações | de Renato Rezende

Alguns poetas brasileiros contemporâneos têm produzido vídeos que os inserem ao mesmo tempo no campo das artes visuais ou, sem que haja contradição nisso, num campo ampliado da poesia. Podemos citar André Sheik (Eu sou mais do que aparento), Laércio Redondo (Eu não te amo mais), Ricardo Domeneck (Garganta com texto), Laura Erber (História antiga), Renato Rezende (Ímpar; Tango), Guilherme Zarvos (Muro burro) e Domingos Guimaraens (Gema), entre muitos outros. Este ensaio procura delinear algumas aproximações históricas, teóricas e práticas entre a poesia e a vídeo-arte no contexto da produção brasileira.

Poesia e Pensamento

Discorrendo em seu blog sobre a separação entre poesia e música, oralidade e escrita, o poeta brasileiro Ricardo Domeneck lança uma provocação e um desafio: “Insisto: poesia não é uma parte da literatura, mas é a literatura que é apenas uma parte da poesia. Quem achar que isso é picuinha, sugiro que medite por pelo menos alguns segundos sobre as implicações desta idéia”.1 Se para Domeneck – e não nos interessa aqui investigar suas razões –, a literatura é apenas uma subdivisão da poesia, Susan Sontag, numa instigante nota de rodapé em seu ensaio “Contra a interpretação”, afirma ser o cinema uma “subdivisão da literatura”.2De fato, a forma hegemônica do cinema espetáculo, que, com seu modelo narrativo-representativo-industrial, se estabeleceu no início do século XX e se sobrepôs como fenômeno social e mercadológico às correntes do cinema de vanguarda e do cinema experimental, herdou sua linguagem narrativa do romance.3O romance, como gênero literário, por sua vez, surgiu no século XVIII com a definitiva ascensão da burguesia ao poder, e substituiu a poesia épica, de origem homérica, que vigorou na Europa pós-renascentista e produziu obras de grande fôlego e envergadura como Jerusalém LibertadaOrlando Furioso (obras que no século XX, com toda certeza, seriam estimulantes longas-metragens, e estão na origem de sucessos comercias como E o vento levouLawrence da Arábia eTitanic).

Do mesmo modo, como lembra o mesmo Domeneck em seu blog, é moeda corrente que a separação entre poema e música (ou seja, a forma por excelência da poesia lírica), ocorreu aos poucos após o desmantelamento das estruturas sociais do amor cortês, vigentes principalmente nas cortes provençais e catalãs do fim da Idade Média. Essa tradição ressurge com toda força, como um grande catalisador social, na forma de música popular, na era da cultura de massas e da indústria cultural, com a possibilidade da ampla difusão em ondas de rádio e reprodução em LPs, CDs etc., e portanto toda a discussão sobre o status literário da letra de música e de seus compositores não é sem fundamento. Amputada ou mancando seriamente de duas de suas três pernas (a épica e a lírica), a poesia se renova no Modernismo apostando todas suas fichas no pensamento e/ou no poema que discorre sobre si mesmo ou seu meio (a linguagem).4 No entanto, nos anos 1960, com o advento da arte conceitual, mas na verdade desde Duchamp, a filosofiaaproxima-se das artes visuais, que passam cada vez mais a gerar pensamento em alta voltagem, depreciando os valores preponderantemente estéticos que até então as orientavam. Neste contexto, e com a tecnologia da câmera de vídeo portátil, nasce, entre os artistas visuais, a vídeo-arte. Se o cinema, narrativo e metonímico, é literatura (ou seja, prosa), a vídeo-arte, metafórico e conceitual, aproxima-se da linguagem da poesia.

Metáfora e Metonímia

Roman Jakobson, em “Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia”, discrimina dois modos de arranjo do signo linguístico: combinação e seleção. O primeiro trata da hierarquização das unidades linguísticas, das mais simples às mais complexas, o que as torna inseridas numa contextura sintagmática. O segundo trata da possibilidade de substituição paradigmática de um termo por outro afim. Jakobson identifica o primeiro modo, o da contiguidade, com o polo metonímico (característico da prosa), e o segundo modo, o da similaridade, com o polo metafórico (característico da poesia). Jakobson também distingue seis funções de linguagem, relacionando cada uma delas a um dos componentes do processo comunicativo, entre elas, a função poética é aquela que se foca na própria mensagem. A experiência dos elementos formais, ou seja, a experiência da linguagem em si mesma, é o que, para Jakobson, caracteriza a poesia.5 Segundo A. L. Rees, em seu A history of experimental film and video, a distinção entre prosa e poesia serve como um excelente guia para se compreender o projeto do cinema de vanguarda. Em fato – e aqui Rees cita o ensaio “Poetry and prose in the cinema”, de Shklovsky :

prosa e poesia em filme são dois gêneros distintos; não se diferem pelo ritmo – ou melhor, não apenas pelo ritmo – mas pelo fato de que no cinema de poesia elementos da forma prevalecem sobre os elementos do significado e são eles, e não o significado, que determinam a composição.6

 

Pensando nos termos de dois gêneros distintos em filme, os predominantemente metonímicos e os predominantemente metafóricos, chegamos na mesma distinção que existe na literatura entre prosa e poesia. Transcendendo a questão do meio (a imagem ou a palavra) e do suporte (a película e a página) e pensando nos gêneros artísticos de acordo com o uso que fazem de sua linguagem, seria lógico alinhar de um lado a vídeo-arte e o poema; e de outro o cinema narrativo e a prosa de ficção. Para Tunga, artista contemporâneo brasileiro cujo trabalho carrega fortes conteúdos psicanalíticos e faz uso recorrente de metáforas (é interessante notar que, para Lacan, a própria linguagem é metáfora, metáfora da metáfora, metáfora de um real inatingível), é o uso da linguagem (qualquer linguagem) que caracteriza a poesia:

Eu me coloco na posição do poeta porque eu acho que poesia não é a coisa escrita ou a poesia falada ou a poesia cantada ou a poesia feita objeto. É o que está por trás da poesia, e isso é texto em qualquer forma, através de qualquer linguagem. E a gente pode usar, pode manipular, qualquer campo da linguagem para ascender a esse território. Esse território é o quê? É o território da densidade máxima da experiência da linguagem.7

 

Neste sentido, por sua forte densidade metafórica – e pelas próprias palavras do artista, colocando-se como poeta –, alguns trabalhos em vídeo (e também em performance, quase sempre, aliás, acompanhadas de um texto) de Tunga poderiam ser considerados como poemas. Alguns desses exemplos são Medula e Quimera, ambos de 2005 e feitos em parceria com o cineasta Eryk Rocha.

Tempo e Espaço

Numa reação aos preceitos modernistas, entre as décadas de 1950 e 1960, prenunciando o advento da pluralidade do pós-modernismo, artistas começaram a ampliar as possibilidades de meios e suportes. No campo das artes visuais, a produção de imagens incorporou as tecnologias da fotografia, do cinema e do vídeo. Categoricamente definidas por Lessing em seu fundamental Laocoonte ou as fronteiras da pintura e da poesia como artes do espaço, com a apropriação dessas novas tecnologias, “as artes plásticas incorporaram o tempo ao seu universo eminentemente espacial, acontecimento que pode ser visto qual raiz e sintoma de sua própria contemporaneidade.”8

Nas narrativas que buscam contar a história da vídeo-arte ou do cinema experimental no Brasil, um esforço empreendido por pesquisadores como Arlindo Machado (organizador do catálogo e curador da exposição Made in Brazil – três décadas do vídeo-brasileiro, no Itaú Cultural, São Paulo, 2003), Fernando Cocchiarale (organizador do catálogo e curador da exposição Filmes de artista. Brasil 1965-80, no Oi Futuro, Rio de Janeiro, 2007), Walter Zanini, André Parente, Luiz Cláudio da Costa, e muitos outros, nota-se – ao contrário do que aconteceu na Europa e nos EUA, berço do cinema underground e da vídeo-arte – uma constrangedora ausência de poetas entre os pioneiros.9 Em 1974, no Rio de Janeiro, quando artistas como Sônia Andrade, Fernando Cocchiarale, Anna Bella Geiger, Ivens Machado e, logo depois, Paulo Herkenhoff, Letícia Parente e Miriam Danowski, tiveram acesso a um equipamento portapack trazido de Nova York por Tob Azulay,10 surgia a poesia marginal, de cunho contracultural, anedótico e anti-intelectual, e o máximo de interação entre ambos os campos parece ter sido a presença do poeta Chacal como juiz de futebol num filme de Luiz Alphonsus (Chacal é o juiz, 1976). No entanto, como atesta André Parente, havia um grande agenciamento com a poesia concreta:

A revista Navilouca, publicada em 1974 pelos poetas Waly Salomão e Torquato Neto, com magnífico projeto gráfico dos artistas plásticos Luciano Figueiredo e Óscar Ramos, mostra a grande efervescência que existia na cena da contracultura carioca, em que havia um grande agenciamento entre a poesia concreta, as artes plásticas neoconcretas, a música tropicalista e o cinema marginal.11

 

Na verdade, como corrige o próprio Parente, “em conseqüência da ruptura neoconcreta, a forma moderna e seus esquematismos racionalistas entram em declínio, sobretudo no Rio de Janeiro”.12 Se há um agenciamento entre as experiências do cinema e vídeo de vanguarda com a poesia, esse se dá em São Paulo, onde reside e trabalha o grupo Noigrandes. O foco das propostas da poesia concreta, no entanto, é fazer o caminho inverso daquele que fazem as artes visuais ao se apropriarem do vídeo: enfatizando a materialidade plástica dos vocábulos, os concretistas proclamam uma poesia verbivocovisual,13 que foi preponderantemente uma arte do espaço (e não do tempo).

Desta forma, tanto em sua vertente marginal, quanto em sua vertente concretista, e por diferentes razões, a poesia dos anos 1970 manteve-se distante das experimentações em vídeo que faziam os artistas plásticos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estando Gullar, o poeta entre os neoconcretistas, nesta época exilado, e focado em poemas politicamente engajados, não houve um desenvolvimento das propostas neoconcretas em poesia.14 Nas décadas seguintes, novos poetas de extração concretista, como Arnaldo Antunes e André Vallias, além dos próprios Campos, desenvolveram uma série de poemas visuais e vídeo poesias em computador, buscando sempre uma isomorfia entre palavra e imagem.15Philadelpho Menezes foi encontrar na poesia visiva italiana, oriunda do Futurismo e suas preocupações com o movimento e a performance, a possível ponte que não houve no Brasil entre a poesia e a vídeo-arte experimentais:

No plano estético, além da grande e evidente diferença entre ambas (a presença da imagem visual na poesia visiva, enquanto a poesia concreta se dá dentro dos limites da verbalidade) é também facilmente observável a distinção no âmbito da construção formal. Enquanto a poesia concreta se funda numa construção racional e medida que fazia interagir formalmente as palavras do poema, a poesia visiva se pauta pela caoticidade da armação, numa proposital fórmula desestrutural, que se choca frontalmente com a índole construtivista do poema concreto. Se este se põe na vertente vanguardista de reconstrução sintática da linguagem, de reelaboração de modos composicionais precisos – a ponto de daí derivar um esquematismo na fase mais ortodoxa, que, afinal, é onde se pode entrever uma poética específica do concretismo – o poema visivo exibe uma faceta desorganizada que o alinha com uma vertente oposta, a das vanguardas irracionais.16

 

Um excelente exemplo do emprego do tempo como elemento constitutivo, suporte e assunto do trabalho é o recente A carta roubada, de Helena Trindade, que reverte o vídeo para virtualmente reconstituir um exemplar rasgado do livro de Edgar Allan Poe.

Mente como meio

Em sua tese de doutoramento sobre Deleuze, Peter Pál Pelbart afirma que, para o filósofo francês, o cinema serve “para revelar determinadas condutas de tempo”, construindo com tais condutas diversos tipos de imagens, que permitem a Pelbart entrever no filósofo um interesse mais radical, “ao salientar a ambição do cinema de penetrar, apreender e reproduzir o próprio pensamento.” 17 Para Deleuze, a linguagem imagética do cinema revelaria, ou pelo menos indicaria, a concepção dopensamento em sua origem. A intuição de Deleuze aproxima-o das reflexões de Eisenstein – um dos precursores e maiores realizadores do cinema –, cuja teoria de montagem é, na verdade, uma teoria sobre a cognição humana. Em seu artigo “Cinema (interativo) como um modelo de mente”, Pia Tikka parte dos pressupostos de Eisenstein e das pesquisas da neurociência contemporânea para propor, dentro do contexto do cinema interativo, um interpretação da imagem em movimento como padrão de dinamismo mental:

Minha hipótese inicial parte da premissa de que a ação de enquadrar uma imagem é condicionada por uma interação conflitante entre a percepção antecipatória do cineasta e a percepção perceptiva da imagem, surgindo em decorrência desse conflito no processo de enquadramento de uma imagem padrões artisticamente significativos.18

Intrigada pela condição especular da vídeo-arte – estudada no trabalho de alguns de seus pioneiros, como Richard Serra e Vito Acconci –, que funde sujeito e objeto, artista e técnica, Rosalind Krauss, num instigante ensaio de 1976, propõe o narcisismo como o meio (medium) do vídeo. Ela explica:

Por um motivo, essa observação tende a criar uma fissura entre a natureza do vídeo e a das outras artes visuais. Pois essa declaração descreve condição mais psicológica do que física, e, embora estejamos acostumados a pensar em estados psicológicos como assuntos possíveis das obras de arte, não pensamos na psicologia como constituinte de seu medium. Por seu lado, o medium da pintura, da escultura ou do filme tem muito mais a ver com os fatores materiais e objetivos, específicos de uma forma particular: pigmentos cobrindo superfícies, matéria estendida ao longo do espaço, luz projetada através do celulóide em movimento. Isto é, a noção demedium contém o conceito de objeto-estado, separado do próprio ser do artista, pelo qual suas intenções devem passar.
O vídeo depende – como tudo que se queira experimentar – de um conjunto de mecanismos físicos. Então, talvez seja mais simples dizer que este dispositivo – em seus níveis presentes e futuros de tecnologia – compreende o medium da televisão e nada mais acrescentar. Entretanto, no contexto do vídeo, a facilidade de defini-lo nos termos de seus mecanismos não parece coincidir com a exatidão; e minhas experiências pessoais a esse respeito continuam a me instigar ao modelo psicológico.19

Krauss foi discípula de Greenberg, e parece ter herdado dele as preocupações em relação ao meio. Com efeito, como vimos no capítulo 2 (“Alguma rotação”), é sintomático que Greenberg tenha encontrado grandes dificuldades em definir qual seria a especificidade da poesia, instaurando para ela um meio essencialmente psicológico e sub ou supralógico, e percebendo uma inversão de sentidos entre poesia e pintura (esta sim de seu interesse):

Seria conveniente por um momento considerar a poesia “pura”, antes de passar à pintura. A teoria da poesia como encantamento, hipnose ou droga – como um agente psicológico, portanto – remonta a Poe e, em última instância, a Coleridge e Edmund Burke, com seus esforços para situar o prazer da poesia na “Fantasia” ou “Imaginação”. Mallarmé, contudo, foi o primeiro a basear nessa teoria uma prática consistente de poesia. O som, ele concluiu, é apenas um auxiliar da poesia, não o próprio meio; além disso, a poesia hoje é sobretudo lida, não recitada: o som das palavras é parte de seu significado, não aquilo que o contém. Para livrar a poesia do tema e dar plenos poderes à sua verdadeira força afetiva é necessário libertar as palavras da lógica. A singularidade do meio da poesia está no poder que tem a palavra de evocar associações e conotar. A poesia já não reside nas relações das palavras entre elas enquanto significados, mas nas relações das palavras entre elas enquanto personalidades compostas de som, histórias e possibilidades de significado. […] O poeta escreve não tanto para expressar como para criar algo que vai operar sobre a consciência do leitor, não o que comunica. E a emoção do leitor derivaria do poema como um objeto único e não dos referentes externos ao poema. […] No caso das artes plásticas, é mais fácil isolar o meio e, por conseguinte, pode-se dizer que a pintura e a escultura de vanguarda atingiram uma pureza muito mais radical do que a poesia de vanguarda. […] A pintura ou a estátua se esgota na sensação visual que produz. Não há nada para identificar, associar ou pensar, mas tudo a sentir. A poesia pura luta pela sugestão infinita; as artes plásticas puras, pela mínima.20

Tal entendimento parece dialogar com as ponderações de Claude Esteban em seu Crítica da razão poética:

Chegou-se a declarar que todo empreendimento artístico constituía uma experiência de mediação entre o material bruto, esse dado do tangível, e a figura secundária que nos restitui dele. Mas a poesia, […] a poesia, por sua vez, opera não sobre o concreto – matéria, cor, sonoridade –, mas já no interior desse meio mediado constituído pela linguagem. É a essas palavras dissociadas do real, a essa estrutura abstrata de signos que o poeta deve, precisamente, restituir a virtude de imediatidade, e mais ainda, de presença real. Mas tal empreendimento de encarnação será na verdade possível dentro do sistema verbal – e o poeta não terá de considerar falacioso esse horizonte que o solicita, onde palavra e presença se equivalem num ato demiúrgico que inventaria ao mesmo tempo a coisa tangível e seu nome? 21

Se, como quer o pensador e poeta franco-espanhol, o poeta já opera com algo distanciado da realidade, ou seja, com algo já criado, a linguagem (verbal), sua arte é, desde um ponto de vista, o duplo de um duplo, sombra de uma sombra, sonho de um sonho: espelho; ora, a condição especular da vídeo-arte é justamente o que Krauss encontra como fundamento de seu narcisismo. Talvez tenha sido um insight relacionado a esta condição especular da (de toda?) linguagem que tenha levado o artista multimeios Arthur Omar (apresentado em seu site como fotógrafo, cineasta, vídeo-maker, músico, poeta) a afirmar que “o verdadeiro ambiente da arte é a mente”.22 Questões de linguagem e identidade são problematizados pelos meus vídeos Ímpar e Tango, que fazem uso da minha própria imagem.

Isomorfia e enjambement

Em seu ensaio “Extremidades do vídeo: novas circunscrições do vídeo”, Christine Mello, empregando conceitos como ‘extremidades do vídeo’ e ‘infiltrações semióticas’ (a capacidade dos signos de operar em zonas de fronteira), analisa alguns processos de compartilhamento do vídeo na arte contemporânea. Segundo a autora, tal perspectiva expandida do vídeo “implica em observar os seus trânsitos na arte como interface”, entendendo interface como ‘fronteiras compartilhadas’ que colocam o vídeo em contato com “estratégias discursivas distintas ao meio eletrônico e interconectam múltiplas ações criativas em um mesmo trabalho de arte.”23 Entre outras, tais ações incluem, por exemplo, o videoclipe, a vídeo-dança, a vídeo-instalação, a vídeo-performance, a vídeo-poesia, a vídeo-escultura e o vídeo-teatro. Diz Arlindo Machado sobre a especificidade do vídeo:

Sabemos, pelo simples exame retrospectivo da história desse meio de expressão, que o vídeo é um sistema híbrido, ele opera com códigos significantes distintos, parte importados do cinema, parte importados do teatro, da literatura, do rádio e mais modernamente da computação gráfica, aos quais acrescenta alguns recursos expressivos específicos, alguns modos de formar idéias ou sensações que lhe são exclusivos, mas que não são suficientes, por si sós, para construir a estrutura inteira de uma obra. Esse talvez seja o ponto chave da questão. O discurso videográfico é impuro por natureza, ele reprocessa formas de expressão colocadas em circulação por outros meios, atribuindo-lhes novos valores, e sua ‘especificidade’, se houver, está sobretudo na solução peculiar que ele dá ao problema da síntese de todas essas contribuições.24

Referindo-se à hibridização entre o vídeo e a criação textual (ou seja, a literatura, a poesia), Machado observa que “uma das conquistas mais interessantes da vídeo-arte foi justamente a recuperação do texto verbal, a sua inserção no contexto da imagem e a descoberta de novas relações significantes entre códigos aparentemente distintos”.25 No Brasil, foram os concretistas e seus herdeiros que mais investigaram essas relações – especialmente Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, mas também Júlio Plaza (em parceria com Paulo Leminsky e outros poetas) e, mais recentemente Arnaldo Antunes e André Vallias – criando poemas iconizados, ou poemas dotados de qualidades cinemáticas, privilegiando sempre uma unidade rítmico-formal, uma isomorfia: palavra e imagem em comunhão íntima. É justamente contra tal isomorfia que prega o poeta e filósofo brasileiro contemporâneo Alberto Pucheu. Ao estudar os “institutos poéticos” propostos por Agamben, Pucheu afirma a fissura, a falha, inerente à origem de toda linguagem, e para a qual a poesia (assim como a filosofia e o pensamento crítico) aponta, mantendo-a aberta:

enquanto o concretismo viu no verso “a unidade rítmico-formal” e, assim, sua morte, Agamben lê no enjambement o abismo entre o sintático e o semântico, entre o sonoro e o sentido, lê na cesura, algo portanto no interior de um mesmo verso, uma interrupção provocadora do mesmo abismo entre o significante e o significado e, assim, algo onde a unidade já se mostra cindida, impossível. nele, os institutos poéticos, formais, estruturais, nos fazem retornar constantemente ao lugar de nascimento do poema, obrigando-nos a realizar novos e novos renascimentos. o poema é aquilo que não quer de modo algum se afastar de sua origem.26

A sutil e eficaz exploração do descompasso entre poesia e imagem é a força por trás dos trabalhos – dos poemas – em vídeo Quando fui carpa e quase virei dragão(2007) e Algumas perguntas (2005) da artista visual Brígida Baltar. Mais distanciado da tradição concretista, a vídeo-arte parece ser capaz de resgatar a poesia – em um campo ampliado – de uma forma mais contemporânea, eliminando preceitos e dogmas (como o isomofirsmo) que ainda encarceram a poesia intersemiótica produzida a partir do campo da poesia.

André Sheik – Eu sou mais do que aparento

 

Ricardo Domeneck – Garganta com texto (2006)

 

Laura Erber – História antiga

 

Renato Resende – Ímpar e Tango

 

Guilherme Zarvos – Muro burro

 

Domingos Guimaraens – Gema

 

Helena Trindade – A carta roubada

 

* Renato Rezende é graduado em literatura espanhola pela Universidade de Massachusetts, Boston, EUA, e mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ. Como poeta, é autor de Passeio (2001), Ímpar (2005) e Noiva (2008) entre outros, recebendo a Bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obra em formação em 1997, e o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional para o melhor livro de poesia em 2005.

NOTAS

1 DOMENECK, Ricardo. “O tal de voco do verbo visual”. http://ricardo-domeneck.blogspot.com, entrada de 24/06/2008. Ele continua: “É com alegria que podemos observar a maneira como alguns poetas brasileiros estão passando a aproveitar-se da era digital para retornarem a um trabalho pluralista com a poesia, experimentando com vídeo e poesia sonora, gravando leituras e performances, colaborando com músicos profissionais. Nada há de “vanguardismo” neste fenômeno, mas do testemunhar do nascimento de suportes tecnológicos que permitem ao poeta RETORNAR às características dormentes do fazer poético.”

2 SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Tradução de Ana Maria Capovilla. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 21.

3 Ver PARENTE, André. “Cinema de vanguarda, cinema experimental e cinema do dispositivo”. In: Filmes de artista. Brasil 1965-80. Rio de Janeiro: Contracapa / Metropolis, 2007. Catálogo da exposição realizada no Oi Futuro, Rio de Janeiro, de 1º de maio a 17 de junho de 2007, com a curadoria de Fernando Cocchiarale.

4 Para Haroldo de Campos, “Na poesia de vanguarda, o poeta, além de exercitar aquela função poética por definição voltada para a estrutura mesma da mensagem, é ainda motivado a poetar pelo próprio ato de poetar, isto é, mais do que por uma função referencial ou outra, ele é complementarmente movido por uma função metalingüística: escreve poemas críticos, poemas sobre o próprio poema ou sobre o ofício do poeta.” CAMPOS, Haroldo. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977, pp. 152-153.

5 JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. Tradução de Isidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo, Cultrix, s/d. O autor, no entanto, deixa claro que “qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora.”, pp. 127-128.

6 REES, A. L. A history of experimental film and vídeo. Londres: British Film Institute, 1999, p. 34. No original: “Shklovsky’s 1927 essay ‘Poetry and Prose in the Cinema’ states that prose and poetry in film are ‘two different genres; they differ not in their rhythm – or rather, not only in their rhythm – but in the fact that in the cinema of poetry elements of form prevail over elements of meaning and it is they, rather than the meaning, which determine the composition.”

7 Entrevista concedida a Sergio Cohn, Pedro Cesarino e Renato Rezende. In: Revista Azougue 10. Rio de Janeiro: Azougue, 2008.

8 COCCHIARALE, Fernando. “Sobre filmes de artista”. In: Filmes de artista. Brasil 1965-80. Rio de Janeiro: Contracapa / Metropolis, 2007. Catálogo da exposição realizada no Oi Futuro, Rio de Janeiro, de 1º de maio a 17 de junho de 2007, com a curadoria de Fernando Cocchiarale, p. 11.

9 Para constatar a presença determinante de poetas na história do cinema experimental e do vídeo nos EUA e na Europa, tanto como produtores quanto como inspiradores ou interlocutores, ver REES, A. L. A history of Experimental film and vídeo. Londres: British Film Institute, 1999. Por exemplo, discorrendo sobre as origens da vanguarda americana no pós-guerra, Rees diz: “Other film-makers were poets and writers: Sidney Peterson, Willard Maas, Jonas Mekas, Brakhage, who broke most radically with narrative to inaugurate abstract montage, was strongly influenced by Pound and Stein on compression and repetition in language. [ ] It rehearsed the old argument between film-as-painting and as camera-eye vision, each claiming to express film’s unique property as a plastic form. By turning to the poets and writers of experimental modernism – Pound, Eliot, Joyce, Stein – the film-makers distanced themselves from the direct drama and narrative tradition in realism.”, pp. 58-59.

10 Ver MACHADO, Arlindo. “As linhas de força do vídeo brasileiro”. In: MACHADO, Arlindo (org). Made in Brazil – três décadas do vídeo-brasileiro, São Paulo: Itaú Cultural, 2003.

11 PARENTE, André. “Cinema de vanguarda, cinema experimental e cinema do dispositivo”. In: Filmes de artista. Brasil 1965-80. Rio de Janeiro: Contracapa / Metropolis, 2007. Catálogo da exposição realizada no Oi Futuro, Rio de Janeiro, de 1º de maio a 17 de junho de 2007, com a curadoria de Fernando Cocchiarale, p. 30.

12 Ibid, p. 31.

13 A poesia concretista foi no fim das contas bem mais verbivisual do que voco. Diz o plano-piloto da poesia concreta, assinado por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, e publicado originalmente na revista Noigrandes 4, 1958: “dado por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente cultural. espaço qualificado: estrutura espacio-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear, daí a importância da idéia de ideograma, desde o seu sentido específico (fenollosa/Pound) de método de compor baseado na justaposição direta – analógica, não lógica-discursiva – de elementos. ‘Il faut que notre intelligence s’habitue à comprendre synthético-ideógraphiquement au lieu de analytico-discursivement’ (Apollinaire). einsenstein: ideograma e montagem.” In: AMARAL, Aracy (org). Projeto construtivo brasileiro na arte (1950-1962). Rio de Janeiro: MAM; São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1977.

14 Regina Vater, no entanto, incluiu uma foto de Hélio Oiticica vestindo um parangolé na exposição “Brazilian Visual Poetry”, da qual foi curadora, no Mexic-Arte Museum, em Austin, Texas, 2002.

15 Para um excelente estudo sobre alguns destes trabalhos ver: ARAÚJO, Ricardo. Poesia visual Vídeo poesia. São Paulo: Perspectiva, 1999.

16 MENEZES, Philadelpho (org). A crise do passado: modernidade, vanguarda, metamodernidade. São Paulo: Experimento, 1994, pp. 204-205.

17 PELBART, Peter Pál. O tempo não-reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 1998, p.27.

18 TIKKA, Pia. “Cinema (interativo) como um modelo de mente” Tradução de Renato Rezende. In: MACIEL, Kátia (org). Transcinema. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009.

19 KRAUSS, Rosalind. “Vìdeo: a estética do narcisismo”. Tradução de Rodrigo Krul e Thais Medeiros. Arte & Ensaio. Revista do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais EBA – UFRJ. Ano XV, número 16, julho de 2008. pp 144-157

20 GREENBERG, Clement. “Rumo a mais um novo Laocoonte”. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. In: FERREIRA, Glória e COTRIM DE MELLO, Cecília. Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 54-55.

21 ESTEBAN, Claude. Crítica da razão poética. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 187.

22 http://www.museuvirtual.com.br/arthuromar/. Seu trabalho Mola cósmica é uma escrita visual, em que frames de um vídeo se tornaram um alfabeto.

23 MELLO, Cristine. “Extremidades do vídeo: Novas circunscrições do vídeo”http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17772/1/R0788-1.pdf

24 MACHADO, Arlindo. Apud RISÉRIO, Antonio. Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1998, pp. 156=157.

25 Ibidem p. 157.

26 PUCHEU, Alberto. “Entrevista de uma pergunta só”. Entrevista a Francisco Bosco. Inédito.

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Poesia 00: nota de apresentação e mini antologia | de Italo Moriconi

Cena mutante

Os anos passam e as gerações poéticas se sucedem, como as ondas no mar. Ao grupo dos “novos”, logo se acrescenta o grupo dos “novíssimos”. Esteticamente, cada nova onda de poetas pode situar-se de maneira antagônica ou em continuidade direta com a onda anterior. Tudo indica que a onda da geração 00, sem deixar de representar o resultado e a consequência da cena poética brasileira dos anos 90, traz algumas tendências ou novidades que possivelmente uma pesquisa mais extensa fixará como um perfil. Será certamente um perfil diversificado – a pluralidade de dicções e orientações é um fato. A era dos “ismos” dominantes acabou. No lugar dela, entramos numa era em que prevalecem os focos aglutinadores, os núcleos e laboratórios poéticos que acolhem e onde se gesta a poesia nova.

O estopim que motivou a seleção da presente amostra foi o lançamento em 2007 de três poetas novíssimos pela prestigiosa coleção Ás de Colete, empreendimento conjunto das editoras 7Letras e CosacNaify. Por “novíssimo”, entenda-se poeta estreado em livro a partir do ano 2000 ou pouquíssimo antes – 99, 98. Dos três novíssimos lançados naquela ocasião, Marília Garcia e Ricardo Domeneck já tinham estreado em livro anteriormente, ela com uma plaquete na coleção Moby Dick, da 7Letras, em 2001, ele na coleção de poesia da Editora Bem-Te-Vi, em 2005. No caso da poeta Angélica Freitas, trata-se de estréia tout court. Esse grupo está ligado à revista Modo de Usar, lançada em 2008 como uma espécie de costela do conglomerado 7Letras/Cosac.

Pode-se dizer que os três lançamentos nucleiam boa parte das novas tendências reconhecíveis na cena poética brasileira. Mas para efetivar a seleção solicitada, ampliei um pouco meu universo de mapeamento e pesquisa, aproveitando para atualizar-me minimamente em relação à produção dos novíssimos. Assim, com a inestimável colaboração e interlocução de Luciana di Leone (mestranda de Literatura Brasileira na UERJ), fiz uma primeira leitura – em alguns casos, releitura – de um número expressivo de livros de novíssimos, constantes dos catálogos e coleções das mencionadas editoras, a que acrescentei os lançamentos da editora Azougue e mais alguns livros avulsos espalhados pela minha caótica biblioteca, que há alguns anos não tenho tido tempo de arrumar. O objetivo foi não o de realizar uma antologia de “melhores”, nem mesmo uma antologia de “representativos”, mas apenas uma amostra de bons poemas escritos por novíssimos, marcando o momento da segunda metade dos anos 00. Bons poemas no sentido de manifestarem práticas do poético como prospecção de linguagem. Eu mesmo fiquei surpreso com o que considero ser o alto nível decantado ao fim e ao cabo da sempre precária escolha. Ao leitor, cabe o veredito final.

Em ritmo de esboço apressado, identifico como traço interessante da poesia 00, em primeiro lugar, certo desafogo em relação ao formalismo típico da poesia nova da década anterior. Formalismo esse que se traduzia pela exploração ainda minimalista da elipse poética, ou pela pura e simples volta ao soneto e às formas fixas e metrificadas da tradição mais antiga. Não se trata agora, como tinha sido no caso da geração “marginal” dos anos 70, de um desafogo na linha do “relaxamento” e do coloquialismo, embora este se faça presente de maneira mais estetizada. Trata-se, sim, dentro ainda dos moldes culturalizados que definiram o padrão de exigência próprio dos anos 90, da presença de um outro modo de tratamento da elipse poética, no que se poderia chamar de “desestruturação controlada”. Esse tipo de poesia mais desestruturada, desconstruída, associa-se à presença clara de mais discursividade, mais narratividade (fragmentária), frequentemente obtida pela incorporação do conversacional, não pela simulação de uma interlocução (como em Ana C.), mas pela interpolação de fragmentos de diálogos no corpo do poema (ao jeito de Francisco Alvim). Observamos também que cada vez mais o poeta e a poeta brasileiros lançam mão de recursos alegóricos e alusivos, denotando maior convivência com tradições poéticas estrangeiras. Narrar de maneira oblíqua. Costurar nas descosturas.

Em paralelo com o viés por assim dizer erudito e sofisticado que o grosso da geração 00 pega da anterior, observamos também, e com alívio, que volta a existir espaço para um tipo de poesia mais abusada, mais paródica, renovando-se a eterna vertente iconoclástica em relação aos também eternos ícones literários, como o leitor poderá ver nos poemas de Angélica Freitas e Douglas Diegues. O traço marcante aqui é que quando o poeta novíssimo ironiza a alta cultura, o faz menos em cima de questões propriamente estéticas e mais através da transformação dos grandes autores em personagens de um drama. Tal reação realça pelo avesso o caráter fetichista de toda e qualquer assinatura poética. Escritores consagrados viram personagens-máscaras de uma comédia mental (no caso de Angélica) ou social (no caso de Douglas).

Outro traço marcante – a meu ver instigante, embora perturbador – da novíssima poesia brasileira é a desestabilização da língua brasileira, que se mostra aqui contaminada por línguas estrangeiras. Fazem-se presentes as línguas dominantes na cultura erudita – o inglês, o francês, até o alemão (vide Domeneck). Mas o dado forte é o mix com o espanhol, chegando ao ponto de termos um autor, Douglas Diegues, que assume o portunhol como língua bandida de expressão poética, na linha experimental de um Wilson Bueno.

Se focalizamos o levantamento de tendências com base no que foi anteriormente postulado, de que a cena poética hoje se estrutura a partir de núcleos de aglutinação, constatamos que a presente amostra apóia-se em duas vertentes principais: a vertente 7Letras e a vertente Azougue. Como se sabe, em ambas temos a feliz conjunção entre revista de poesia (Inimigo Rumor e Azougue) e editora de poesia nova. As duas fazem sua captação de recursos poéticos em âmbito nacional, buscando escapar das limitações impostas pela centralização no eixo Rio-S. Paulo. Os poetas 00 surgidos no território Inimigo Rumor fazem parte de uma história originada nos anos 90 que está à espera de ser contada de maneira sistemática. Essa história poderia ser contada tendo por eixo narrativo os embates contemporâneos entre formalismo e desestruturação, formalismo e discursividade ou narratividade, alta e baixa cultura, sublimação e dessublimação. Já os poetas surgidos na área da Azougue apontam, por um lado, para uma vertente mais “cósmica” e “naturalista” (e até xamânica, na linha de Roberto Piva) da poesia brasileira, assim como acolhe-se nela o resultado da atuação do grupo carioca CEP 20000, cujas raízes remontam aos anos 80, através da presença de gurus como Chacal e Guilherme Zarvos. No caso da área Inimigo Rumor, os gurus identificáveis são Carlito Azevedo e Anibal Cristobo.

Mas é claro que quem eu estou chamando aqui de guru não quer ser guru. Deixemos pois suas figuras momentaneamente de lado e assinalemos que, sobretudo, destaca-se nos poetas aqui selecionados o caráter autônomo, original e singular de suas vozes, numa cena que já pouco ou nada tem a ver com o antigo panteão modernista dos Drummonds e Cabrais.

Antologia

Marília Garcia (20 poemas para o seu walkman)

Aquário

tem o pânico das algas marinhas
quando acorda de frente para o estádio.
o quarto é um aquário
com setas submersas de
sol e seu corpo filtrado
pela luz do insulfilm
tem o contorno
de um magnetismo
inverso. não que importassem

as horas. apenas não sabia como ali chegara. não
sabia quanto tempo tinha passado (um cão
lambia o pé, a mesma imagem
congelada)

e na saída: “vai me responder de novo com
uma pergunta?” “mas a configuração é
diferente.” e ela disse, não lembro o que ela disse.
o estádio é um buraco no tempo e de cima
suas guelras latejam os ecos da última partida.
você se encolhe atrás do vidro
redondo, luta para vencer
as pequenas pedras, como num oceano
violeta genciana

Inferno musical

I.
o que explicou sobre a melodia
de sistemas não fazia sentido pois
dessa vez não havia
som algum.
– é uma deformação, quase um inferno
musical que,
ao transbordar,
congela,
como o mármore, o tombo ou
o tapa. poucos usam a palavra anti-
harmonia ou anti-
densidade (nada se acopla
com nada aqui)
a vida se divide em
duas partes móveis e você pode
entrar numa melodia circular
atrás da configuração correta

II.
– ezeiza es um sitio que no
existe mas chegar é repetir o
gesto inexistente, como dizer uma
frase sem som ou se tornar o mesmo
uma semana depois no momento em que
a aeronave se desloca com
mais esforço.
no desenho tenso da esteira
a única mala – para tomar a estrada
de noite no deserto asfixiante
e escuro.

Laura Erber
(Insones)

arroubos

para Aruac

…ela te escreverá toda noite quando as frases do dia entre duas pálpebras brilharem no rigor de
cada sílaba é o verão desabotoando sem a gente perceber que já bem
no centro de havana comprando sorvetes derretidos e caseiros ou também por um
senhor de nariz fino asas feridas … a dónde crees que te va a llevar todo ese
aprendizaje, chica? numa viagem a céu aberto sucessivos alejamientos y
dissolvências nos llevan a ver la isla desde el mar uma notícia que envolva muita
gente el desliz que compreende su figura el vencimiento de la distancia nessa noite
teus olhos ilhas envoltas por água e sal cuando el espacio se contrae para parir la
llegada de uma fuerza sem veladura sem artifícios a pura luz da rua e o ritmo de
tropeços multitud de sombras lembranças onde caminhas cuidadoso com poder
delicado de revê-lo o sorvete se desfaz mas as respostas são perguntas retorcidas aos quarenta
graus em la habana e também no rio enquanto entre nós o copo de
aguardente espera a mão alcançar um fio de cabelo e as bocas se calarem num
encontro passageiro afinal a dónde te va a llevar todo ese
aprendizaje…………………………………………….

Sérgio Cohn
(Horizonte de eventos)

mnemo.

Há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. Como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. Repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. Há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamento, assim
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.

Angélica Freitas
(Rilke Shake)

na banheira com gertrude stein

gertrude stein tem um bundão chega pra lá gertrude
stein e quando ela chega pra lá faz um barulhão como
se alguém passasse um pano molhado na vidraça
enorme de um edifício público

gertrude stein daqui pra cá é você o paninho de lavar
atrás da orelha é todo seu daqui pra cá sou eu o patinho
de borracha é meu e assim ficamos satisfeitas

mas gertrude stein é cabotina acha graça em soltar pum
debaixo d’agua eu hein gertrude stein? não é possível
que alguém goste tanto de fazer bolha

e aí como a banheira é dela ela puxa a rolha e me rouba
a toalha

e sai correndo pelada a bunda enorme descendo a
escada e ganhando as ruas de st.-germain-des-prés

epílogo

gertrude stein cabelo dos césares

alice olhos negros de gipsy

josephine baker djuna barnes

nós cinco na sala de espelhos

eu era alice e djuna era josephine

gertrude stein era gertrude stein era gertrude stein

na saída gertrude me puxou pelo braço

e me disse muito zangada: não achei graça

no que você publicou nos jornais

me derrubaria como um tanque da wehrmacht

não fosse por ezra que passeava ali seu bel esprit

lésbicas são um desperdício ele disse

você já ouviu falar em mussolini?

Ericson Pires
(Cinema de garganta)

Canto de abertura de caminhos

(oju-oritá e /ou conversas de Merleau-Ponty)

Quando você abre os olhos

Você pode ver tudo
Pensar que vê tudo
Tudo pode ser visto
Ver-se em nada que é visto

Quando você abre os olhos

Pode tentar pegar coisas com olhos
Pegar pensamentos nos olhos
Partir do momento onde os olhos
Param de saber que são olhos

Quando você abre os olhos

As coisas perdem os nomes
O tempo é sempre presente
E o presente são os nomes
Nomes do presente

Fluxo
Tempo

Você abre os olhos e vê

Você está

Jardins…

Ricardo Domeneck
(Carta aos Anfíbios)

De madrugada, de manhã

1.

Acordar no meio da noite
com a cabeça do outro
sobre o peito,
travesseiro,

maré e barco;

permanecer desperto, à deriva
o resto da noite, dormentes
e doloridos os membros,
a circulação cindida,

sem desejo de resgate

e sussurrar-lhe ao ouvido:
unsere knochenknospen schnurren und schnorrem,
nossos brotos d’ossos ronronam e imploram,
como em qualquer hino,

meu querido.

2.

Eu desconheço quanto

deserto custa
uma epístola
aos coríntios;

se a cegueira
no caminho
precede sempre

(e vale)

a cidade
de destino;

se na garganta
um novo cântico
dos cânticos aguarda

ou se quatorze anos
de fôlego preso
hidratariam um soneto;

eu falo baixo
porque deixá-lo

dormir meia-hora
a mais é minha forma

de acariciá-lo
logo de manhã

que, envolto em lã,
ignora o abalo

sísmico
em mim:

um bocejo
seu.

(a cadela sem Logos)

Décima Faixa – 0:55
(em “Poema começando ´Quando’”)

Algo amadurece à distância
mas aproxima-se aos
poucos para poucos
antes de todos
perceberem que
do chão à copa
o espaço é da queda.
Tudo deve ser documentado
é uma pergunta do processo
que se inicia no terror
para alcançar a beleza,
o risco do esquecimento
o primo leve da memória,
o preço breve do ato.
O trabalho árduo de convencer
a fruta
de que já se encontra madura.
Com os dentes.
Tempo movendo-se em volume
alto, duração contínua
segundo a segundo
para depois
ser sujeito
às elipses da atenção
da história.
A mão que escreve
pode querer-se à margem,
silenciosa, mas seu
tom de voz ecoa
por todos os cantos.
Camuflagem falha.
Equívoco da tentativa
de uma “epistemology
without a knowing
subject”.
Toda presença
é central mas pode
sabotar-se
melhor como ventríloquo
do que invisível.

Pedro Cesarino
(Oceanos)

Se chamo a árvore de “espelho”,
o faço não por capricho, mas por reconhecer nos galhos
certos traços meus que em algum momento
se misturaram à trama das coisas.

Se chamo o céu de “elefante absurdo”
é porque não o consigo abarcar
com nenhuma imagem melhor.

Ele escapa por todos os lados feito água arredia,
que aliás eu trato por “cristal”, o que é um paradoxo,
pois as pedras são essência irremovível,
enquanto a água, tal como o céu, escorre
inevitavelmente pelas bordas do mundo.

Mas chamo-a assim pois é na realidade
à substância do olho que me refiro:
esse prisma de carne
banhado pelo líquido de luz.

Se chamo a noite de “pássaro”
é porque não há pássaros na noite,
a não ser por alguns solitários
voando anônimos no escuro.

Os pássaros eu não trato por nenhum
outro nome, a não ser “pássaros”.
Daquilo que voa, o que falar?
Como chamar?

Douglas Diegues
(uma FLOR na solapa da MISÉRIA – poemas em portuñol)

le gustaba escalar la planície com su muleta de alumínio
parecia un idiota cruzando la tarde sin sentido
bebia de la imundície sin problemas
porque desde crianza estaba acostumado a beber de la imundície terrena

sabia como convivir com la imundicie que produce el hombre.
había ainda en sus ojos un resto de brilho feliz de infância perdida
escalando la planicie de los dias
com su muleta de alumínio non precisaba más nin nombre

parecia que había salido de algun libro de Manoel de Barros
un personagem de carne gosma esperma escama sangre osso misterio
escalar una montanha del lado brasileiro era escalar una planície del lado paraguayo escalar una montanha del lado paraguayo era escalar una planície del lado brasileiro

em ambos los lados de la frontera que implacabelmente apodrece
ninguém consigue escalar planicies tan bién como ele

 

Por que escrebo?
Escrebo para ficar menos mesquinho
belleza de lo invisible
non tem nada a ver com berso certinho

en el culo de qualquer momento
escreber pode ser mais que apenas ir morrendo
la belleza de lo invisible
non se pudre com el tempo

la bosta dos elefantes seca verde clara dura
es altamente inflamáble – dá uma llama bem pura
nunca se termina de aprender a transformar bosta em luz y
otros desenganos –
todos fomos bellos quando teníamos 4 anos

hoje la maioria solo se preocupa com sus narizes
su esperma, su bosta, su lucro, sus missíles

 

Rodrigo Magalhães
(O legado de Beltrano)

Deus e João no mundo cão

Primeiro, a emboscada e o chão era de barro.

Não deu para ver se alvos ou mestiços.
Mas não eram machos.

Tavam numa espreita, dessas em que o sujeito mira acocorado,
da qual só restam dois: o estampido e o baleado.

Cabul,
era míssil nomeando a cidade.

Após o acontecido, comi um tanto da poeira.
Que era do chão. Que era de barro.

E só havia um sol de fazer ouro na retina,
que, entre os gumes de minha sina, alastrava o seu mormaço.

Era lá, à espreita
pelo Tomahawk em assovio
– parecia o simum no canudo,
alguém dizia.

À espera do suspiro que nos finda,
cobriu-me a certeza de alguns nomes sobre a força dos cajados.
Foi o coronel. Ele honrou o seu gado, a sua família.
Soprou a minha vida.

Alguém se persignava.

 

*

1 Texto e antologia originalmente publicados na revista Margens/Margenes, n. 9-10, Belo Horizonte, 2008, que gentilmente cedeu os direitos de publicação em Z.

 

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União Européia e Multiculturalismo | de Eduardo Gomes

1. Introdução

O elemento cultural sempre esteve presente na história da humanidade. Com a evolução da sociedade internacional, especialmente com a construção de valores comuns, ligados ao Estado, a cultura passou a ser entendida e concebida como um elemento de agregação dos povos, das nações e do próprio Estado. Foi na Revolução Francesa, 1789, que os elementos culturais – entendidos como o conjunto de expressões, adotadas pelos indivíduos em uma determinada sociedade, como é o caso do idioma – passaram a ser considerados como elementos importantes para a consolidação do Estado-Nação, de forma a justificar a vinculação dos súditos a um determinado Estado, através do conceito de nacionalidade.

A nacionalidade é aqui entendida, como o vínculo jurídico e político que une o cidadão a um determinado Estado. Durante muito tempo a livre expressão cultural esteve subjugada aos interesses políticos e sociais dos soberanos que, através do estabelecimento de um ordenamento jurídico único, de natureza constitucional, impunham os valores culturais que deveriam ser seguidos pelos súditos do Estado. Era o período em que o conceito de soberania era entendido com base no poder supremo.

Com o decorrer da história, a eclosão das duas grandes guerras mundiais, o período do socialismo e da própria Guerra Fria, o seu término na década de 90, o advento do desenvolvimento tecnológico, o florescimento do comércio internacional e a própria formação dos blocos econômicos, o conceito de soberania é relativizado. Com a relativização do conceito de soberania surge a possibilidade de os indivíduos manifestarem os seus valores culturais, notadamente porque, nos dias de hoje, vivemos em uma sociedade pluralista. A referida sociedade pluralista é representada, neste artigo, na União Europeia, que contempla vinte e sete Estados em um espaço supranacional, com idiomas e cultura diversa.

O presente artigo, resultante de pequena parte da pesquisa de Pós-Doutoramento realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, junto ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea, e que abordou o tema da Democracia e dos Direitos Fundamentais na União Europeia: a questão do multiculturalismo, busca examinar as relações culturais dentro daquele bloco econômico.

2. O Espaço Supranacional

Definir o espaço supranacional, no qual convivem inúmeras culturas, povos e nações, com seus costumes, tradições, valores e línguas diferentes, não é tarefa fácil, principalmente quando se trata de abordar a União Europeia, bloco econômico de natureza supranacional, regido por um ordenamento jurídico próprio, que é o Direito Comunitário, e que busca harmonizar e compatibilizar os interesses existentes entre os vinte e sete Estados-membros. Vale lembrar que, tecnicamente, a União Europeia representa mais do que um bloco econômico, mas uma verdadeira comunidade política, instituída através do Tratado de Maastrich, 1992, e como tal, as respectivas instituições comunitárias atuam em áreas que, anteriormente, eram de competência exclusiva dos Estados. Disso surge o Direito Comunitário, como direito peculiar e singular, tendo a sua origem a partir do Direito Internacional Público, sendo ao mesmo tempo, autônomo e independente frente ao Direito Interno e ao Direito Internacional. A peculiaridade do Direito Comunitário deve-se aos seus princípios, advindos do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. São eles:

a) Aplicabilidade direta: assevera que a normativa comunitária, uma vez publicada no Diário Oficial das Comunidades Europeias, já produz efeitos por si só e não necessita ser internalizada ou transposta para o ordenamento jurídico nacional, segundo os requisitos estabelecidos nas Constituições de cada Estado-membro;
b) Primado do Direito Comunitário: a normativa comunitária, que deve ser aplicada em todos os ordenamentos jurídicos dos Estados Membros, possui a primazia em relação ao Direito Interno o que, na prática, significa dizer que o Direito Comunitário, em caso de conflito com o Direito Interno, sempre deverá prevalecer;
c) Uniformidade na interpretação e na aplicação do Direito Comunitário: como o referido Direito possui aplicabilidade direta, e é dotado, ainda, de primazia frente ao Direito Interno, certo é que o mesmo possui aplicação nas vinte e sete jurisdições dos Estados Membros. Para que haja uma certa harmonia, em relação a sua aplicabilidade, de forma a garantir uma segurança jurídica em relação a sua observância, o Direito Comunitário deverá ser interpretado e aplicado de maneira uniforme pelos juízes nacionais.1

Junto ao Direito Comunitário se deve agregar o conceito de supranacionalidade que, em termos técnicos, significa um poder acima dos interesses dos Estados e que legitima às instituições comunitárias a adoção de decisões que levem em conta os interesses da União Europeia, apesar de, muitas vezes, contrariarem os interesses dos Estados. A justificativa para a aplicação das referidas políticas comunitárias decorre do próprio sentimento de unidade, dentro do processo de integração, pois, em determinadas políticas, busca-se preservar o todo, respeitando-se, é claro, as diferenças, principalmente culturais, religiosas e linguísticas de cada nação, o que é a essência do multiculturalismo, conforme será visto adiante. As instituições comunitárias somente atuarão dentro de suas competências, estabelecidas pelos Estados através dos respectivos tratados institucionais: Tratado de Roma, 1957 2, e subsequentes alterações, estando em vigor, atualmente, o Tratado de Nice, 2001.3

Assim, ao instituto da supranacionalidade há de se agregar o conceito de delegação de competências legislativas, significando dizer que são os Estados, por um ato de soberania, delegadores de determinadas competências legislativas, em prol das instituições comunitárias, a fim de que as mesmas legislem em certas matérias, as quais antes eram de competência exclusiva dos Estados-membros da União Europeia. Ao se comentar sobre o instituto da delegação de competências soberanas, vale destacar a existência de uma divisão no âmbito de atuação legislativo: determinadas matérias, como é o caso da política monetária e do euro, são delegadas de forma a que as instituições comunitárias legislem exclusivamente sobre o tema. A referida alteração, na política dos Estados, ocorrida a partir do ano de 1998, quando se iniciou o projeto de adoção do euro4, representa uma grande mudança cultural nos valores dos cidadãos comunitários, porque perdem, de uma hora para a outra, um dos referenciais da nação, ou seja, a prerrogativa de adotar, livremente, as políticas macro-econômicas, além de ficarem adstritos às políticas comuns da União Européia.

Ao comentar o modelo de divisão de competências, as de natureza concorrente possibilitam que, tanto as instituições comunitárias, como os Estados, legislem sobre o tema, hipótese na qual prevalecerá a legislação comunitária, em caso de esta confrontar com a adotada pelo Estado. Exemplo a ser mencionado é o tema das políticas culturais, porque como se trata de um interesse de todo o bloco econômico, é um dos objetivos comunitários a preservação dos valores de cada nação, povo e minoria, assim, as políticas e normativas adotadas, tanto pelos Estados como pela União Europeia deve preservar os referidos interesses, que não são somente nacionais, mas acima de tudo, comunitários. No tocante à execução das políticas comunitárias, naquelas matérias de competência concorrente, a preferência para a adoção das mesmas será sempre do Estado-membro o qual, enquanto ente mais próximo de seus jurisdicionados, sabe com maior clareza sobre as políticas a serem adotadas para garantir a aplicação dos referidos direitos.

Somente na hipótese de o Estado não conseguir alcançar os objetivos pretendidos, que em verdade não são interesses de um Estado, mas de toda a União Europeia (e são um tema de interesse comum), é que as instituições da União Europeia atuarão, de maneira subsidiária e proporcional, com a finalidade de executar as referidas políticas e alcançar o fim comunitário. Trata-se da aplicação dos princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade, previstos no artigo 5º do Tratado de Nice, 20015. Aliás, o princípio da subsidiaridade, verdadeira pedra de toque do ordenamento jurídico supranacional, tem como função primordial aproximar o cidadão das políticas comunitárias, de modo a inseri-lo no seio da integração, criando-se, no espaço comunitário, uma verdadeira “Europa dos cidadãos”.6

Assim, por exemplo, um dos objetivos da União Europeia é o respeito às diferenças e aos valores culturais. Trata-se de matéria de competência concorrente entre as instituições da União Europeia, e os Estados. Caberá, primordialmente, ao Estado, enquanto ente menor, executar as referidas políticas para a proteção de uma minoria linguística. Somente se o Estado não lograr êxito de atingir o fim perseguido é que as instituições comunitárias poderão adotar políticas, de maneira subsidiária e proporcional, para suprir a omissão do Estado e garantir o interesse supranacional.7

De acordo com o estágio atual da União Europeia, de Mercado Comum e da União Monetária, pode-se afirmar a existência do rompimento do dogma referente ao conceito clássico de soberania, devido às próprias políticas que o processo de integração engloba, ou seja, a livre circulação dos quatro fatores de produção, bens, pessoas serviços e capitais, agregando-se a existência de uma moeda única: o euro. Torna-se necessário que as instituições comunitárias, portanto, adotem as políticas com vistas a atingir o interesse supranacional, avançando em matérias, políticas e competências legislativas que antes eram de atribuição exclusiva dos Estados.

3. Cultura e Evolução do Estado Nacional na Europa

Com o aprofundamento cada vez maior do processo de integração europeu, parte-se para a construção de uma verdadeira arena supranacional, na qual convivem vinte e sete Estados-membros, com culturas, costumes, línguas e tradições diferentes. Uma das grandes dificuldades e dilemas da União Europeia por consequência, é o de buscar certa compatibilização e harmonia entre as culturas da arena supranacional, de forma a, na medida do possível, ser possível preservá-las.

Quanto mais aprofundado for o processo de integração, maiores serão os conflitos de ordem cultural a ser enfrentados pelos povos, colocando-se em cheque o próprio conceito de Estado-Nação, ante à relativização do conceito de soberania, ficando os Estados fragilizados frente à adoção das políticas comunitárias. Como forma de buscar a proteção dos próprios valores locais, dentre eles os culturais, os Estados passam a voltar suas políticas para seus interesses soberanos, deixando de lado os interesses supranacionais e fazendo com que, equivocadamente, prevaleçam os seus próprios interesses.8

Verifica-se a clara dicotomia entre os interesses supranacionais e os soberanos, e a própria dificuldade em compatibilizá-los, pois quanto maior for o processo de globalização, na sociedade internacional, maior será o receio de os Estados perderem a sua soberania, o que justifica, ao menos, a volta aos conceitos clássicos de soberania. Como forma de melhor entender a dicotomia, importante examinar, embora com brevidade, a formação do Estado, a fim de se entender como o ordenamento jurídico do Estado-Nação, antes impositor da existência de valores culturais quase que únicos, transmutou-se para um embrião, quem sabe, de um futuro Estado supranacional, resultado do processo globalizante e do ressurgimento, com maior força, dos valores culturais que, agora, passam a conviver juntos na arena supranacional.

Para se compreender a construção da arena supranacional é preciso entender o momento histórico da construção do Estado moderno, cujo processo surgiu bem antes da Paz de Westfália, 1648, conforme assevera Luís Alexandre Carta Winter:9

A noção de um governo centralizado que satisfizesse, além das questões temporais, também as espirituais, e que representasse, simultaneamente, a idéia de uma unidade, com a queda do império romano, passou a ser a busca de uma constante. O próprio Corpus Iuris Civilis não deixa de ser fruto de uma idealização da unidade que havia na Roma Imperial. De fato, se for desdobrado o poder da pessoa do imperador, na época do Dominato, nota-se que ele era oprimo inter pares (primeiro entre iguais), princips senatus (líder do senado), pontifex maximux (supremo sacerdote) título, que depois, passa ao Papa, quando o cristianismo se torna a religão oficial do império, tribunicia potestas (poder de tribunoi da plebe), imperatur(governante, comandante, no serviço militar). (…) Com a invasão dos povos bárbaros, quebra-se a unidade do império, mas não a idealização dessa unidade, nem tão pouco desapareceu o poder espiritual e este se assentava na idéia de universalidade da religião católica, já que há só um Deus e, por isso, deve haver unidade em todas as coisas.

O conceito de soberania, por conseguinte, entendido como o poder supremo que, futuramente, garantiria a unidade do Estado, surgiu no Império Romano, e a Igreja católica, com a idéia da existência de um único Deus, contribuiu para a manutenção de determinados valores universais que, posteriormente, foram adotados quando da criação do Estado moderno. O catolicismo, neste aspecto, contribuiu para a manutenção da unidade dos povos e, conseqüentemente, de valores culturais, religiosos e linguísticos em determinado território, como foram os casos, por exemplo, da Espanha e de Portugal. A verdadeira “construção de uma identidade”10do conceito de Estado surgiu com a Paz de Westfália e, na concepção do Estado, encontram-se os seus elementos constitutivos: povo, território e capacidade de autogoverno.

Dentro de uma concepção multicultural importa examinar o conceito de povo, uma vez que, durante muito tempo, precisamente até o início do século XXI, o tema não foi muito debatido no âmbito da sociedade internacional. Somente com o ressurgimento de outros Estados, como Sérvia, Montenegro, Kosovo, dentre outros, e que resultaram da extinção de Estados antigos, mantidos pela força, como foi o caso da ex-Iuguslávia, é que se começou a debater os valores culturais de cada povo, convivendo em um mesmo espaço territorial, isto é, sob o manto de uma mesma jurisdição estatal. Assim esclarecem Luis Alexandre Winter e Marcos Wachowicz (2007):

Na idéia de povo há uma idéia seletiva, vez que exclui dentro de uma população, parcelas desta. Daí a identificação com nação, mas não a nação longínqua dos indo-europeus, ou mais tardiamente dos povos germânicos, eslavos etc. A nação que se identifica com o Estado, origina-se como fenômeno secundário das invasões bárbaras. Estas invasões violentas, em um segundo momento, buscaram também o saque às cidades romanas, provocando uma retirada de boa parte da nobreza para suas propriedades rurais, onde, a princípio, estariam salvos. Neste deslocar, os patrícios romanos levavam consigo, além de seus pertences, toda uma infra-estrutura, para, se possível, ausentar-se o menos possível da região em que passaram a viver.

O período anterior à formação do conceito do Estado moderno foi o feudalismo, iniciado após a queda do Império Romano, mais precisamente com o advento da Revolução Francesa, 1789, quando surge a concepção do conceito de Estado-Nação, trazendo em seu bojo a idéia de uma unidade política, na qual os cidadãos deveriam estar vinculados ao território e sob um mesmo ordenamento jurídico: a Constituição. Com a finalidade de manter a referida unidade houve a fusão das populações, e elementos e valores, como a religião e a língua, passaram a ser essenciais para manter a unidade do Estado.

A idéia de soberania ressurge, portanto, com mais força, quando da criação do Estado-Nação, e traz dentro de si a concepção de manutenção da unidade, do todo e do único. Aliás, a própria exaltação dos atributos da soberania do Estado foram essenciais para a construção do Estado-Nação e a manutenção dos seus súditos dentro de uma mesma jurisdição, pois se fosse reconhecido o múltiplo, em detrimento do único, a própria estrutura estatal seria ameaçada. Voltando à análise para a construção da Europa, como menciona Pierre Gourou:11

O espaço, o ser da Europa escapam, ao longo dos séculos, a quem os queira captar ou definir, quer ao geógrafo quer aos especialistas das ciências humanas, uma vez que a Europa nunca foi a mesma no decurso de sua história. No começo da era cristã (…) ela estava de algum modo incluída, mergulhada no Império Romano e apresentava uma superfície que rondava os 3 milhões de km². Passam séculos e séculos, para trás fica um certo número de metamorfoses: a Europa do século XVIII, estende-se para leste até os Urales e cobre 10 milhões de km². Entretanto, a partir de 1492 e durante os séculos XVI, XVII e XVIII, depois durante os primeiros anos do século XX, terá conquistado para a sua civilização e para a sua autoridade a totalidade do continente americano, da Austrália, da Nova Zelândia e uma parte da África Austral – em 1914, todos estes territórios representavam uma superfície de 50 milhões de km².

No referente ao espaço europeu, Massimo Pallottino (1996) ressalta o aspecto multicultural do continente, ao esclarecer que:

Nenhum lugar do mundo proporciona o que a Europa deu: um lugar concentrado num espaço tão restrito, povos com tradições nacionais tão vincadas, tão ricas, que exercem tanto peso sobre a história do mundo. Mas o que são os povos da Europa? A pergunta pode ser ingênua ou fútil – mas não, dada a confusão freqüente, na linguagem comum, entre nações, Estados, comunidades, etnias, línguas, culturas.12 (…)

Esclarece o autor que a Europa se constitui em um

processo orgânico (…) oriundo de culturas oriundas dos latinos, germanos, eslavos, gregos, albaneses, bálticos e celtas os quais, não obstante a grande diversidade presente, falam línguas que derivam de um único tronco: o indo-europeu. Esclarece o autor que o referido tronco está ligado a outras línguas na Ásia, como o indiano, o iraniano, o armênio e o tócaro.13

 

Em termos linguísticos, consequentemente, e, segundo o nosso ponto de vista, torna-se possível aventar-se sobre a possibilidade de certa identidade europeia, a partir da origem lingüística. Certo é que, no continente europeu, existem outras raízes lingüísticas, como a germânica ou a saxônica, por exemplo. De acordo com Massimo PALLOTTINO (1996), ao se referir às antigas tribos que falavam antigos idiomas, de origem não indo-europeias, como a dos etruscos e a falada por alguns habitantes na Sardenha, na Córsega e na Sicília, até que viessem a ser suplantadas pelo latim, grego, celta e o germânico. Destaca o mesmo autor, a existência de idiomas antigos e ainda sobreviventes, como o euskera14 e que conserva “os caracteres do antigo substrato ibérico ou ´ibero-causcásico’, que se estenderia por uma área mais vasta no Ocidente. (…) Este fragmento pré indo-europeu isolado, silencioso, pouco conhecido, desperta nos nossos dias a atenção mundial, reivindicando a sua própria identidade”.15

Ao se comentar, aliás, sobre a formação da cultura europeia, como visto acima, o Império Romano, ao manter a unidade política, foi essencial para a formação, construção e manutenção dos valores europeus, sendo posteriormente, sucedido pelo período da alta Idade Média.16 Não obstante a tradição europeia, advinda do Império Romano, no sentido de manter certa unidade, em relação aos valores dos povos do continente, sempre houve a questão relativa às minorias culturais, como é o caso do euskera. Desde o Império Romano até meados do século XX, a Europa conviveu sob o estigma e os valores do Estado-Nação, sendo que a própria nacionalidade legitimava o agrupamento de pessoas sob a mesma jurisdição e, como forma de manutenção da própria unidade, a língua passou a ser utilizada como valor essencial.

Certo é que alguns Estados, principalmente no século XX, surgiram à força, como foi o caso da ex-Iuguslávia, composta por cinco nações: (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia e Montenegro) vindo, posteriormente, a desaparecer, readquirindo as antigas nações a sua independência.17 O ressurgimento de valores culturais, portanto, a partir da língua, como é o caso doeuskera e do catalão, são essenciais para a manutenção da própria cultura desses povos, neste caso, específicos o País Basco e a Catalunha, quando, após a queda do regime de Franco, foi concedida autonomia regional para essas regiões, a fim de que pudessem legislar a respeito do idioma, de forma a compatibilizar os interesses locais com os interesses da Espanha, evitando qualquer tentativa mais radical de se buscar a independência dessas regiões autônomas.18

Falar sobre o espaço europeu neste século XXI, é comentar sobre a existência de comunidades minoritárias, que convivem no espaço supranacional e devem ter os seus direitos culturais respeitados. Porém, antes de avançar no ponto central do estudo, uma vez definido o espaço supranacional e suas implicações, torna-se importante conceituar o multiculturalismo, principalmente no espaço da arena supranacional, argumentações que estarão reproduzidas no próximo capítulo desta pesquisa.

4. Considerações Finais

Perto do limiar da primeira década deste século o conceito de soberania é relativizado, em face da inserção do indivíduo no centro das relações jurídicas, econômicas, sociais, políticas e, especialmente culturais, no seio da sociedade internacional. Com a relativização do conceito de soberania o Estado não pode mais atuar, de forma isolada, com a finalidade de adotar as suas políticas em seu espaço jurisdicional, porque passam a surgir as associações dos países, com a finalidade de, através da ação conjunta, buscar adotar políticas comuns que surtirão efeito para todos os países associados. A União Europeia é exemplo vivo da nova realidade mundial, em que vinte e sete Estados e vinte e três idiomas oficiais convivem em um espaço, denominado de arena supranacional. Dentro da arena supranacional surge um direito singular e peculiar, como visto anteriormente, com a finalidade de buscar um maior equilíbrio entre os Estados, que é o Direito Comunitário.

O Direito Comunitário, ordenamento peculiar da União Europeia, busca garantir maior eficácia para as políticas, adotadas pelas próprias instituições do bloco econômico. Na Europa o idioma, enquanto valor cultural, é extremamente importante, porque os nacionais europeus valorizam extremamente a língua, enquanto um importante elemento cultural. Tamanha é a importância do idioma, no seio da União Europeia, que inúmeros instrumentos internacionais, foram celebrados na Organização das Nações Unidas, como é o caso do Pacto dos Direitos Civis e Políticos, 1966, e a própria Carta Europeia de Línguas Regionais ou Minoritárias, 1992, celebrado dentro do Conselho da Europa.

O idioma, portanto, é um elemento importante nas relações humanas e que traz consigo os valores culturais do próprio indivíduo. Na União Europeia, a busca de uma compatibilização entre os direitos da maioria frente aos direitos da minoria, quando os segundos não podem expressar, de forma livre os seus valores culturais, de natureza linguística, somente é possível através de uma forte atuação dos Estados, e por parte das próprias instituições do bloco econômico, mediante a adoção de ações afirmativas, com a finalidade de proteger os direitos das minorias. A existência de um ordenamento jurídico supranacional, pautado em valores pluralistas, em uma ordem que respeite a Democracia e os Direitos Fundamentais é essencial para o respeito ao direito das minorias na Europa, de forma a construir uma cidadania multicultural, que refletirá a universalização do respeito aos direitos culturais da minoria.

 

* Eduardo Biacchi Gomes é pós-doutor em Estudos Culturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estudos realizados na Universidade de Barcelona, Espanha, doutor em Direito Internacional pela Universidade Federal do Paraná, professor de Direito Internacional da FACINTER, UNIBRASIL e PUCPR, além de pesquisador vinculado ao grupo de estudos PÁTRIAS, registrado no CNPQ. E-mail: eduardobiacchigomes@gmail.com

 

 

Referências Bibliográficas

BRAUDEL, Fernando (Org). A Europa. Lisboa: Terramar, 1996.

 

DURET, Paolo. Sussidiarietà e autoamministrazione dei privati. Verona: Casa Editrice Dott Antonio Milani, 2004.

 

PALLOTTINO, Massimo. A Europa. Lisboa: Terramar, 1996.

 

WINTER, Luís Alexandre Carta; WACHOWICZ, Marcos. Construção de uma identidade. XVI Congresso Nacional do CONPEDI. Belo Horizonte, 2007.

 

WINTER, Luís Alexandre Carta; WACHOWICZ, Marcos. A construção histórica do conceito de soberania. Anais do Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. 10, Curitiba: Juruá, 2007.

 

 

NOTAS

1 A observância do referido principio é garantida através do Reenvio Prejudicial, ação típica de Direito Comunitário, na qual o juiz nacional, ao ter dúvidas sobre a correta interpretação e aplicação da normativa comunitária, suspende o processo e remete a dúvida para o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. A jurisdição supranacional, sem resolver o caso em concreto, irá pronunciar-se, através de um Acórdão, esclarecendo ao juiz nacional, sobre a melhor forma de interpretar e aplicar o Direito Comunitário. Vale destacar que o Acórdão possui natureza obrigatória. O reenvio é facultativo nas instâncias ordinárias e obrigatório nas extraordinárias, isto é, nas quais não cabem mais o recurso.

2 Que instituiu a Comunidade Econômica Européia.

3 No ano de 2007 foi concluído o Tratado de Lisboa, o qual, a partir do momento que for ratificado por todos os Estados-Membros da União Europeia, substituirá o Tratado de Nice.

4 Que passou a circular fisicamente no ano de 2002.

5 O Preâmbulo do Tratado que institui a União Europeia assim estabelece: “Resolvidos a continuar o processo de criação de uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa, em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos, de acordo com o princípio da subsidiarfiedade”….

6 DURET, Paolo. Sussidiarietà e autoamministrazione dei privati. Verona: Casa Editrice Dott Antonio Milani, 2004.

7 O tratado que institui a União Europeia, em seu preâmbulo, assim define as bases fundamentais para a construção do espaço comum europeu: “Recordando a importância histórica do fim da divisão do Continente Europeu e a necessidade da criação de bases sólidas para a construção da futura Europa, confirmando o seu apego aos princípios da liberdade, da democracia, do respeito pelos Direitos do Homem e liberdades fundamentais e do Estado de Direito, confirmando o seu apego aos direitos sociais fundamentais, tal como definidos na Carta Social Europeia, assinada em Turim, em 18 de outubro de 1961, e na Carta Comunitária dos Direitos Fundamentais dos Trabalhadores, de 1989, desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos, respeitando a sua História, cultura e tradições, desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento de suas instituições, a fim de lhes permitir melhor desempenhar, num quadro institucional único, as tarefas que lhes são confiadas”….

8 Exemplo claro da referida política foi o caso da Constituição Europeia, tratado que foi elaborado com a finalidade de alterar o Tratado de Nice, 2001 e que iria promover grandes alterações na União Europeia. Referido tratado deveria entrar em vigor no ano de 2005, o que não foi possível, tendo em vista o resultado negativo do referendo na França e na Holanda.

9 WINTER, Luís Alexandre Carta: A construção histórica do conceito de soberania. Anais do Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. 10, Curitiba: Juruá, 2007, p. 431-444.

10 WINTER, Luís Alexandre Carta; WACHOWICZ, Marcos. Construção de uma identidade. XVI Congresso Nacional do CONPEDI. Belo Horizonte, 2007.

11 BRAUDEL, Fernando (Org). A Europa. Lisboa:Terramar, 1996. p. 5.

12 Ibid., p. 51.

13 Ibid., p. 53-56.

14 Língua falada no País Basco, Espanha.

15 PALLOTTINO, Massimo. A Europa. Lisboa: Terramar, 1996. p. 56.

16 Ibid., p. 58.

17 Importante destacar que, mesmo dentro das referidas repúblicas, não existe unidade nacional, posto que Kosovo é composta por 90% de origem albanesa. As culturas dos referidos Estados estão representados por uma minoria muçulmana, albanesa (à exceção de Kosovo), húngaros, turcos, romenos, italianos, checos, eslovacos e búlgaros.

18 O reconhecimento inevitável do multiculturalismo, na sociedade internacional atual, leva à necessidade de Estados adotarem políticas descentralizadoras, de forma a conceder maior autonomia para os entes menores, a fim de que possam preservar as suas culturas locais, como é o caso da língua, na Catalunha e no País Basco.

 

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Ramon Mello entrevista Clara Averbuck

“Nós que não somos como as outras”. Clarah Averbuck tem o título do livro da escritora espanhola, Lucía Etxebarria, tatuado no corpo. E definitivamente ela é diferente: é uma mulher de personalidade forte.Talvez por isso uns a adorem e outros a detestem.

Se todos somos personagens de nós mesmos, eu diria que Clarah se diferencia por assumir esse papel. Com tudo isso, misturado com sua literatura, ela também atraiu a atenção do diretor de cinema Murilo Salles, que adaptou sua obra para o cinema. Em “Nome Próprio” sua história é vivida pela atriz Leandra Leal.

Máquina de pinball (Editora Conrad ); Das coisas esquecidas atrás da estante(Editora 7 Letras) e Vida de gato (Editora Planeta) são seus livros publicados. Ela prefere o último! E já está com outros três no prelo: Toreando o diaboDelírio de ruína (em parceria com a estilista Rita Wainer); Eu quero ser eu (contemplada pelo Programa Petrobrás Cultural).

Quando não está escrevendo, ela está “cuidando da filha, fuçando pela Internet ou bebendo pelas ruas…” Li sua obra recentemente, depois de assistir à pré-estreia do filme, no Odeon BR, no Rio de Janeiro, local onde aconteceu essa conversa. Realizei a entrevista em companhia da poeta Maria Rezende e do músico, escritor e cineasta Rodrigo Bittencourt – que está produzindo um documentário sobre a Clarah para o Canal Brasil. Espero que aproveitem!

Click(IN)VERSOS – O que achou do filme “Nome Próprio”, de Murilo Sales?

Clara Averbuck: Gostei, mas fiquei chateada com a modificação que fizeram no meu texto que aparece na tela. Eu escrevi o texto, reescreveram no meu lugar, eu escrevi novamente e acabou ficando uma coisa diluída. As pessoas sabem que é baseado na minha obra e o que aparece escrito no filme não é meu. Isso incomoda.

Click(IN)VERSOS – Seu livro Máquina de Pinball (Editora Conrad) ganhou adaptação para o teatro, roteirizado por Antônio Abujamra e Alan Castelo, em 2003…

CA: Eu odiei muito. Eu estava grávida e quase pari de desgosto. Juro por Deus! Acabou que o Abujamra não teve muita participação na montagem, foi montado por outra pessoa. E atriz também não era boa, ficava dando piruetas no monólogo. Tudo com a entonação errada: quando era pra ser blasé ela gritava, e quando era pra gritar ela era blasé. Eles não mexeram no texto, nada, tudo estava lá. É o inverso do que aconteceu no cinema, que tem a Leandra (Leal) com uma interpretação maravilhosa.

Click(IN)VERSOS – Como a escrita chegou até você? A família influenciou?

CA: Eu lembro que sempre escrevi. Eu me divertia escrevendo, assim como me divirto hoje. É um grande prazer. Não teve um dia em que decidi me tornar escritora. Só me dei conta que estava indo para esse caminho. A minha mãe sempre leu muito, ela escrevia também. Sou filha de artista, meu pai é músico e ator. Tive isso tudo muito forte em casa.

Click(IN)VERSOS – Quando você percebeu que queria apenas escrever?

CA: Quando me mudei para São Paulo. Antes eu trabalhava numa agência de publicidade em Porto Alegre, mas não queria ser redatora publicitária. Meu chefe dizia que eu tinha grande potencial, mas eu não queria. Teve a ver muito com o (John) Fante isso. Tenho um ciúme do Fante! Todo mundo chega falando dele como se conhecesse. Teve a ver com o (Arturo) Bandini, na verdade. Achei que estava saindo do Colorado para ser uma escritora em Los Angeles… (risos) Cheguei a cursar letras e jornalismo. Mas, sou vagabunda, não gosto de estudar, de trabalhar…

Click(IN)VERSOS – Foi assim que surgiu o pseudônimo Camila?

CA: Camila já meio que existia. Eu publicava com outro nome quando eu namorava. Usava o nome da Camila. Já era um alter ego meu, depois eu assumi. As pessoas que estiverem perto de mim vão entrar na minha literatura…

Click(IN)VERSOS – Dá para traçar um paralelo com o pseudônimo do Bukowski?

CA: Acho que dá para traçar um paralelo com várias pessoas que escrevem usando um alter ego. Ou que escrevem usando a vida como matéria prima. Não necessariamente o (Henry) Chinasky.

Click(IN)VERSOS – Esse alter ego da literatura se infiltra na sua vida?

CA: Sou eu. Não tem o que se infiltrar. Sou eu e é uma ficção. A partir do momento que está escrito não interessa se é verdade ou não. As pessoas se preocupam muito com isso. Aconteceu ou não? As pessoas sabem o que eu deixo elas saberem. Eu só quero escrever e que não me incomodem muito. Elas deviam ler e não se importar tanto. Mas também tenho essa curiosidade: fui pra Los Angeles para ver onde o Fante morava. Há três anos, também fui visitar o túmulo do Bukowski e deixei uma garrafa de Ipioca lá.

Click(IN)VERSOS – Como é a relação da música e da literatura?

CA: Sou 50% música e 50% literatura. Fiz outra banda agora, não tem nome ainda. Quero um nome em português. Gosto muito de ouvir Vanguart, uma banda de Cuiabá ótima! Porcas Borboletas, uma banda de Uberlândia excelente! Ainda pouco eu estava ouvindo Rolling Stones. Gosto de Velvet Undergound, Fiona Apple, Bob Dylan…

Click(IN)VERSOS – E música brasileira? Você quase não tem referência brasileira.

CA: Eu quase não ouço. Não me identifico com as coisas daqui. Não bate. Mas gosto muito da Márcia Denser, é minha irmã mais velha. Gosto muito do Leminski. Gosto muito da Cecília Giannetti, que é uma grande amiga. Gosto do (Daniel) Galera. E o cara que mais me identifico que é o Mário Bortolotto. Não li a Mayra (Dias Gomes), mas gosto bastante dela. Ela falou que leu meu livro aos 14 anos. Me sinto uma tia perto dela. Atualmente estou lendo o Guimarães Rosa.

Click(IN)VERSOS – Atualmente você escreve o blog Adiós Lounge. Por que você acabou com o seu primeiro blog, o Brazileira Preta?

CA: Enchi o saco, cansei e não tava mais a fim de escrever lá. Depois fiz um blog escondido. Eu casei e o casamento me consumiu, a gente se consumia muito. E para escrever se precisa de solidão. O que escrevo é muito visceral. Não posso esconder ou fugir. Eu fujo é das pessoas! De uma maneira geral as pessoas são muito chatas. Elas não têm muita coisa a dizer e isso me irrita bastante. Elas falam, falam e não falam nada. Antes eu até discutia com elas, mas agora não tenho mais paciência. Eu me retiro.

Click(IN)VERSOS – E existe literatura de blog? Você acha que você se encaixa em que lugar na literatura?

CA: Quem tem que saber disso são vocês…(risos) Não existe literatura de blog! Não existe! É apenas um meio de publicação com uma data em baixo. Por isso tem blog de receita de bolo, de resenha de discos, de política… É apenas um rótulo idiota. Eu quero escrever, não quero me inserir em nada. Literatura pop é outro termo que não gosto.

Click(IN)VERSOS – Como é seu processo criativo?

CA: Eu ando com um caderninho na bolsa, quando tenho vontade vou lá e escrevo. Não tenho regra pra nada! Nem pra comer, dormir ou escrever. Sou completamente desregrada.

Click(IN)VERSOS – A metrópole está muito presente na sua literatura. Tem vontade de sair de São Paulo? Voltar para Porto Alegre?

CA: Voltar para Porto Alegre nunca mais! Eu fugi de lá, pra que eu vou voltar? Eu gosto de lá para visitar as pessoas, mas nunca mais vou morar lá. Nem quando ficar velha e herdar a casa dos meus pais. Minha filha que vai cuidar disso! Eu gosto de cidade grande e de barulho. Só saio de São Paulo para ir embora do Brasil. Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Moro num lugar muito feio, na Praça Roosevelt. Feio, cheio de concreto, mas tem uma certa beleza naquilo tudo.

Click(IN)VERSOS – E o Rio de Janeiro te atrai?

CA: Ah, vou ser um pouco hippie: o Rio tem uma mágica, uma coisa no ar… Gosto muito da arquitetura, dos prédios antigos e do mar – sempre! Esses prédios brotando em meio das pedras, essas pedras brotando em meio aos prédios.

 

Click(IN)VERSOS – Você teve sua filha num parto normal, em casa. Depois que ela nasceu o que mudou na sua vida e na sua literatura?

CA:Na minha literatura não mudou nada. E as pessoas fazem muito alarde dizendo que filho muda tudo. Tem aquelas pessoas que deixam de ser elas mesmas: param de sair, engordam, não se penteiam mais. Eu sou a única mãe que posso ser. O que ela vai achar das coisas que escrevo? Espero que ela goste! Não tem muita putaria. Mas outro dia me chamaram de literatura erótica…

Click(IN)VERSOS – O que te atrai na vida?

CA: A paixão. O que me atrai é a paixão: por um homem, por livro, pelo Rio de Janeiro, por um filme, pela arte em geral. Coisas que fazem o coração bater mais rápido. Click(IN)VERSOS – Quantas tatuagens você tem?

CA: Não sei. Quer contar? Eu já tentei contar algumas vezes, mas me perco. Tenho umas vinte e poucas. Faço tatuagens com minhas amigas, tenho essa mania. É melhor do que fazer aliança com homem, né? Amizade, quando é de verdade, não acaba. Me interesso por moda, tenho muitos amigos do mundo da moda. Eu gosto de me ornar. A roupa também é uma maneira de se comunicar, se colocar. Sou muito vaidosa.Click(IN)VERSOS – Há leitores que acreditam que seus gatos são alter egos. Como é sua relação com os felinos?

CA: (risos) Eu convivo com gatos há muito tempo. Eu tenho três gatos e minha mãe tem uns cinquenta. Sem exageros! Claro que eles existem. Tem o Joo, a Gatinha e um outro que se chama Jimi Hendrix – mas minha filha mudou para Marcelo, nome do pai dela. Click(IN)VERSOS – O que diria para os jovens que querem escrever?

CA: Escrever não é brincadeira. Tem que levar a sério!Tem que colocar uma alma, porque senão fica apenas uma palavra depois da outra. A pessoa tem que dar um pouco do sangue dela para acreditar no que escreve. Não é para qualquer um.

 

* Ramon Mello (Araruama – RJ, 1984) é poeta, escritor, jornalista e ator. Formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela UniverCidade e em Artes Cênicas pela Escola Estadual de Teatro Martins Pena. Mantém os blogs Sorriso do Gato de AliceClickInversos e Letras-Saraiva Conteúdo. É colaborador do Portal Literal e da revista O Grito! além de organizador da FL@P! RJ, junto ao coletivo riosemdiscurso. Finaliza, atualmente, o romance All star bom é All star sujo. Autor do livro de poemas Vinis mofados (Editora Língua Geral).

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Meditação sobre o ofício de criar | de Silviano Santiago

Nos dois últimos livros de ficção que publiquei O falso mentiroso (2004) e Histórias mal contadas (2005), tentei dar corpo textual a quatro questões constitutivas do que tem sido para mim o exercício da literatura do eu – as questões da experiência, da memória, da sinceridade e da verdade poética. Se eu aceitei o convite para lhes falar hoje, não foi com a intenção de trazer ao palco o autor dos livros e, com ele, o objetivo de oferecer-lhes uma leitura explicativa daqueles dois e de outros textos autoficcionais meus. Pelo contrário. Só ao leitor compete a tarefa da leitura. Aliás, não sou escritor que busca minimizar o trabalho do leitor; em geral, complico-o. Subscrevo dois versos de Nietzsche/Zaratustra, que dizem: “odeio todos os preguiçosos que lêem. / Alguém que conhece o leitor, nada fará pelo leitor”. Perguntado sobre se encenava peças para seu público, Antonin Artaud respondeu: “O público, é preciso em primeiro lugar que o teatro seja”. Em nossas palavras: O leitor, é preciso em primeiro lugar que a literatura seja.

O objetivo primordial desta fala é o de lhes apresentar e, na medida do possível, discutir algumas questões abstratas que preocuparam e preocupam o escritor enquanto personalidade que reflete sobre o estatuto disso a que hoje se chama – e ele próprio passou a chamar – de autoficção. Se pedisse ajuda a João Cabral de Melo Neto, estas palavras trariam como título e intenção “Meditação sobre o ofício de criar”. A ele peço de novo ajuda para acrescentar que a meditação “nada têm de pregação e sequer da sugestão de receitas possíveis”.

No meu caso, cheguei à autoficção através de um longo processo de diferenciação,preferênciacontaminação. Falo primeiro da diferenciação e da preferência. Parti da distinção entre discurso autobiográfico e discurso confessional. Os dados autobiográficos percorrem todos meus escritos e, sem dúvida, alavanca-os, deitando por terra a expressão meramente confessional. Os dados autobiográficos servem de alicerce na hora de idealizar e compor meus escritos e, eventualmente, podem servir ao leitor para explicá-los. Traduz o contato reflexivo da subjetividade criadora com os fatos da realidade que me condicionam e os da existência que me conformam. Do ponto de vista da forma e do conteúdo, o discurso autobiográfico per se – na sua pureza – é tão proteiforme quanto camaleão e tão escorregadio quanto mercúrio, embora carregue um tremendo legado na literatura brasileira e na ocidental.

Já o discurso propriamente confessional está ausente de meus escritos. Nestes não está em jogo a expressão despudorada e profunda de sentimentos e emoções secretos, pessoais e íntimos, julgados como os únicos verdadeiros por tantos escritores de índole romântica ou neo-romântica. Não nos iludamos, a distinção entre os dois discursos tem, portanto, o efeito de marcar minha familiaridade criativa com o autobiográfico e o conseqüente rebaixamento do confessional ao grau zero da escrita. Em que pese seu legado insuspeito para as culturas nacionais, o discurso autobiográfico jamais transpareceu per se em meus escritos, ou seja, não me apropriei dele em sua pureza subjetiva e intolerância sentimental. Não escrevi minha autobiografia. Uma pergunta se impõe: Então, como tenho valido do discurso autobiográfico nos escritos? Para respondê-la, passemos ao terceiro movimento, o da contaminação.

Ao reconhecer e adotar o discurso autobiográfico como força motora da criação, coube-me levá-lo a se deixar contaminar pelo conhecimento direto “atento, concentrado e imaginativo” do discurso ficcional da tradição ocidental, de Miguel de Cervantes a James Joyce, para ficar com extremos. Não foi por casualidade que, na juventude, o crítico de cinema se matriculou na Faculdade de Letras e se tornou, na maturidade, professor de literatura. Se minha vida é a que me toca viver, minha formação foi e é estofada pela leitura dos ficcionistas canônicos e dos contemporâneos – independente de nacionalidade. Com a exclusão da matéria que constitui o meramente confessional, o texto híbrido, constituído pela contaminação da autobiografia pela ficção – e da ficção pela autobiografia –, marca a inserção do tosco e requintado material subjetivo meu na tradição literária ocidental e indicia a relativização por esta de seu anárquico potencial criativo.

Inserir alguma coisa (o discurso autobiográfico) noutra diferente (o discurso ficcional) significa relativizar o poder e os limites de ambas, e significa também admitir outras perspectivas de trabalho para o escritor e oferecer-lhe outras facetas de percepção do objeto literário, que se tornou diferenciado e híbrido. Não contam mais as respectivas purezas centralizadoras da autobiografia e da ficção; são os processos de hibridização do autobiográfico pelo ficcional, e vice-versa, que contam. Ou melhor, são as margens em constante contaminação que se adiantam como lugar de trabalho do escritor e de resolução dos problemas da escrita criativa.

A força criadora do eu – o que Michel Foucault chama de ressemantização do sujeito pelo sujeito – tropeça na pedra no meio do caminho que é a tradição literária ocidental. Tropeça na pedra, leva tombo, levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima e se afirma como também produtora no embate com o poder esmagador da tradição ficcional. Dessa forma é que a ressemantização do sujeito pelo sujeito ganha tutano para questionar, pela produção textual, o estatuto contemporâneo tanto da técnica/artesanato da ficção (the craft of fiction, em inglês) quanto do cânone ficcional. Com o correr dos anos, o movimento de vai-vem do questionamento duplo abriu-me uma brecha de intervenção dramática e textual, onde tenho trabalhado as principais características – experiência, memória, sinceridade e verdade poética ? da moderna literatura do eu.

A fim de evitar mal entendidos, afirmo que em nenhum momento do passado remoto usei a categoria autoficção para classificar os textos híbridos por mim escritos e publicados. Quando pude, evitei a palavra romance. No caso de Em liberdade (1981), um diário íntimo falso “de” Graciliano Ramos, classifiquei o livro de “uma ficção de”, para o desagrado dos editores que preferem o ramerrão do gênero. Já a professora Ana Maria Bulhões de Carvalho o classificou dealterbiografia, um neologismo que já aponta para o caráter híbrido da proposta. Não tive pejo em usar “memórias” para O falso mentirosoMemórias tem boa tradiçãoficcional entre nós.1 Finalmente, acrescento que fiquei alegremente surpreso quando deparei com a informação de que Serge Doubrovsky, crítico francês radicado nos Estados Unidos, tinha cunhado, em 1977, o neologismo autoficção e que, em 2004, Vincent Colonna, um jovem crítico e historiador da literatura, tenha valido do neologismo para escrever o desde já indispensável Autofiction & autres mythomanies littéraires (Paris, Tristram). Em suma, passei a usar como minha a categoria posterior e alheia de autoficção.

Meu percurso certamente difere do percurso de Serge Doubrovsky e de Vincent Colonna, e é por isso que aceitei o convite que me foi feito por Luciana Hidalgo para participar deste encontro. Aliás, Colonna é bastante generoso na sua configuração do gênero híbrido ? a autoficção, que motivou seu estudo, optando por classificar o conjunto das narrativas afins como “uma nebulosa de práticas aparentadas”. Escreve ele que é imensa a lista dos escritores que vêm emoldurando sua identidade numa montagem textual, acrescentando: “Desiguais em sua riqueza, as obras deles são também diferentes pela forma e pela amplidão dos processos de hibridização, mas todas elas marcam uma época, um momento da história literária, em que a ficção do eu [la fiction de soi] ocupa os mais diferentes escritores, para constituir não tanto um gênero, mas talvez uma nebulosa de práticas aparentadas”.

Como a autoficção não é forma simples nem gênero adequadamente codificado pela crítica mais recente, eis-me à vontade para relatar-lhes meu caminho pessoal. Retorno à distinção inicial entre discurso autobiográfico e confessional.

Não esbocei intencionalmente a distinção e muito menos a arquitetei por artes da inteligência ou da razão. Tampouco a constitui de maneira fria e pragmática como lugar original de minha prática literária. A distinção entre autobiográfico e confessional ganhou corpo textual no momento em que comecei a conjugar minha própria experiência infantil de vida com o auxílio dos verbos de minha memória. Ou seja, desde a mais tenra infância, a distinção entre autobiografia e confissão foi feita e existiu em mim e, desde sempre, existe como força a alavancar a imaginação criadora.

A preferência pelo discurso autobiográfico e a conseqüente contaminação dele pelo discurso ficcional se tornou prática textual, ou seja, elas configuraram um produto híbrido, no momento em que o menino/sujeito teve a imperiosa necessidade de jogar para escanteio ? ou para o inconsciente ? o confessional e aliar a fala de sua experiência de vida à invenção ficcional. A contaminação se tornou prática propriamente literária no momento em que o adolescente/sujeito – um memorioso estudioso de Letras ? revisitava as práticas textuais híbridas da infância para torná-las do domínio público. Ao revisitá-las pelo exercício da memória, tenta apreendê-las com o fim de equacionar o desejo de criar narrativas literárias que signifiquem no universo cultural brasileiro. Muita pretensão? Talvez sim, talvez não. Mas nenhum escritor se realiza sem uma “ambição justa”, para retomar a expressão de Autran Dourado.

Portanto, a preferência pelos dados autobiográficos e a contaminação do discurso autobiográfico pelo ficcional existiram desde sempre lá na infância e estarão para sempre em meus escritos. Não tirei distinção, preferência e contaminação do nada, não as inventei recentemente e é por isso que vale a pena pagar uma visita ao menino antigo.

Desde criança, por razões de caráter extremamente pessoal e íntimo – refiro-me à morte prematura de minha mãe – não conseguia articular com vistas ao outro o discurso da subjetividade plena, ou seja, o discurso confessional. Nisso talvez possa me oferecer como paradigmas a infância de Gustave Flaubert e, principalmente, a maturidade de Fernando Pessoa. Não estou querendo dizer que minha personalidade infantil, isto é, meus impulsos vitais e secretos eram-me desconhecidos. Pelo contrário, conhecia-os muito bem. Tão bem os conhecia que sabia de seu alto poder de autodestruição e destruição.

Acreditei ter de esconder dos ouvidos alheios a personalidade de menino-suicida e menino-predador, escondê-la debaixo de discursos inventados (ficcionais, se me permitem), onde eram criadas subjetividades similares à minha, passíveis de serem jogadas com certa inocência e, principalmente, sem culpa no comércio dos homens. Criava falas autobiográficas que não eram confessionais, embora partissem do cristal multifacetado que é o trágico acidente da perda materna. Já eram falas ficcionais e, como tal, co-existiam aos montões. Nenhuma das falas era plena e sinceramente confessional, embora retirassem o poder de fabulação da autobiografia. O dado confessional que poderia chegar à condição plena ficava encoberto, camuflado, para usar a linguagem da Segunda Grande Guerra, então dominante. Não tinha interesse em escarafunchá-lo. Os fatos autobiográficos fabulam, embora nunca queiram aceitar a cobertura da fala confessional, visto que se deixavam apropriar pelo discurso que vim a conhecer no futuro como ficcional.

O sujeito ressemantizava o sujeito pelo discurso híbrido.

Não estou querendo dizer que não vivia a angústia de não poder articular em público o dado da subjetividade plena, dita confessional. Vivia-o, só que não o exercitava como fala nem o escrevia. Agarrar-me e subtrair-me a essa angústia era o modo vital da sobrevivência do corpo e dos impulsos vitais, era o modo como o discurso autobiográfico se distanciava do discurso confessional e já flertava, inconscientemente, com o discurso ficcional.. Onde mais forte se fazia o sentido da angústia e mais necessária sua subtração era à mesa de jantar ou no confessionário. Fiquemos com este exemplo.

Meu pai não era católico praticante, mas nos obrigava a ser. Segui o catecismo e fiz primeira comunhão. Ia à missa todos os domingos. Aos sábados, diante do padre-confessor de sotaque germânico (para as conotações, veja-se o período histórico), no escurinho protegido pelas grades do pseudo-anonimato (morava numa cidade do interior), tinha de fazer exame de autoconsciência e ser sincero ao enumerar econfessar os pecados da semana. Costumava trazê-los escritos numa folha de papel. Uma pitada de paranóia, e acrescento que os pecados eram muitos e, perdão pelo trocadilho, inconfessáveis. Apesar da lista avantajada, não proferia no confessionário uma fala sincera, confessional. Mentia. Ficcionalizava o sujeito – a mim mesmo – ao narrar os pecados constantes da lista. Inventava para mim e para o padre-confessor outra(s) infância(s) menos pecaminosa(s) e mais ajuizada(s), ou pelo menos onde as atitudes e intenções reprováveis permaneciam camufladas pela fala.

Essas mentiras, ou invenções autobiográficas, ou autoficções, tinham estatuto devivido, tinham consistência de experiência, isso graças ao fato maior que lhes antecedia – a morte prematura da mãe ? e garantia a veracidade ou autenticidade. Aos sábados, diante do confessor, assumia uma fala híbrida – autobiográfica e ficcional ? verossímil. Era “confessional” e “sincero” sem, na verdade, o ser plenamente. O menino ao confessionário já era um falso mentiroso. Faço minhas as palavras contundentes de Michel Foucault em A arqueologia do saber: “Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever”.

Na infância, já era multiplicadoramente confessional e sincero, eraautoficcionalmente confessional e sincero. O discurso confessional – que nunca existiu no domínio público – se articulava e se articulou desde sempre pela multiplicação explosiva dos discursos autobiográficos que faziam pacto com o ficcional. O discurso confessional – que na verdade não o era, era apenas um lugar vazio, desesperador, preenchido por discursos híbridos – só poderia estar plena e virtualmente num feixe discursivo, numa soma em aberto de discursos autoficcionais, cujo peso e valor final seriam de responsabilidade do padre-confessor – e, hoje, de meu leitor. Ao padre-confessor e ao leitor passava algumas histórias mal contadas.

A boa literatura é uma verdade bem contada… pelo leitor… que delega a si – pelo ato de leitura ? a incumbência de decifrar uma história mal contada pelo narrador. Competiu aos ouvidos do padre-confessor ? e compete hoje aos olhos do leitor ? preencher os brancos e os vazios de que é também feito um texto literário, aliás, não tenhamos dúvida, qualquer texto, que o diga o psicanalista. Compete ao leitorempinar (como a uma pipa) e endireitar (como a algo sinuoso) um objeto em palavras que lhe é dado de maneira corriqueira e aparentemente em desordem. Um exemplo? Pois não. Dom Casmurro é uma história mal contada pelo narrador Bentinho sobre o adultério de sua esposa, Capitu, com Ezequiel, o melhor amigo do casal. Caso narrada da perspectiva do leitor, a estória em primeira pessoa sobre o adultério de Capitu se transforma numa bem contada história sobre o ciúme doentio do personagem Bentinho.

As histórias – todas elas, eu diria num acesso de generalização – são mal contadas porque o narrador, independentemente do seu desejo consciente de se expressar dentro dos parâmetros da verdade, acaba por se surpreender a si pelo modo traiçoeiro como conta sua história (ao trair a si, trai a letra da história que deveria estar contando). A verdade não está explícita numa narrativa ficcional, está sempre implícita, recoberta pela capa da mentira, da ficção. No entanto, é a mentira, ou a ficção, que narra poeticamente a verdade ao leitor.

Um dos grandes temas que dramatizo em meus escritos, com o gosto e o prazer da obsessão, é o da verdade poética. Ou seja, o tema da verdade na ficção, da experiência vital humana metamorfoseada pela mentira que é a ficção. Trata-se de óbvio paradoxo, cuja raiz está entre os gregos antigos. Recentemente, encontrei a forma moderna do paradoxo num desenho de Jean Cocteau, da série grega. Está datado de novembro de 1936. No desenho vemos um perfil nitidamente grego, o do poeta e músico Orfeu. De sua boca, como numa história em quadrinho, sai uma bolha onde está escrito: “Je suis un mensonge qui dit toujours la vérité” (Sou uma mentira, que diz sempre a verdade). Esse jogo entre o narrador da ficção que é mentiroso e se diz portador da palavra da verdade poética, esse jogo entre a autobiografia e a invenção ficcional, é que possibilitou que eu pudesse levar até as últimas conseqüências a verdade no discurso híbrido. De um lado, a preocupação nitidamente autobiográfica (relatar minha própria vida, sentimentos, emoções, modo de encarar as coisas e as pessoas, etc.), do outro, adequá-la à tradição canônica da ficção ocidental.

Toda narrativa ficcional em que a verdade poética está transparente – aquilo que se chama de romance de tese – é um saco. A verdade ficcional é algo de palpitante, pulsante, que requer sismógrafos, estetoscópios, e todos os muitos aparelhos científicos ou cirúrgicos que levam o leitor a detectar tudo o que vibra, pulsa e trepida no quadro da aparente tranqüilidade da narrativa literária, ou seja, no mal contado pela linguagem. Nesse sentido, e exclusivamente nesse sentido, o bem contado é a forma superficial de toda grande narrativa ficcional que é, por definição e no seu abismo, mal contada.

Para terminar, leio parte dum fragmento de “Sem aviso”, texto assinado por Clarice Lispector: “Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser precavida, e depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso – já atordoada eu sentia – era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta”. Permitam-me a glosa. O sujeito em primeira pessoa começou a mentir por prudência e cautela e, como a realidade ambiente o incitava a ser prudente e cauteloso, continuou a mentir descaradamente. E tanto mentia, que já mentia sobre as mentiras que tinha inventado. E a tal ponto mente, que a mentira se torna o meu modo mais radical de ser escritor, de dizer a verdade que lhe é própria, de dizer a verdade poética.

(2007)

 

* A palestra foi escrita a pedido de Luciana Hidalgo e apresentada na sede do SESC, em Copacabana.

 

NOTAS

1 Memórias de um sargento de milícias, Memórias póstumas de Brás Cubas e Memórias sentimentais de João Miramar.

 

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Ana Cristina. Em vôo rasante | de Clara de Andrade Alvim

Em uma primeira impressão, anotei mentalmente, sem ordem de nenhuma espécie, pontos a que queria voltar. Mas a gente tem de observar que são pontos no meio do movimento do poema e que, retirados, ganham importância e ênfase que os colocariam em sobrevôo à corrente em que foram imersos. Provavelmente, para serem afogados ou quase. Seria assim que ela quer? É muito parecido com uma brincadeira que meu neto de dois anos faz comigo, na varanda, desde que aprendeu a palavra, sacou o sentido e as possibilidades psicológicas e metafísicas de sua manipulação. Ele segura o guidom do velocípede ao inverso – e se pode perceber que assim também serve. Espera, já rindo, minha reação. Ao contrário? Pergunta, e revira a direção ao contrário, repetindo infinitamente o jogo. Vejam Ana Cristina: (Em Luvas de Pelica).
“ ………………………..You know what lies are for. Doce
coração cleptomaníaco.
Pondo na mala de esguelha sobras do jantar,
gatos e bebês adoentados.
Bafo de gato. Gato velho parado há horas em
frente da porta da frente.
Qual o quê. Coração põe na mala. Coração põe
na mala. Põe na mala.”

Poucos versos antes dissera:

“Porque eu faço viagens movidas a ódio. Mais
resumidamente em busca de bliss.
É assim que eu pego os trens quinze minutos
antes da partida ………………………………..”

Partida antes da partida. Ódio ou bliss não. Ódio e bliss se revirando até dar no mesmo, lançando o estranhamento. Auto-complacente, a autora ou o personagem esconde o roubo irresistível (pedaços da vida dos outros, invejados embora adoentados? Um verso? O amor de outrem?) – butim da espreita, guardado na mala da partida. A repetição de “Coração põe na mala” produz aquele efeito de virar ao contrário e perguntar se é assim, que compraz a meu neto, em seu incipiente sadismo com a avó. Mas aqui a crueldade castiga quem segura a direção contra seu peito.
Voracidade, ciúme, desatino – por vezes estão por detrás das gatunagens:
(Em Correspondência Completa)

“………………………………………………………Mary tem sempre razão.
Gil diz que ela não se abre comigo porque sabe
que minha inveja é maior que meu amor. ………………………………”
………………………………………………………………………………………….

Gil diz que sou uma leoa marinha e eu exijo
segredo absoluto (está ficando convencido):
historinhas ruminadas na calçada são afago para
o coração. Quem é que pode saber? Eu sim sei
fazer calçada o dia todo, e bem. Do contrário…
Não fui totalmente sincera.”

Mas, como se vê, a des-razão revira rápido em razão muito cerebrina, desabusada e desafiante de quem – digamos- capta o alheio em conjunção a outros poetas ladrões de historinhas, de quem ela também pilha um pouquinho – mas sabendo o que faz, fazendo a seu modo. “Quem é que pode saber”? Em “Samba Canção”, de A teus pés, que ecoa títulos de Cacaso, ela diz:

“Tantos poemas que perdi,
tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone ………………”

Essa questão da literatura-roubo, apropriação, Ana Cristina compartilha com outro escritor, cuja estréia, com Armadilha para Lamartine, ela apoiou, quando fazia parte, com Cecília Londres, do conselho informal que escolhia as publicações de autores brasileiros da espanhola editora Labor, recém-instalada em nossas plagas, ainda nos anos 70: Carlos Sussekind. Ana Cristina não chega a saber que, em 1992, Carlos vai publicar um livro chamado O Autor mente muito. Diz Ana Cristina na página final da Correspondência Completa:

“……………………………………………………..só posso
dizer que corei um pouco de ser tudo verdade. F.
penso não percebe, mas como sempre mente
muito. Mente muito! Só eu sei. Vende a alma ao
diabo negociando a inteligência alerta pela
juventude eterna.”

Autora e personagem trocam de papel com freqüência nesses versos-correspondència-diário. Um truque a mais para despistar o leitor ou para disfarçar a dor. A propósito daquele “corei um pouco de ser tudo verdade” há que lembrar – entre muitas outras coisas – os dois P.S. do final da Correspondência Completa:

“P.S. 1 – Não quero que T. leia nossa correspondência, por favor, Tenho paixão mas também tenho pudor!
P.S. 2 _ Quando reli a carta descobri alguns erros datilográficos, inclusive a falta do h no verbo chorar. Não corrigi para não perder um certo ar perfeito – repara a paginação gelomatic, agora que sou artista plástica.”

A inteligência alerta para manter, com mão firme, a literatura à distância da biografia, não se confundindo com esta, embora fazendo dela sua matéria prima.
A armadilha, a pose, a prestidigitação – a poeta como um mágico que mostra vertiginosamente as lembranças, os testemunhos, as imagens de um enredo, cuja verdade, manipulada, vira ficção.
A re-escrita da vida como paródia, feita de ironia, de humor e de um falso pudor que, às vezes, chega ao franco descaro, me parece ser uma das marcas dessa poesia. Nesse sentido, esta poesia confina com a prosa – a menos poética, a mais corriqueira – em que insere citações, apropriações literárias, referências a falas e acontecimentos recuperáveis. Primam o ataque à aura, o propósito de dessacralização. Em “18 de fevereiro”, de Cenas de Abril , lê-se:

“……………………………………………………………………………………….
Somente a dicção nobre poderia a tais alturas
consolar-me. Mas não o ritmo seco dos diários
que me exigem!”

A começar pelo rebaixamento do lugar da própria literatura e do livro. NaCorrespondência Completa, cuja edição minúscula foi objeto de grande prazer “plástico”:

“…………………………………………Escrever é a
parte que chateia, fico com dor nas costas e
remorso de vampiro. Vou fazer um curso secreto
de artes gráficas. Inventar o livro antes do texto.
Inventar o texto para caber no livro. ……………….”

Também a desmistificação do lugar do artista e certa triste e desiludida falta de ternura em relação a seu próprio processo de escrever: (Em Luvas de Pelica).

“…………………………………………………………………………………
Aqui tenho máquinas de me distrair, TV de
cabeceira, fitas magnéticas, cartões postais,
cadernos de tamanhos variados, alicate de unhas,
dois pirex e outras mais. Nada lá fora e minha
cabeça fala sozinha, assim, com movimento
pendular de aparecer e desaparecer. Guarde bem
este quarto parado com máquinas, cabeça e
pêndulo batendo. Guarde bem para mais tarde.
Fica contando ponto.”

Como nas Memórias Póstumas, que ela confessa haver lido até se sentir “ low”, o leitor da Correspondência (e o de sua literatura em geral) é provocado, ao mesmo tempo em que a autora se expõe:

“ Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor.
Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas
capciosas, pensando que cada verso oculta
sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o
hermetismo. Não se confessa os próprios
sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura
pura, e não entende as referências diretas.
……………………………………………………………………”

Assim, as citações e referências literárias (“lições levantam vôo”), embora correspondam a autores de sua admiração e afinidade, em Ana surgem mescladas a sua própria dicção e ficção, eminentemente iconoclastas. Baudelaire – cuja presença é profunda na poesia de Ana Cristina – e Manuel Bandeira freqüentam o poema “21 de fevereiro” em Cenas de Abril:

“…………………………………………………..abomino
Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um
modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como
deve ser, não tão generosa, não. …………………….
………………………………………………………………….
……………………………………………………………………
…………………………………………………………………..
………………………………………………………………….
…………… Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui,
longe deles. ……………………………………………………
…………………………………………………………………….
………. .Belo belo. Tenho tudo que fere. As
alemãs marchando que nem homem. As cenas
mais belas do romance o autor não soube
comentar. Não me deixa agora, fera.”

São referências que penetram e exprimem o sentimento do poema, embora o devido pudor encontre sempre maneiras de driblar seu reconhecimento pelo leitor. Ainda na Correspondência Completa, cujo aspecto físico e dicção – como já se observou – se opõem em tudo à solenidade que não pode deixar de envolver a expressão da dor, Ana Cristina evoca de raspão a poesia de Maria Ângela Alvim, particularmente a do poema-em-prosa “Carta a um cortador de linho” contido no último livro – Poemas de Agosto dessa autora:

“……………………… . Há três dias que pareço morar
onde estou (ecos de Ângela). Aquele ar de
desatenção neurológica me deixa louca. Saímos
para o corredor.Você vai ter um filhinho,
ouviu?”

Diz Ângela:
“…………………………………………………………………………………..

Quanto a mim, meu amigo, vou passando. Sem
ela não fico em casa. Há três dias que pareço morar
onde estou: na rua, no café, na praia.

…………………………………………………………………………..
…………………………………………………………………………..

Mas minha pele tornou-se muito sensível. Demais.
A dor cresce dentro da gente e tem que respirar.
Ela tem uma energia e queima como o sol – lá fora.
Nem sei se é dor ou se é aquela que está sofrendo
que me visita assim. Não têm onde encontrar-me e
entram dentro de mim, querem abraçar-me e avançam
minhas fronteiras.”

Em comum a intensidade da dor e sua consideração como algo exterior, a distância de si, o sentimento do”sem lugar”. Parece-me que a leitura da cisão da personalidade em Ângela, por Ana Cristina, provoca a referência à perigosa ambigüidade que penetra os fracionamentos do “eu” e projeções, freqüentes em sua poesia:

“ ………………………………Você vai ter um filhinho,
ouviu?”

No entanto a dor, que na poesia de Ana Cristina é figurada por representações de ferocidade de quem escreve do patamar rente à vida, contrasta com o sofrimento apaziguado pela certeza do fim, “que é ali mesmo”, expressado na “Carta a um Cortador de Linho” – esse raro poema em prosa da modernidade brasileira.

Assim, pois, a intensidade da presença de autores canônicos e de outros nem tanto nos poemas de Ana Cristina não resulta na anulação de sua personalidade literária, antes a reforça. A singularidade dessa poesia provém – me parece – principalmente do domínio que a autora exerce sobre sua matéria, ao domar tanto o literário como o biográfico – que formam a substância da obra – e fazer prevalecer sua própria escrita, a qual mantém em equilíbrio o drama e a farsa.
É preciso, por fim, notar que a presença de Baudelaire e de Walt Whitman nessa poesia vai além das citações e, mesmo, além do que entendemos mais comumente como influências. Parece-me que através do eco dessas vozes contrastantes, mas inaugurais da poesia contemporânea, é que Ana Cristina enfrenta os embates para realizar seu propósito de expressar em literatura de clave moderna seus sentimentos diante da realidade de sua vida e de seu momento político e literário. Nesse sentido, diz muito o título de seu último livro: A Teus Pés.

* Clara de Andrade Alvim é graduada em letras pela antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Livre Docente em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com tese sobre Guimarães Rosa. Lecionou na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na PUC RJ e na Universidade de Brasília. Coordenadora de projetos da Fundação Pró-memória do Ministério da Cultura. Publicou, entre outros, os seguintes trabalhos: “Esses poetas de hoje”, posfácio à primeira edição de “Beijo na boca”, de Antonio Carlos de Brito; “Representações da pobreza e da riqueza em Guimaraes Rosa”, in “Os pobres na literatura brasileira”, organizado por Roberto Schwarz ; “As questões: mulher, biografia e literatura nos escritos em prosa de Ana Cristina César”, in revista “Remate de Males nª 20, do Dep. de Teoria Literária da UNICAMP e a orelha de “A terceira perna”, de Vilma Arêas.

 

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Legalidad, resistencia y ética | de George Yúdice

3 de abril de 2008
*De próxima aparición en Culturas, suplemento cultural de La Vanguardia (Barcelona)

Apesar de los vaticinios de la muerte de la industria de la música, en los cuales yo mismo he incurrido en varias publicaciones, sería más exacto caracterizar el estado actual del fenómeno musical como una encrucijada, un período de incertidumbre en el que los contornos del futuro sistema de circulación musical todavía no se vislumbran. Los ingresos de la industria de la música vienen cayendo, a la vez que aquellos que la escuchan (melómanos, usuarios, consumidores o como se quiera llamarles) adquieren fonogramas por intercambio de archivos en Internet o en los puestos de top manta. La industria responde con represalias legales, pero aun así no logra frenar toda la actividad que tiene lugar fuera de su control. Por otra parte, los músicos mismos vienen escapándose de las estructuras ya evidentemente caducas de la industria fonográfica. McCartney, Prince, Radiohead, Nine Inch Nails, Madonna, Bowie, y un sinnúmero de músicos menos conocidos internacionalmente han buscado nuevos modelos de mercado y de circulación musical. Así mismo, han surgido miles de sitios donde se puede conseguir fonogramas o intervenir en la creación de música en remixes y mashups, aproximando el usuario al músico, efecto que muchos celebran por su empoderamiento democratizante y otros descalifican como empobrecimiento artístico.

Si bien podría pensarse que las eventualidades empoderadora o empobrecedora son igualmente probables en este momento de flujo – o de liquidez al decir de Bauman – la verdad es que no se dan en igualdad de condiciones. Si bien las diversas nuevas tecnologías de intercambio de archivos desafían a la industria en varios aspectos, ésta no obstante tiene el respaldo de la ley y de las fuerzas policiales que le dan seguimiento. El caso más notorio es el de Jammie Thomas, quien intercambio 1.702 fonogramos, si bien fue procesada por la Recording Industry Association of America (RIAA) en base a 24 canciones, por cada una de las cuales tendrá que pagar $9.250 o un total de $220.000 de compensación. Thomas pudo haber resuelto el caso extrajudicialmente como miles de otros demandados, pero prefirió disputar los cargos en un juicio por jurado. Las circunstancias de este caso facilitaron un veredicto de culpabilidad, pero Thomas no es la única persona que busca combatir el dominio que tiene la industria fonográfica sobre la circulación de música.
Podría decirse que se están perfilando nuevas políticas en torno a la ética del intercambio de archivos. Hace décadas nadie habría sido procesado por intercambiar LPs con sus amigos e inclusive con desconocidos en clubes y lugares de encuentro, como se hace en la economía del trueque. Hoy, más allá de la criminalización de canjeadores que lleva a cabo la industria fonográfica, una miríada de organizaciones y de individuos está buscando el término medio entre el derecho de los creadores a recibir una compensación por su trabajo y el derecho de la sociedad a bienes comunes o al patrimonio de la humanidad. Las primeras concesiones de derecho de autor y de copyright limitaron el monopolio de reproducción a 28 años, después de los cuales la obra entraba al dominio público. Además, se protegió a los consumidores prohibiendo que los editores controlaran el uso de obras después de su publicación. En los EEUU se limitó el copyright a 14 años, renovable por otros 14, período que se duplicó en 1909. Pero desde 1962 viene aumentando hasta alcanzar 95 años en 1998. Como explica Lessig en su libro Cultural libre (2005), no hay justificación constitucional para esa extensión, la cual refleja la tentativa de las empresas de establecer un monopolio sobre las obras que deberían entrar en el dominio público, aumentando así sus las ganancias.

La gran novedad en la actualidad es la creciente politización de ciudadanos de todos los países que se oponen a este empequeñecimiento del dominio público y más aun al resultado de las estrategias de blockbuster y marketing empleadas por los grandes sellos para reducir el riesgo de fracaso en el mercado. Ese resultado es la casi eliminación de la radio y la televisión de las obras producidas por pequeñas y medianas empresas, y por tanto la mayor dificultad de sostener la diversidad musical en el mercado. Es justo por esta razón (apoyar el acceso a la diversidad e obras, sobre todo de regiones que no pueden competir en el mercado internacional) y por el deseo de los artistas, aún los más reconocidos, de ganar mayor control de la circulación de música y de las ganancias, que la industria fonográfica tendrá que cambiar, si quiere sobrevivir.
Podría decirse que las políticas de negocio de los grandes sellos han generado un gran movimiento social en torno de la propiedad intelectual, tema que hace un par de décadas no provocaba el interés de nadie. Así, han nacido movimientos como “Todos contra el canon” en España, con más de millón y medio de ciudadanos que quieren eliminar el impuesto a los reproductores y medios de almacenamiento digitales que la industria de la música y el entretenimiento ha logrado que se legisle. Movimientos parecidos existen en otros países, y hasta hay un partido contra los derechos de autor en Suecia.

Pero más allá de los partidos y los movimientos sociales más o menos organizados, hay una marea de resistencia a obedecer las leyes que las mayorías creen injustas. En EEUU, donde se supone hay el mayor seguimiento a las leyes, la mayoría de los estudiantes en todos los niveles consigue su música mediante el intercambio de archivos en Internet. Y ni hablar de los jóvenes en países en desarrollo. Hay países como Perú donde la industria fonográfica ha dejado de existir casi por completo en su encarnación convencional. En esos países sólo una pequeña minoría podría pagar los $15 a $20 que cuesta un CD.

Pero más aun que el precio, lo que se busca es ampliar la oferta, por una parte, y asegurar que el intercambio de música siga siendo uno de los fundamentos de la socialización o social networking. Para verificar la enorme diversidad de música, vinculada a la identidad de los internautas, sólo falta entrar en los sitios de socialización como MySpace o ver los videos que se suben a YouTube. Algunos críticos descartan este vínculo entre identidad individual o grupal y repertorios de música reduciéndolo a un mero consumo acrítico. Pero en los sitios de socialización hay debates en torno a la música desde una miríada de criterios, desde los tecnológicos a los estéticos. Lo que constatamos, pues, es una nueva alfabetización musical que enriquecerá la actividad creativa de los usuarios.

Esta no es una revolución política ni una liberación social, pero sí es un reclamo al derecho a la creatividad.

* George Yúdice es profesor de la Universidad de Miami. Colabora con el MACBA; este junio enseñará para el Programa de Estudios Independientes un curso sobre economía y cultura y dirigirá un seminario sobre el “museo molecular”. Publica:Nuevas tecnologías, música y experiencia (2007); Política cultural (2004) y El recurso de la cultura (2002), todos por Gedisa Editorial.

 

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Viril delicadeza | de Eduardo de Araújo Teixeira

[Ensaio sobre Aqueles dois, de Cia. Luna Lunera]

“Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação. (…) Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tinhas apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim entrado: Uma amizade sincera.” Clarice Lispector

Assistir aos atos concentrados dos Prêt-à-porter dos atores-criadores de Antunes Filho, depois ver esta peça que vem de Minas Gerais pela Cia. Luna Lunera, ajuda a reconhecer certos traços que vem a definir um teatro contemporâneo mais inventivo que se desenha no Brasil contemporâneo. Um teatro que aspira à comunicação com o público, mas sem cair na armadilha da encenação fácil, porque mais centrado no ator, reduzindo os demais elementos a um mínimo que tenciona para, da contenção, extrair o máximo de expressividade. Tudo o que não é pouco.

Aqueles dois, apresentado pela companhia mineira, realiza tal proeza, avançando onde o Prêt-à-porter por vezes derrapa, por certa carência de ousadia que parece residir na crença demasiada, de que o menos é sempre mais. Assim ocorre quando a contenção excessiva represa o gesto criador em esquemas e limitações impostos à encenação. Não me contradigo. Aqui e ali, a criação nas mãos dos atores, a pesquisa, o adensamento no gesto e na palavra, com o diferencial, no caso da Cia. Luna Lunera, do risco de encenar um texto literário sem vertê-lo exatamente em texto dramático.

O conto “Aqueles dois”, que dá nome à peça, é um dos textos mais conhecidos de Caio Fernando Abreu, penúltima narrativa de seu livro Morangos Mofados. A trama é de fácil apreensão: dois rapazes, Raul e Saul, recém-contratados em uma repartição, desenvolvem um forte vínculo de amizade que evolui, de maneira ambígua, para um envolvimento amoroso. Embora não se concretize sexualmente, tal relacionamento fará com que sejam banidos do emprego. Solidão, amor, repressão sexual, perda e intolerância são questões urdidas nesta narrativa para além da problemática homossexual.

O espetáculo começa por surpreender ao colocar em cena quatro atores de tipos físicos bastante distintos que não dividem os papéis de Raul, Saul, ou quaisquer outros personagens presentes no conto. Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga são simultaneamente Raul e Saul; todos são os homens e mulheres emparedados no escritório, isolados em apartamentos; todos chefes e subalternos; narradores e objetos de narração. O ator não divide personagens, é multíplice, converte-se em todos. E num lance de quebra brechtiana (cerne do espetáculo), representam a si próprios: atores que encenam e que, voltados para o público (desnudos), homenageiam o autor da peça, Caio Fernando Abreu.

O que se faz de mais notável na “encenação” de Aqueles dois, é o fato de os encenadores levarem quase às últimas conseqüências a aplicação dos conceitos de fragmentação, multiplicidade e simultaneidade. Chamo de “conceito” (porleitmotiven), pois não se executa na peça somente uma ruptura com a linearidade da narrativa, que no conto é esboçada em flashbacks e reiterações de cenas e frases (sem esquecer as similaridades – até sonoras – entre Raul e Saul). A construção do espetáculo se faz igualmente por fragmentos1, com recorrente construção e desconstrução de ambiente executada pelos atores, à vista do público, num processo que integra a encenação.

No palco, organizado em forma de quadrado2 (por isso mais adequado ao formato de arena), o espaço construído é por vezes o do escritório, mas também às beiras, converte-se nos quartos dos protagonistas, nos meandros da área de café. Também, num mesmo espaço, apresentam-se múltiplos tempos, evocados pelas frases burocraticamente reiteradas pelos atores, aqui e ali simultaneamente construídos pelo figurino, por um tirar e pôr de camisa, a movimentação de um objeto cênico. Fragmentando tempo e espaço (e concentrando num só cenário essa multiplicidade), o trânsito temporal reitera a rotina estafante. Presente e passado tornam-se uma coisa só, inolvidável. Marca-se, assim também, a despersonalização a que estão sujeitos todos os funcionários da repartição: unidos e isolados, cada um preso ao seu próprio tempo e espaço. Literalmente: um deserto de almas desertas. Por isso mesmo, a saída faz-se pelas cartas, contato com o mundo de fora, cartas que são canções, que não pertencem à cena (leitura de carta de Caio Fernando Abreu), que denunciam.

Com o foco em terceira pessoa, Aqueles dois apresenta grande economia no discurso direto. Restringem-se os diálogos a fragmentos soltos, inseridos no corpo da narrativa, mais sugeridos (em expressões, letras de canções) que explicitados. O conto faz-se, portanto, pelo comentário, evocado pela palavra poética repleta de sugestões imagéticas. Tais características estruturais reafirmam a dificuldade de transposição do narrativo para gênero dramático.

A transposição integral de um texto literário para o palco, sem que a conversão para o gênero dramático seja realizada, produz um choque de linguagens que limita enormemente a expressão teatral, posto que cerceia o potencial expressivo desta arte. Comumente, encenadores fazem-se reféns do texto, limitando-se a ilustrar o narrado, produzindo um eco que esvazia a mensagem. Entretanto, a aproximação entre estes dois gêneros afins, mas distintos, tem servido de base para experimentações que superam as barreiras com maior ou menor sucesso. Um bom exemplo – ao qual podemos filiar Aqueles dois – é à técnica romance-em-cenadesenvolvida pelo diretor Aderbal Freire Filho em três espetáculos de grande sucesso de crítica e público3.

Aderbal definiu a técnica desenvolvida por ele (romance-em-cena) como: “o jogo da ilusão do teatro levada ao paroxismo: o discurso em terceira pessoa e a ação em primeira. O passado e o presente se confundem. Aristóteles e Brecht sentados à mesma mesa. A adaptação é ‘apenas’ cênica, não se transforma o texto narrativo em texto dramático.”4

No romance-em-cena há narração, mas não existe a figura do narrador, pois as narrações são ditas como falas pelos atores. Nas peças que Aderbal dirigiu, observa-se a proximidade com o teatro épico, pois as ações proliferam num fluxo vertiginoso. Atores desempenham múltiplos papéis, e o texto literário é integralmente apresentado. É interessante observar que se tratam de três romances/peças que tendem à sátira, sustentando-se não só na encenação (vertiginosa), mas na própria “linguagem dos escritores”, uma prosa marcada pelo humor, pela ironia, e repleta de trocadilhos e jogos de palavras.

Neste sentido, a Cia. Luna Lunera avança na técnica “conto-encenado” porque lhe é infiel, já que elege uma narrativa curta que dilata com delicadeza, dosando a “fidelidade à prosa poética do escritor gaúcho” a um inventivo uso de canções, sons, objetos e achados físicos (coreografias e expressão corporal) e uso de recursos de mídia. Aqueles dois avança também, no sentido de adensar o que o texto meramente sugere, sem pudor de alterar a ordem de frases e acontecimentos do conto. Se os atores narram passagens integrais do texto, não se furtam à execução de cortes/fraturas cujo objetivo parece ser enfatizar dados muito sutis.

Pulverizado (descentrado) o protagonismo da peça, a atuação torna-se um equilíbrio de forças, ou melhor, um tour de force coletivo que impossibilita indicar uma ou outra atuação, já que todos parecem compor uma só engrenagem a serviço do texto, da encenação. Oscilando entre momentos de grande energia e dinamismo (a montagem da rotina incessante e vazia do escritório, por meio da aceleração e vertigem da movimentação dos atores) e momentos líricos, mais simbólicos e poéticos (a dança/confronto entre os corpos que se sustentam uns aos outros), o que obtém é um complexo momento de intimismo e empatia com o público, embora todo o tempo exponham ao público a construção da própria cena. Se retomam passagens já encenadas (narrando diretamente longos trechos), visam reorientar de modo mais direto o entendimento da platéia, como forma de contornar o fragmentário, ou reafirmar a quebra, mesmo, da ilusão do palco. Neste sentido, buscam a comunicação e a delicadeza; palavra, apuro técnico e emoção, um equilíbrio possível entre Antunes e Aderbal.

A tentativa, contudo, de dar mais atualidade à história (com citações a cineastas mais modernos, como Pedro Almodóvar, e outros artistas) é falha, pois não conseguem espantar a impressão de que Aqueles dois circunscreve-se, inevitavelmente, a um período específico do passado, ainda mais, levando em consideração conquistas (pelo menos legais), no campo dos direitos dos gays. “Tu me acostumbraste” (citada/cantada várias vezes, bem como outros boleros, e canções de dor de cotovelo), remete ao passado, e permite a explicitação da alma melancólica e sentimental de Raul e Saul, “moços velhos” de coração interiorano, reprimidos sexual e afetivamente (em relação à mãe, à noiva, e ao desejo que um tem pelo outro). Se canções e castrações soam datadas e piegas, esses desconcertos são superados pelo fato de que são justamente os versos (e desenhos) que se prestam à explicitar a paisagem interior dos personagens; os sentimentos que um e outro não se permitem confessar.

O que a Cia. Luna Lunera traz de mais significativo na fusão que realiza entre Teatro e Literatura, é o mérito de equacionar distintos elementos: fidelidade à literatura de Caio Fernando Abreu, depuração e rigor cênico, inventividade criadora a serviço da emoção. Não é pouco. Sem violar o texto (por si, autossuficiente), investiu-se criativamente na expressividade do ator, o que de certo modo significa o investimento na figura humana. Mais que submeter a prosa narrativa à quadratura da cena, a concepção do espetáculo buscou potencializar aquilo que no texto era esboço, integrando à encenação a noção de contato e encontro entre iguais (quatro homens), tendo possivelmente como ponto de partida jogos de atores, técnicas de contato-improvisação.

Aqueles dois termina por não ser uma peça rigorosamente gay, já que nela não se investe no potencial de choque/escândalo – que a encenação de peças de temática homossexual normalmente valorizam, – mas na solidão do homem. Fiéis à sutileza (talvez demasiada) do texto, a interpretação dos quatro atores deslinda a evolução emocional e afetiva de Raul e Saul, e com viril delicadeza valoriza a eloquência dos corpos em contato ante sentimentos emudecidos. Esvaziam assim qualquer possibilidade de converter Aqueles dois em discurso acusatório, manifesto prosaico à discriminação homossexual. Sem escamotear a tensão erótica dos protagonistas, o foco recai na construção de um terceiro objeto, nem literatura nem teatro: poesia encenada com o corpo – lugar onde paira o conto e a criação de Caio Fernando Abreu.

São Paulo, 27 de novembro de 2008.

 

Fotos: Celso Cardoso
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* Eduardo de Araújo Teixeira é Doutor em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP (2006), é formado também em direção e roteiro cinematográfico pela ELCV. Recebeu o prêmio Rumos de Literatura 2008 e produziu ensaio sobre Marcelino Freire para o livro Protocolos Críticos do Itaú Cultural/Editora Iluminuras, do mesmo ano. Atualmente participa do pós-doutorado no PACC/UFRJ.

 

NOTAS

1 O cenário é constituído de elementos mínimos: máquinas, gavetas, luminárias, cabides, garrafas, todos compondo a cena ao serem postos no chão do palco. Há igualmente mesinhas, aparelho de tevê, rádios/vitrola, discos, amplificador de som e outros objetos deslocados para as beiras e trazidos para cena conforme a necessidade de demarcar mudanças espaciais. Apenas uma parede é utilizada na fixação de cartazes/desenhos presos com fita adesiva.

2 A movimentação dos atores, na encenação que constrói ao público o espaço do escritório (também próximo do desfecho, quando se retrata/relata a solidão de Saul a vagar desolado entre as mesas), é constituída de uma movimentação geometrizada, com gavetas e objetos barrando os caminhos, e atores se entrecruzando, chocando-se, reafirmando a idéia de labiríntico, de emparedamento, opressão, ausência de rumo, impressões construídas pela repetição dos movimentos dos atores.

3 A técnica romance-em-cena já foi utilizada por Aderbal em: A mulher carioca aos 22 Anos, de João de Minas (1994); O que diz Molero, de Dinis Machado (2004); e O púlcaro búlgaro, de Campos de Carvalho (2006).

4 “O romance-em-cena de Aderbal Freire-Filho”, Fábio Gomes. Site Jornalismo Eletrônico, 2006, Brasileirinho Produções Ltda. Disponível em:http://www.jornalismocultural.com.br/teatro/aderbal.htm

 

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MÁS ACÁ DE LA LITERATURA – Espiritualidad y moral cristiana en el diario de Rodolfo Walsh | Alberto Giordano

Cuando las repercusiones del caso Padilla comenzaban a inquietar los acuerdos que los intelectuales argentinos identificados con la revolución cubana habían mantenido hasta entonces, Rodolfo Walsh publicó una nota en el diario La Opiniónpara poner las cosas en su lugar. Como lo había hecho antes en las discusiones con los amigos, le bastaron dos o tres certeros golpes de argumentación para desarmar las falacias contrarrevolucionarias. Alguien lo felicitó por la inteligencia y el coraje de su intervención y le habló de otros varios que compartían ese sentimiento de admiración. Un poco abrumado, y un poco complacido, por la profusión de elogios que su integridad juzgaba exagerados (al fin de cuentas no había hecho más que ordenar lo que muchos querían decir), el 29 de mayo de 1971 abrió la libreta en la que llevaba su diario íntimo para registrar, y acaso también para contener, la ambigüedad afectiva de su respuesta a un malentendido que suponía peligroso: “Una de las cosas que sin duda me divierten, me halagan, y me intimidan es hasta qué punto uno puede convertirse en un monumento a sí mismo, en la conciencia moral de los demás” (Walsh 207).

Acostumbrado a sorprender la impostura de los diaristas en los momentos en que se autoprescriben humildad, a veces pienso que Walsh se confesaba intimidado por la monumentalización de su figura pública para permitirse disfrutar de los placeres narcisistas que le proporcionaba el reconocimiento, placeres que acaso identificaba con la supervivencia de una concepción individualista y burguesa de las relaciones sociales. Otras veces, la articulación de este momento confesional en el interior de las búsquedas espirituales que recorren buena parte del diario me persuade de su autenticidad. Como en toda cuestión de creencia, hay algo indeterminado que se sustrae al juego de las interpretaciones contrapuestas y que lo hace posible. De lo que sí no tengo dudas es de la fuerza con que la canonización literaria y moral a la que se sometió la figura de Walsh desde el retorno a la democracia, un proceso que comenzó bajo el signo de la reparación necesaria, inhibió la posibilidad de que se leyera su obra, la articulación entre obra y vida que proponen sus escritos personales, por fuera de la exigencia de rendir homenaje.

“Si el Che es un pin –escribió Guillermo Saccomano, Walsh para muchos puede ser una estampita” (Saccomano 9). Y las estampitas, se sabe, no reclaman lectura sino veneración. Hasta hace poco no era fácil suspender la actitud cultual y recorrer las páginas del diario que sobrevivieron al robo y la destrucción sin responder al compromiso cívico de encontrar en esas anotaciones fragmentarias un testimonio más de que el autor de Operación masacre fue un “gran escritor” tanto como un “gran militante”. (Dejo a quien corresponda el análisis de la segunda fórmula. A propósito de la primera se podría decir, parafraseando a Maurice Blanchot, que existe un inmenso desprecio por la literatura como experiencia radical en esa voluntad de “engrandecer” su práctica sometiéndola a criterios de valoración propios de los “amos de la cultura” –de la “trampa cultural”, para ponerlo en los términos que Walsh suele usar en su diario. En una entrevista reciente, David Viñas, alguien con la autoridad y el prestigio suficientes como para suponer que no sería tomado como una mera ocurrencia, declaró: “Si me apuran, digo que Walsh es mejor escritor que Borges.” ¿Tiene importancia? ¿Quién lo apura?).

Los especialistas en las narrativas de la memoria posdictatorial podrían aportarnos las precisiones necesarias, pero incluso sin disponer de un conjunto de referencias incontestables, entiendo que está en curso una nueva etapa del complejo y conflictivo proceso de revisión y apropiación del sentido ideológico de las luchas políticas que violentaron los años setenta en la que el cuestionamiento de las creencias y las prácticas de los militantes revolucionarios cobró una intensidad polémica inédita. El esperado recomienzo de los juicios a los responsables de la represión estatal, la certidumbre de que los asesinos, al menos algunos, recibirán finalmente castigo, ha contribuido, seguramente, a la ampliación de las posibilidades de examen crítico: hoy se puede discutir de una manera abierta y enérgica la actuación de las organizaciones armadas setentistas sin temor a reanimar el fantasma de la teoría de “los dos demonios” ni a ser sancionado de inmediato como un traidor a las demandas de verdad y justicia.

En el campo específico de las narrativas literarias, el texto que con más claridad representa la trama polémica de esta nueva coyuntura es la reciente A quien corresponda de Martín Caparrós, novela de una potencia literaria inversamente proporcional a su valor como documento. Además del discurso de los represores, que habla por la voz repulsiva de los que torturaron y asesinaron con una dedicación que todavía juzgan irreprochable y la del cura que los asistía espiritualmente, A quien corresponda amplifica la enunciación tortuosa de otro discurso menos obvio, el de la crítica despiadada a las ilusiones y las pretensiones de la militancia guerrillera, que habla por la voz del protagonista, un ex cuadro de Montoneros al que lo enfurecen las idealizaciones irresponsables y los usos oportunistas de ese pasado que su memoria cristaliza como un tiempo de errores políticos “tremendos”, “espantosos”.

La novela de Caparrós busca la confrontación, la reclama ruidosamente, y, como testimonian algunas reseñas, ya está cosechando sus frutos. Si puedo, de algún modo, tomarla como referencia de un estado de cosas en el que reconozco las condiciones de legitimidad de mi lectura del diario de Walsh, no es porque me identifique con las pasiones tristes que agitan al protagonista o al autor (humillación, dolor, fastidio, desprecio), sino porque comparto con ellos un interés crítico, la discusión del “modelo mesiano-guevarista” conforme al que se diseñaba en los sesenta y setenta la figura del verdadero revolucionario, esa idealización del “hombre nuevo que se sacrifica por el futuro de su pueblo, que entrega todo, que entra en la muerte satisfecho por haber podido realizar lo más excelso…” (Caparrós 85). Me interesa mostrar cómo este poderoso artefacto moral pone en funcionamiento una serie de estereotipos que actúan sobre las autofiguraciones públicas del diarista, pero también sobre la escritura de su intimidad, para reducir y homogeneizar cualquier manifestación de particularidades subjetivas anómalas, para bloquear –siempre me parece oportuno insistir con esta fórmula- el paso de la vida a través del lenguaje.

Antes que la lectura de A quien corresponda, dicho en un sentido estrictamente cronológico, hubo otras lecturas que me animaron a ordenar las notas sobre el diario de Walsh, a exponer la perplejidad que me provocan los gestos del diarista cuando siente que su integridad vacila, en la forma de este ensayo. Entre los textos reunidos en el dossier “30 años sin Walsh” que publicó el 25 de marzo de 2007 el suplemento Radar de Página/12, hay cuatro o cinco que se resisten a tratar como un monumento lo que entienden es todavía una obra, la coexistencia de movimientos heterogéneos en estado de tensión continua. Para Martín Kohan, “Rodolfo Walsh probó, como nadie, cuáles son los alcances y cuáles las limitaciones de las palabras escritas: su potencia y su impotencia” (Kohan 6), porque su obra es al mismo tiempo una búsqueda constante y una experiencia de la imposibilidad de la eficacia política, en el sentido funcional de la expresión, a través de la escritura.

Después de reconocer que nunca será “sencillo meterse con Walsh” (¿de qué otra cosa hablan estas reflexiones preliminares?), Rodrigo Fresán se permite una ocurrencia que invita a repensar el sentido de la conversión política y militar del autor de Operación masacre: “era nuestro Lawrence de Arabia” (Fresán 10). El que acepta la invitación es Saccomano, en la única intervención declaradamente polémica (comienza reclamando una lectura “contra las exaltaciones de la retórica folklórica de un secentismo melancólico”), para poder discutir el “compromiso quijotesco” de Walsh, su tragedia, que es –dice- la de haber querido hacer literatura en la vida, la de haber realizado hasta en la muerte los deseos de “tener una vida literaria” (Saccomano 11). Las alusiones a la fascinación por la épica que subyace a este compromiso novelesco tendrán, más adelante, resonancias en el comentario de algunas entradas del diario. Más evidentes resultarán, seguro, las resonancias del texto de María Moreno, “El deseo de escribir”, porque él mismo es una aproximación, me temo que insuperable, al diario de Walsh como registro, testimonio y experiencia de las tensiones afectivas que ligan al escritor con los aspectos menos instrumentales, a veces secretos, de su oficio.

Siempre, no importa cuánto uno se haya aficionado al género, la existencia de un diario íntimo que tuvo que esperar la muerte del autor para volverse público sorprende e interroga. ¿Por qué, para qué, para quién? En casos como el de Walsh, que se trate de un diario de escritor parece dar respuesta, al menos una respuesta parcial, a las incertidumbres. Esas libretas que fue llenando con el correr de los años, que se ocupó de guardar y resguardar en las mudanzas, que acaso imaginó publicar en un futuro no tan lejano, le servían como archivo de temas, argumentos y registros estilísticos; como cuaderno de ejercicios narrativos; como bitácora de los proyectos en curso y como memorial de algunos episodios significativos de la vida literaria y de la rivalidad con los pares (por tratarse de un diario inusualmente discreto, la mención en tres oportunidades a las diferencias y los desencuentros con David Viñas cobra una relevancia agonística que acaso no se corresponda con los sentimientos reales de Walsh hacia un colega tan próximo). Además, y se trata de la más literaria de las funciones que puede cumplir un diario de escritor, la que expone su ligazón esencial con los misterios del acto de escribir, las libretas servían para registrar e intentar conjurar el demonio de la imposibilidad.

“Las ideas hermosas que se me ocurren justamente cuando no puedo escribir, no vienen nunca cuando me siento como ahora a la máquina” (Walsh 106). Se escribe que no se puede escribir, se escribe para decir que no se tiene qué decir o que no se sabe cómo decirlo. A Rosa Chacel, este simulacro de escritura, este “fantasma de actividad intelectual”, como lo llamó Amiel, le provocaba vértigo y repugnancia porque se le aparecía como una trampa, en la que siempre volvía a caer, del sinsentido. Lo cierto es que, como todo lo que insiste, la continua reflexión de los escritores (justamente ellos, que dominan el oficio) sobre la dificultad, la inhibición o el fracaso al querer escribir, termina imponiendo la sospecha de que la imposibilidad de hacer lo que se sabe hacer, lo que se está dotado para hacer, envuelve algún sentido. En la intimidad del diario, Walsh se retuerce bajo la presión de un deseo tan fuerte como el temor o la certidumbre de no poder realizarlo: escribir una novela.

La dificultad de integrar toda la experiencia en la novela. El sentimiento de impotencia que esto produce. La posibilidad, casi desesperada, de empezar con todo, tirarse con todo y crear un monstruo (Walsh 107).

A veces el deseo se aliena en la obligación de responder a la demanda de los otros (la crítica, los editores, los pares) y entonces no es raro que se bloquee su cumplimiento. Pero incluso cuando las ganas vienen de más acá del teatro que montan las expectativas y la promesa de satisfacerlas, un problema técnico, la dificultad de articular una serie de episodios autónomos en el discurrir de una trama novelesca, puede convertirse en un drama (habla de impotencia, de desesperación) porque el fantasma de la imposibilidad acecha.

Para apreciar en su compleja intensidad los movimientos, muchas veces contradictorios, que la obsesión por la escritura de la novela desata en lo profundo de la conciencia de Walsh, se puede leer su diario, en el que esta obsesión ocupa bastante espacio, como el producto de un ejercicio espiritual concebido no sólo para el conocimiento, sino también para el cuidado y perfeccionamiento de sí mismo, que en ocasiones resulta exitoso y en otras se malogra. La perspectiva desde la que comienzo a situarme es la de lo que Michel Foucault, en textos muy frecuentados, llama “espiritualidad”: el conjunto de las búsquedas y prácticas “por las cuales el sujeto realiza en sí mismo las transformaciones necesarias para tener acceso a la verdad” (Foucault, La hermeneútica 33). Lo interesante de esta perspectiva es que presupone que sólo podemos acceder a la verdad de nuestros afectos, el misterio de lo que nos mueve al aceptar o rechazar, al hacer o permanecer inactivos, si antes realizamos un trabajo de depuración y mejoramiento de nosotros mismos. Que la escritura del diario pueda ser una de las formas que tome este trabajo de ascesis supone que, bajo la presión del deseo de acceder a la verdad, una entrada se convierta en otra cosa que un espejo ofrecido a la autocomplacencia: un campo para la experimentación performativa en el que el diarista pone a prueba la consistencia ética de lo que le pasa mientras ensaya transformaciones. El diagnóstico de lo que empobrece y debilita las posibilidades de vida y la prescripción del camino de perfeccionamiento suelen ser las maniobras de reconocimiento que preceden a la ejercitación o señalan su recomienzo.

Estoy cansado y derrotado, debo recuperar una cierta alegría, llegar a sentir que mi libro también sirve, romper la disociación que en todos nosotros están produciendo las ideas revolucionarias, el desgarramiento, la perplejidad entre la acción y el pensamiento, etc. (Walsh 117).

Recuperar la alegría significa recuperarse a sí mismo a través de la escritura de la novela, porque ese es para él el acto de creación más intenso. Hay que seguir escribiendo y desprenderse de la tristeza y el agotamiento que provocan la alternativa literatura burguesa (la novela)/literatura revolucionaria (el testimonio y el periodismo), un discurso que lo atraviesa y lo define pero que, en el espacio reflexivo de esta anotación, abruma por su obviedad (el “etc.” final lo presenta como cháchara). Walsh estaba muy atento a las amenazas de des-personalización que sufren los que, por hablar siempre en nombre de los demás, dejan de hablar de sí mismos, por sí mismos. Justamente por eso llevaba un diario, al que confiaba “la renovada crónica de cómo las cosas pasaron por uno” (Walsh 207). La escritura del diario como resistencia al poder, seductor e imperceptible, de los estereotipos que diseña, con trazos gruesos, la figura del revolucionario ejemplar. Toda la extraordinaria entrada del 28 de enero del 69, en la que delibera sobre la conveniencia o no de ingresar a Panorama para resolver su pobrísima situación económica, se puede leer conforme a este principio de disidencia.

Lo que está en discusión es toda mi personalidad. ¿Hasta qué punto tiendo a convertirme en un santón, a asumir los valores más respetables de la izquierda? Es posible que esto no se quiebre siquiera con mi ingreso a Panorama, aunque no faltarán algunas críticas. Lo inquietante es el nivel superficial en que manejo estas cuestiones (Walsh 126).

La escritura del diario le sirve a Walsh para interrogar la superficialidad de unos valores que sabe irresistibles pero también indiferentes al espesor de la existencia auténtica, los que hacen posible la canonización revolucionaria, y para tomar una decisión a la altura de sus intereses terrenales: va a entrar “fijo” en Panorama, aún a riesgo de confundirse entre los que están “complicados con el régimen, gozando de sus beneficios y padeciendo su pacífica vergüenza”, porque así podrá mitigar por un tiempo las estrecheces económicas. Para no renunciar a su tranquilidad renuncia a la santidad, por lo menos a una santidad homogénea e indiscutible. Pero enseguida el examen de sí mismo cambia de dirección, se orienta otra vez hacia las alturas del compromiso y la entrega totales, y el ejercicio de disidencia se interrumpe.

He resuelto –pero casi lo resolvieron los demás por mí, los demás que ven en mí una especie de héroe, que no puede mancharse- no entrar fijo en Panorama, pase lo que pase. No me voy a morir de hambre, supongo, y sin embargo, estuve tan cerca de entregarme, tan asustado (Walsh 178).

Lo más significativo de este reencauzamiento no es la identificación, apenas velada por la referencia irónica a la voluntad de los compañeros, con el estereotipo del “héroe”, más atractivo que el del “monumento” o el “santón” y que los contiene, sino el acto de constricción final, la confesión de debilidades. La orientación que domina el trabajo de vigilancia que Walsh realiza en el diario sobre lo que piensa y ocurre en su pensamiento es la de la moralidad cristiana, con sus mandatos de sacrificio y renuncia a uno mismo, sus anhelos de salvación y su respeto a la ley externa como fundamento de la espiritualidad. La escritura de la intimidad como escenario en el que se representan las luchas del alma consigo misma, contra las tentaciones mundanas (“burguesas”) que la apartan del camino recto. (En estos dramas morales, una verdad política y existencial que viene dada desde fuera define la rectitud del camino señalado: no hay que ganarse el derecho al acceso, hay que adherir.)

Walsh creyó que su conversión a la militancia revolucionaria, para ser verdadera, tenía que ser total. Como a tantos, lo guiaba el ejemplo del Che: los mejores son los más fieles y los que más se sacrifican. Según estas coordenadas hay que situar los repetidos intentos –nunca definitivamente exitosos, por suerte- de renuncia a la literatura de ficción y a la condición de escritor, para dedicarse por completo a las tareas retóricas que le demandaba la política. Muchas veces imaginó en el diario rutinas de trabajo que pudiesen garantizar la coexistencia de esas dos prácticas que los excesos de moralidad pretendían, más que contradictorias, antinómicas, pero al cabo se le volvieron insostenibles. No es que le faltase disciplina, le sobraba creencia en el valor superior del acto sacrificial. La renuncia a ser escritor tenía un alcance moderadamente costoso, era renuncia al estatus y la vanidad, a la fatuidad del mundillo literario, a las facilidades que aporta la pertenencia a un campo prestigioso, y otro de una gravedad extrema porque comprometía el deseo de experimentar con márgenes de indeterminación e incertidumbre que el trabajo periodístico o testimonial desconoce, la literatura como “zona de libertad” (Walsh 194) que se recorre con alegría pero también con temor.
Hay épocas en que la sostenida inactividad literaria persuade, a quienes idealizan su heroísmo, de que ya dejó de ser un escritor. Aunque acepta el elogio, Walsh duda, no queda claro si de la firmeza de su voluntad o de la conveniencia del abandono. Más que como alguien que dejó de escribir, las páginas del diario lo muestran como un escritor que no escribe, que no está escribiendo la novela que los otros reclaman y, lo que es peor, con la que él fantasea (si lo primero le resulta tolerable, lo segundo es una fuente inagotable de ansiedad y desasosiego). Para convencerse de que la renuncia es necesaria, y acaso con la ilusión de liberar al espíritu de la inquietud que provoca el deseo insatisfecho, dedica varias entradas al esbozo de una teoría de la novela como forma del arte burgués que carece de eficacia directa (no sirve para herir, acusar o desenmascarar), porque, a diferencia del testimonio, éste sí una forma de escritura revolucionaria, representa los hechos en lugar de presentarlos. El esquematismo podría ser un indicio de la falta de convencimiento, además de un recurso apropiado para que se realice la voluntad de depreciación.
En momentos de generosa lucidez, ya no se trata de la generosidad en la entrega sino en la aceptación y la afirmación de lo que se sustrae al juicio moral, el diarista conjetura que la inactividad prolongada no siempre tendría que ver con el imperativo de abandonar lo que distrae de las luchas revolucionarias. La pérdida de los hábitos de escritura es algo que comenzó a imponerse, que lo fue ganando, desde que decidió en 1967 encarar la novela, antes de que encontrara las razones políticas para justificar el abandono del proyecto. ¿La construcción del héroe literario que elige renunciar a la novela para “vivir la novela junto al pueblo” (Walsh 242), vendría a desplazar y encubrir las alternativas de otro drama, menos épico pero igual de comprometedor, el de la conciencia esforzándose inútilmente por rechazar lo que se desea, lo que, porque se lo desea, más acá de cualquier necesidad, la inquieta e inhibe? Es la hipótesis de María Moreno, la militancia como una resistencia a la escritura, el proyecto político como la verdadera evasión de un deseo que insiste.

Es como yo decía. Liberado internamente del compromiso de seguir trabajando en la novela (aunque sea un par de meses) vuelvo a adquirir un ritmo de actividad razonable, incluso excelente. ¿Eso quiere decir que la novela es lo difícil de decir, lo que se resiste a ser dicho? ¿Lo que me compromete a fondo? Otra variante, en la que he pensado en estos días: la novela es la última forma del arte burgués, y por eso ya no me satisface (Walsh Ese hombre, 178).

El segundo párrafo querría suprimir la apertura a lo desconocido que abrieron las preguntas por el sentido de las fuerzas que obstruyen la escritura de la novela, y garantizarle a la interrogación la estabilidad necesaria para que regrese al camino recto. Al menos para el lector -no parece ser el caso del diarista- llega tarde; el impulso reactivo que anima la reproducción del estereotipo “arte burgués” se hizo demasiado evidente. La enunciación de esas dos preguntas que reclaman la invención de respuestas singulares, respuestas que en principio sólo convendrían a la singularidad afectiva y profesional de quien las enuncia, es lo más lejos que llegó, y pudo haber llegado, Walsh en el intento de conocerse a través de la escritura del diario. Más allá de ese límite que no termina de franquear, se abre un campo de transformaciones indeterminadas. ¿Qué hubiese ocurrido sin en vez de dejar el problema en manos del sentido común ideológico (el que le dictaba que “algo tenía valor si servía para la revolución; si no era superfluo cuando no era nocivo” (Caparrós 202)), hubiese probado reformularlo convirtiéndose en otro, una clase de escritor que en principio no tendría identidad ni valor definidos? El intelectual comprometido, que estaba obligado a despreciarla por sus convicciones políticas o por el temor a perderse, no hubiese podido escribir la novela con la que fantaseaba Walsh, pero tampoco el autor de los relatos inteligentes y elegantes, el de la saga de los irlandeses, “Fotos” y “Esa mujer”. La invención de una forma novelesca supone la experimentación con modos todavía no convencionales de articular vida y escritura.

En un breve texto autobiográfico de 1966, Walsh fijó su concepción de la literatura en una fórmula que podría servir como epígrafe a esta tentativa de leer su diario en clave de ejercicio espiritual: “La literatura es, entre otras cosas, un avance laborioso a través de la propia estupidez” (Walsh 15). Una posibilidad interesante de pensar el proceso por el que el escritor atraviesa y descompone su estupidez para finalmente desprenderse de ella, es imaginarlo como una serie de maniobras que impugnan el trabajo de reducción al que los estereotipos someten lo que se manifiesta como contradictorio o ambiguo. ¿Por qué le faltaron fuerzas al Walsh de los escritos íntimos para perseverar en el examen de sus contradicciones, por qué se apuraba a “resolverlas” precipitándose por el atajo de la sanción moral? La matriz cristiana que reproducen las estupideces políticas modeladas por el estereotipo revolucionario/burgués explica, en parte, por qué alguien con una inteligencia y unos reflejos críticos tan agudos no quiso abandonar, ni a propósito de los asuntos más personales, la creencia en que todo puede ser ordenado y valorado remitiéndolo a una sola y muy elemental oposición paradigmática. El espíritu de sacrificio y obediencia necesita certidumbres sobre qué está bien (hacer, sentir, escribir) y qué no para poder sostenerse.

Hay un momento perturbador del diario en el que se aprecia detalladamente, casi en cámara lenta, cuáles son las operaciones que Walsh tiene que realizar sobre sí mismo para que la reproducción de los estereotipos no se bloquee al atravesar un núcleo contradictorio de su existencia, cómo se va haciendo a la idea de que la alternativa virtuosa es la de la renuncia. Se trata de las dos entradas sucesivas en las que procesa el malestar que sintió al saber que Raimundo Ongaro había dicho, después de leer un escrito suyo y no entender nada, “¿Escribe para los burgueses?”. Aunque igual entristece (porque el autor de Operación masacre era un compañero muy valioso en la CGT de los Argentinos que dirigió Ongaro y no costaba tanto preguntarle, sin ánimo de descalificación, por qué escribía “difícil”), la intolerancia del jefe sindical resulta previsible en una época en la que el antiintelectualismo era de rigor en el discurso de muchos intelectuales de izquierda. Lo raro es que en lugar de discutir los presupuestos falaces de la acusación -le sobraban recursos para hacerlo- o de usar el diario, como se acostumbra, para devolverle al agresor golpes imaginarios, el inculpado asiente, se mortifica. Está molesto, dice, porque sabe que Raimundo tiene razón, o puede tenerla. Mea culpa. Un poco más tarde, ese mismo día, el espíritu de análisis se sobrepone momentáneamente a la voluntad de mortificación (que es, en última instancia, voluntad de identificarse con el jefe a costa de sí mismo) y el ejercicio parece encausarse por los andariveles de la discusión crítica:

¿Pero qué es lo más específicamente burgués de lo que yo escribo, lo que más molesta a Raimundo? Creo que puede ser la condensación y el símbolo, la reserva, la anfibología, el guiño permanente al lector culto y entendido. Otra pregunta: si no es precisamente R quien usa categorías burguesas, que habla –vgr.- desde una literatura fácil, comprensible y burguesa como puede ser la de Bullrich o Sábato, que al fin y al cabo son best-sellers? (Walsh 159).

En el exabrupto del jefe escuchó un mandato: tiene que dejar de escribir como aprendió a hacerlo, tiene que olvidarse de la literatura como arte de lo indirecto en el que más que lo dicho cuenta lo elidido. La táctica que Walsh elige para resistirse consiste en devolverle al epíteto “burgués” parte del alcance conceptual que perdió desde que funciona como una herramienta de depreciación generalizada. En sintonía con el saber crítico de la época, insinúa que la valoración política de los textos literarios debería atender a la relación que éstos establecen con los códigos de legibilidad instituidos. La inteligencia del argumento agranda la sorpresa que se siente al comprobar lo efímero de su validez. No pasa más de un día y las fuerzas que empujan a la obediencia y al sacrificio se reagrupan detrás de un espectacular acto de denegación.

Creo que estoy comprendiendo por qué me resulta tan fácil ‘abandonar la literatura’. En el fondo no es ningún sacrificio. Lo que lamento es no poder continuar la farsa. Raimundo tiene razón: escribir para burgueses (Walsh 161).

En el fondo, el sacrificio era excesivo, además de estúpido, y Walsh, como se sabe, jamás abandonó la literatura; si en verdad lo quiso hacer, le resultó, más que difícil, imposible. Igual siguió creyendo que Ongaro tenía razón, por lo menos durante el tiempo que registra el diario. Esta contradicción sorprende y perturba. Contra lo que la experiencia y el saber le habían enseñado, no renunció jamás al ideal de una literatura revolucionaria escrita “para todos” y no sólo para burgueses. El proyecto lo exaltaba, seguramente, pero también le servía para continuar mortificándose, como cuando atribuía a las “canchereadas” de su estilo demasiado literario la culpa de no poder realizarlo.
Hace un par de semanas, en un documental biográfico sobre Paco Urondo, escuché a Horacio Verbitsky comentar que muchas veces le habían preguntado, y él mismo se había preguntado, cómo fue posible que militantes de una inteligencia y una calidad humana tan extraordinarias como Urondo y Walsh obedecieran hasta el final a una conducción errada y miserable como la de Montoneros, más allá de que hubiesen manifestado sus desacuerdos. Aunque algunas resonancias no le serán ajenas, Verbitsky se limitó a repetir la pregunta y, curiosamente, no ensayó respuestas. Apostó al efecto dramático más que al análisis político. La pregunta mucho menos importante que me hago en este ensayo es porqué, en esa forma de vida secreta y solitaria que es la escritura del diario, al amparo de la opinión pública, Walsh no puede desprenderse de los mandatos y las reprimendas de un jefe político, ni casi cuestionarlos, aunque humillan su existencia de escritor. Lo que “más molestaría a Raimundo”, según sus conjeturas, no es otra cosa que lo que le permitió escribir, por ejemplo, “Un oscuro día de justicia”, esa alegoría eficaz sobre la necesidad que tienen los pueblos en lucha de valerse por sí mismos y prescindir de héroes salvadores: la elipsis, la condensación, el símbolo.

Según Gonzalo Aguilar, en otro de los ensayos que facilitaron la escritura de éste, la lealtad es “la auténtica clave política” de los años sesenta y setenta, y la obediencia, la forma que adoptaba para subsistir cuando se planteaban discrepancias (Aguilar 13). ¿Habría que atribuir entonces a la coherencia política de Walsh la fuerza que conservan los principios de lealtad y obediencia en el tratamiento íntimo de sus asuntos personales? La continuidad entre la esfera de los compromisos públicos y la de los conflictos privados se explica además por la intervención de otro lugar común ideológico en el que convergen las inclinaciones personales y el espíritu de la época: la idealización de la figura del jefe, militar o político, como héroe moral. Un año antes de que las palabras de Ongaro hicieran estallar en su conciencia las sospechas sobre la condición burguesa del escritor, Walsh había anotado en el diario:

Es indudable que la figura de Ongaro me atrajo intensamente. Vi en él un revolucionario –como lo había visto en Masetti-, un jefe, alguien capaz de llegar al sacrificio por sus ideas. (Walsh 115).

En Ongaro, como antes en Jorge Masetti y el Che Guevara, y antes aún en el capitán Eduardo Estivariz, un aviador naval que murió en combate durante el derrocamiento de Perón en setiembre de 1955, Walsh reconoce la estampa fascinante del hombre poseído por una causa que está dispuesto a sacrificar, o ya sacrificó, todo por ella. Que todo sea en ocasiones, además de la propia vida y la de los subordinados, la razón política, no parece tan grave si la fidelidad y la coherencia consigo mismo del héroe resplandecen hasta el final, sobre todo en el final. Como si las luchas fueran por la redención y no por el poder, a los jefes se los conmemora por la grandeza de su sacrificio, aunque, como en el caso de Masetti y el último Guevara, hayan concebido y encabezado acciones que sólo podían fracasar.

Se entiende entonces por qué Walsh no quiso, más que no pudo, desoír el mandato de escribir “para todos”, aunque sabía que los términos en que estaba planteado eran equívocos y que para obedecerlo tenía que renunciar incluso a lo irrenunciable, su estilo. Eran palabras del jefe. Más que la descalificación (“¿Escribe para los burgueses?”), se le hacía difícil aceptar el desencuentro, público e íntimo, con la palabra de Ongaro. Tomaba una voz de orden por la voz de la verdad. Como si el jefe político, por llevar una existencia heroica, fuese también un pastor de almas. Semejante confusión hay que atribuírsela a la época, a sus mitologías políticas, y a lo que en esas mitologías servía para confirmar una visión cristiana de los conflictos humanos enraizada, seguramente, en la infancia de Walsh.

* Alberto Giordano
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Aguilar, Gonzalo. “Rodolfo Walsh, más allá de la literatura”. Punto de vista 67 (2000): 10-14.

Caparrós, Martín. A quien corresponda. Buenos Aires: Editorial Anagrama, 2008.

Chacel, Rosa. Diarios. Obra completa Volumen IX. Palencia: Fundación Jorge Guillén, 2004.

Dalmaroni, Miguel. La palabra justa. Literatura, crítica y memoria en Argentina 1960-200. Santiago de Chile: Ril-Melusina, 2004.

Foucault, Michel. Tecnologías del yo y otros textos afines. Barcelona: Editorial Paidós-Universidad Autónoma de Barcelona, 2ª. Ed., 1991.

——————–: La hermeneútica del sujeto. Curso en el Collage de France (1981-1982). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001.

Fresán, Rodrigo. “La mano del escritor”. “30 años sin Walsh”. Radar-Página/12. 25 de marzo 2007: 10

Jozami, Eduardo: Rodolfo Walsh. La palabra y la acción. Buenos Aires: Editorial Norma, 2006.

Kohan, Martín. “Cita falsa”. “30 años sin Walsh”. Radar-Página/12. 25 de marzo 2007: 6.

Link, Daniel. “Rodolfo Walsh y la crisis de la literatura”. Cómo se lee y otras intervenciones críticas.

Buenos Aires: Editorial Norma, 2003.

—————: “Prólogo a la primera edición”. Ese hombre y otros papeles personales.Rodolfo Walsh. Buenos Aires: Ediciones De La Flor, 2007.

Moreno, María. “El deseo de escribir”.“30 años sin Walsh”.Radar-Página/12. 25 de marzo 2007: 4.

Piglia, Ricardo. “Ernesto Guevara, rastros de lectura”. El último lector. Buenos Aires: Editorial Anagrama, 2005.

Saccomano, Guillermo. “La construcción del héroe”. “30 años sin Walsh”. Radar-Página/12. 25 de marzo 2007: 11.

Walsh, Rodolfo. Ese hombre y otros papeles personales. 2ª edición corregida y aumentada a cargo de Daniel Link. Buenos Aires: Ediciones De La Flor, 2007.

 

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BLOOKS na cauda longa da literatura | de Diana Damasceno

O debate sobre a substituição do livro pela internet está defasado. A discussão atual está voltada para a influência da web na produção, circulação e recepção da literatura. Essas questões adaptam-se perfeitamente ao fenômeno conhecido como “cauda longa”, explorado pela primeira vez por Chris Anderson, editor-chefe da revista “Wired”, em artigo sobre um novo universo de livros, filmes e músicas, gerado pela web, onde produtos culturais de nicho conquistam a cada dia um público maior e mais diversificado. Assim, estão na rede formas de criação, nas quais conteúdo e ferramenta de produção são indissociáveis.

A literatura, em processo de produção nesse ambiente, se apresenta através deblooks. Para quem ainda desconhece o termo, blook é um anglicismo de blog – abreviatura de weblog, termo criado em 1997, pelo norte-americano Jorn Barger, editor do “Robot Wisdom”, o primeiro blog da rede – + book – livro, em português – e possui três significados: 1 – gênero surgido na internet que se utiliza da formatação dos blogs para publicar obra literária ou artística; 2 – textos de um blog, impressos em formato de livro; 3 – gíria dos cassinos norte-americanos para a carta curinga do baralho. Assim, um possível conceito de blook seria o de um gênero intermediário entre a forma de livro e a forma de blog, que funciona como alternativa para publicação de textos. De fato, a internet se infiltrou por todo o tecido social do mundo contemporâneo, interferindo, inclusive, nas formas de pensamento e comunicação e o espaço virtual, ao que tudo indica, passou a ser um território de visibilidade.

O professor de psicologia da PUC do Rio de Janeiro, Rafael Sacchi Zaremba, acredita que a simples utilização de um teclado e da tela do computador já é suficiente para criar um novo estatuto na escrita, diferente da escrita à mão. “A ‘escrita digital’ parece trazer para a escrita o caráter coloquial e a falta de compromisso característicos da fala. Seja na internet ou fora dela, o computador vem aproximando a lógica da escrita à da fala e, com isso, fazendo com que escrever se torne mais fácil e prazeroso do que costumava ser quando éramos obrigados a raciocinar com caneta e papel”, afirma Zaremba. Talvez por isso, a sensação de que o número de escritores aumentou nos últimos anos, com a multiplicação dos blooks.

A editora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda pesquisou a literatura existente nos blogs e concluiu que há textos muito bons, ainda não impressos, na web. Por isso, organizou, em 2007, no Rio e em São Paulo, a exposição “Blooks – Tribos & Letras na Rede”, com curadoria de conteúdo de dois jovens poetas: Bruna Bebber e Omar Salomão. A mostra através de poesia, prosa, letras de música, quadrinhos e games traz a intromissão do computador e da internet na leitura e na escrita e, consequentemente, a profusão de criações literárias deste novo século. Para Bruna, o primeiro passo foi fazer um grande entulho de informação e depois ler um por um e agrupar. “Começa na ‘primeira geração’ de blogueiros, passa pelos que estão chegando agora, blogs novos, mesmo. Têm também escritores que migraram pra internet depois de já terem livros publicados, como Antonio Cícero; há os polêmicos, os anônimos, e ilustres blogs desconhecidos. A intenção era dar autonomia aos leitores/visitantes pra decidirem o que preferem. Eles decidem o que é bom, a gente só organizou uma programação variada. Censura não combina com internet”, conclui.

O escritor Flávio Izhak, selecionado para a mostra, sinaliza a eficiência da rede para a visibilidade de seus textos: “Eu publico contos na internet há seis anos. Há quatro criei meu blog, ‘Bohemias’, onde passei a publicar meu material com maior frequência. No início, eu postava qualquer conto que tinha guardado – e alguns que ia escrevendo – para mostrar meu trabalho. Eram textos em copião, rascunhos de histórias, fragmentos de alguma coisa: mais inspiração que transpiração. De algum jeito, o blog começou a ser lido e se tornou um passaporte para que eu conhecesse outros leitores e escritores. Quando comecei o blog não conhecia nenhum escritor pessoalmente. Foi por meio da internet que criei uma rede de leitores e amigos escritores”.

Em 2004, Flávio organizou com o jornalista Marcelo Moutinho, a coletânea “Prosas cariocas” (Casa da Palavra), misturando autores que naquele momento ainda tinham um ou dois livros com outros bem jovens, que conheciam apenas por seus blogs. Naquele mesmo ano, Flávio Izhak também teve um conto publicado no livro “Paralelos” (Agir), produto das muitas possibilidades de integração entre digital e impresso. Todos os autores participantes, sem exceção, conquistaram seus primeiros leitores na web, no portal literário que deu nome à coletânea que, além de apresentar escritores inéditos, criou uma rede de discussão sobre a literatura, reunindo autores de todo o Brasil e se transformou em ponto de encontro de gente que debate e, principalmente, escreve literatura hoje.

A escritora e jornalista Ronize Aline, componente desse grupo, venceu um dos concursos digitais de literatura: “Ter meu conto ‘A senhora da primeira fila’ entre os três vencedores do concurso promovido pelos sites ‘Paralelos’ e ‘Portal Literal’ representou a concretização da possibilidade de encontros. A partir da sua publicação nos dois sites, que são referência em termos de literatura, passei a encontrar e a ser encontrada, real e virtualmente, por outros escritores (alguns novos, outros nem tanto) que vinham comentar meu texto. Isso abriu as portas para que eu passasse a colaborar com o ‘Paralelos’, tendo outros contos publicados e, inclusive, sido chamada para editar um especial do site”. Só no Google, podemos encontrar hoje algo em torno de 1090 sites de poesia e 3200 sites de romance, dos autores consagrados aos iniciantes, mas o livro impresso parece ser ainda o objetivo dos escritores.

“Literatura na internet é apenas um novo suporte para a publicação de texto. Até porque o que mais se costuma encontrar são textos de escritores, construídos com o intuito de serem publicados em papel, mas que ainda não conseguiram editora e utilizam a internet para torná-los conhecidos ou submetê-los à crítica pública antes de submetê-lo ao crivo dos editores”, diz Ronize Aline.

Apesar disso, com as ferramentas da rede, é inegável que já existem debates, com alguma discordância, sobre as transformações na produção escrita, a possibilidade de surgimento de novas linguagens, a revisão da noção clássica de autoria e os novos relacionamentos interativos, como é o caso da relação escritor-texto-leitor. Iniciativas como a da editora inglesa Penguin Books, que criou o blog “A million penguins”, onde cada usuário cadastrado podia escrever um capítulo ou trecho dele, e reescrever partes criadas por outros usuários, gerando histórias completamente criadas pelos internautas, são exemplos claros dessas novas tendências.

Na web, todos podem escrever. A coordenadora da Central de Educação a Distância da Puc-Rio, Maria Apparecida Campos Mamede-Neves, acredita que esse tipo de experiência está ligado à idéia da rede enquanto um universo simbólico atraente: “A representação da internet fica atrelada a uma vivência de satisfação pela qual se lhe outorga a condição de agradabilidade. Assim, escrever em blogspode partir de um princípio bastante distinto daquele de produzir literatura de fato”.

Para muitos autores, a internet, pelo menos por enquanto, ainda não construiu uma linguagem literária diferenciada e tem uma função bastante objetiva. É o que pensa Cecília Gianetti, autora de “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (Ediouro/Agir) e editora do Portal Literal. “Não existe uma linguagem de literatura de Internet. Ficções curtas em posts podem ser publicadas em papel, sem qualquer prejuízo em relação ao original. E continuará não existindo a tal da literatura de blog. Não faço literatura digital. Não existe a literatura on-line como gênero. Não existirá até que surjam histórias na web impossíveis de serem contadas no suporte livro – sob o risco de, impressas, virarem outra coisa que não é absolutamente o que se propunham ser na Internet. Aí, caso se reconheça e popularize essa ocorrência extraordinária de literatura intransponível para o papel, valerá debater o surgimento de um novo nicho”.

Se são grandes as dúvidas sobre o estatuto dos textos digitais, elas ficam ainda maiores quando se trata da visibilidade dos autores digitais para os editores tradicionais. Antonio Carlos de Mello teve seu romance “Madame Flaubert” ainda em versão on-line, (http://mmeflaubert,notlong.com), resenhado, com ótima crítica, há alguns meses, em jornal de grande circulação, até hoje, não conseguiu publicação. “Acredito apenas que meu romance não despertou interesse dos editores que dele tomaram conhecimento através da resenha. Embora seja uma homenagem e uma atualização crítica do ‘Madame Bovary’. Embora estejamos no ano em que o romance de Flaubert completa seu 150º aniversário. Embora a resenha tenha elogiado o romance. Embora um autor e crítico como Gustavo Bernardo (um dos poucos autores – se não o único – a ser um dos finalistas do Prêmio Jabuti em quatro categorias diferentes) tenha classificado ‘Madame Flaubert’ como uma obra-prima. Embora eu tenha um blog com quase 200 mil visitantes, aproximadamente mil visitas/dia”, diz Mello.

Beatriz Resende, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e crítica literária, discorda. Ela acredita que “a internet dá sim visibilidade e os editores a estão usando para caçar talentos. Os blogueiros já estão prestando atenção a isso”. Em meio ao debate, real e virtual, que acontece em torno da literatura na rede, uma possibilidade concreta: a “cauda longa” da literatura hoje pode estar nas listas dos mais vendidos de amanhã, uma vez que já há algum tempo fala-se sobre o setor quaternário da economia, aquele que engloba os produtos de maior criatividade e densidade intelectual. Não seria esse o sonho de todo escritor?

 

* Diana Damasceno é jornalista, crítica literária, professora nas Universidades Cândido Mendes e Veiga de Almeida, e pesquisadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea/UFRJ.

 

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Impactos da tecnologia na telenovela: inovações e impasses | de Cláudio Felicio Pífano Silva

Ao criarem em meados dos anos 40 o conceito de Indústria Cultural, Adorno e Horkheimer lançaram um olhar crítico sobre a conjunção entre arte e tecnologia. Ambos apontaram como a produção de bens culturais está impregnada de uma racionalidade técnica, que obedece aos mesmos esquemas rígidos da produção industrial, sustentada pela tríade serialização-padronização-divisão do trabalho, cujo produto final oferecido como novidade seria, na verdade, apenas a mudança de indumentária de um sempre semelhante (ADORNO, 1986).

Essa falta de espaço para a invenção que emerge do pensamento de Adorno e Horkheimer sobre a Indústria Cultural é posta em xeque por Edgard Morin. Segundo o teórico francês, em meio a estruturas rígidas de produção deve haver certa liberdade criativa que garanta a continuidade da própria indústria, uma vez que todo padrão tem de ser aperfeiçoado pela originalidade para manter ou alcançar novos públicos consumidores (MORIN, 1987).

Assim, linhas rígidas – que tendem à reprodução, a uma identidade, à estabilização e reforçam o que já vem pronto – coexistem com linhas de invenção que trazem o novo, o estranho, algo que escapa (DELEUZE, 1998). Ou, como defende Umberto Eco em A inovação do seriado, até mesmo de produtos seriais pode surgir algo novo. Esquemas e autores que os utilizam é algo que acontecia já na Antiguidade Clássica. As tragédias gregas seguiam um esquema fixo, variando-o (ECO, 1989).
Frente a essas visões sobre a contradição invenção-padronização intrínseca à cultura de massa, torna-se claro que pensar como se dá a inovação na Indústria Cultural coloca-nos diante de uma rica gama de processos a serem analisados. Mas qualquer abordagem que pretenda trazer um olhar substancial sobre o tema exige um recorte em meio à abrangência de conexões possíveis. Desta forma, o presente ensaio concentra-se em discutir a inovação sob o viés da tecnologia na telenovela brasileira. A motivação para esta escolha está no fato de que a telenovela possui uma estrutura aberta, isto é, ela é escrita à medida que vai ao ar, levando-se em consideração a resposta da audiência. Tal modo de produção torna o gênero permeável a marcas da contemporaneidade que vão desde expressões artísticas e comportamentais até inovações tecnológicas.

Interessa-nos aqui verificar como a telenovela absorve as novas condições técnicas e como o impacto dessa absorção traduz-se em inovações para o gênero. Para que este objetivo seja concretizado, o ensaio está divido em três impactos distintos. O primeiro diz respeito às repercussões dos avanços tecnológicos da TV na evolução do principal produto da ficção televisiva brasileira. O segundo está relacionado à incorporação da tecnologia pelas tramas. O terceiro trata das inovações da novela advindas do surgimento da internet.

Inovações no Meio – Inovações no Produto

De acordo com a visão dos teóricos da Ecologia da Mídia, a inserção de uma nova tecnologia em um ambiente provoca sempre alterações estruturais importantes nos interesses, nos símbolos, na natureza da comunidade. Partindo desse princípio, é possível pensar que os próprios meios tecnológicos não estão imunes a mudanças em suas estruturas com o surgimento de um novo aparato técnico. Desta forma, se a América após a TV é outra América (POSTMAN, 1992), a televisão também é outra com o advento do videoteipe, por exemplo.

Indo um pouco mais além nesse raciocínio, se considerarmos que o meio é a mensagem (McLUHAN, 2005), torna-se possível também inferir que os produtos culturais produzidos por qualquer meio são diretamente afetados pela transformação tecnológica do próprio meio. Tal hipótese é passível de verificação ao examinarmos a história da telenovela brasileira. Graças ao advento do videoteipe, a novela teve a sua primeira grande inovação. As histórias, antes levadas ao ar ao vivo duas ou três vezes por semana, passaram a ser diárias a partir de 1963.

Dez anos depois, o início das transmissões em cores provocou outra revolução na telenovela. Se antes as histórias contadas em preto e branco já causavam sensação, a chegada das cores com a novela O bem amado de Dias Gomes em janeiro de 1973 marcou o início de uma era de ouro na teledramaturgia (ALENCAR, 2002). Nos bastidores, o uso da cor obrigou a adoção de novos parâmetros para a maquiagem, cenografia, figurinos, iluminação e fotografia, a fim de que a qualidade da imagem não fosse comprometida.

O desenvolvimento de equipamentos de última geração ao longo desses 45 anos foi outro fator que contribuiu decisivamente para evolução da novela diária. Afinal, tal aparato técnico tornou possível a realização de cenas cada vez mais complexas imaginadas pelos roteiristas. Além disso, na pós-produção, o computador tornou-se um precioso aliado nas reconstituições de época e na criação de efeitos especiais. Assim, a segunda versão de Mulheres de areia, por exemplo, teve muito mais realismo nas cenas entre as gêmeas vividas pela atriz Glória Pires do que a primeira versão que havia ido ao ar 20 anos antes. O remake contou com o recurso do cromakey, técnica de efeito visual que consiste em colocar uma imagem sobre uma outra através do anulamento de uma cor padrão.

mulheres de areia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Já na versão de 1973, quando as gêmeas tinham que contracenar, o diretor gravava com o primeiro lado da câmera tampado e, depois, gravava com o outro lado. Ou seja, um processo muito mais trabalhoso, que resultava numa imagem rudimentar bem distante da qualidade das imagens das telenovelas atuais, que, desde outubro de 2007, são exibidas em alta definição (High Definition Television). A HDTV é transmitida digitalmente e por isso sua implementação geralmente coincide com a introdução da televisão digital.

Ainda é cedo para avaliar o impacto que essas duas novas tecnologias vão causar na telenovela, uma vez que pouquíssimas pessoas têm acesso à HDTV e à TV Digital. Mas já há discussões sobre novos parâmetros para as imagens e também sobre outras formas de ver a novela, pois a TV Digital permite que as tramas sejam captadas e acompanhadas em outros dispositivos, além do aparelho de televisão tradicional.

Inovações tecnológicas – Inovações na trama

Em Dos meios às mediações – Comunicação, cultura e hegemonia, Jesus Martín-Barbero (2001) valendo-se do conceito de hegemonia expresso por Gramsci, mostra o processo de constituição do massivo a partir da cultura popular. Ao investigar a presença do povo na massa, o autor apresenta o melodrama como uma matriz cultural responsável pela mediação entre o folclore das feiras e o espetáculo popular urbano, quer dizer, massivo. Mediação que, no plano das narrativas, tomará primeiramente o formato industrial de folhetim e, depois, passará ao cinema, ao radioteatro e à telenovela. Logo, do cinema ao radioteatro, uma história dos modos de narrar e da encenação da cultura de massas é, em grande parte, uma história do melodrama (MARTÍN-BARBERO, 2001).

Ao identificar na cultura de massa a presença do melodrama, o trabalho do pesquisador espanhol radicado na Colômbia traz para esta discussão um aparato conceitual muito importante, uma vez que mostra quanto a telenovela guarda dos elementos das narrativas populares, tais como: a oralidade, o contar a, a surpresa e a repetição (MARTÍN-BARBERO, 2001).

Assim, os personagens arquetípicos do melodrama (o traidor, o justiceiro, a vítima e o bobo) reaparecem atualizados, revivendo velhas histórias.

E sempre, no produto novo, os antigos temas: gêmeos, trocas, usurpações de fortuna ou identidade, enfim, tudo que fomos encontrando nesta longa trajetória dos modos de narrar se haverá de reencontrar nas mais atuais, modernas e nacionalizadas telenovelas. Até sua distribuição em horários diversos, correspondendo a modalidades folhetinescas diferentes: aventura, comicidade, seriedade, realismo. Sempre de modo a satisfazer o patrocinador. (MEYER, 1996, p. 387).

Além desses temas, a telenovela herdou do folhetim a organização em capítulos e a estrutura aberta. Esta dota a narrativa de uma permeabilidade ao atual, possibilitando que a tecnicidade – termo que Martín-Barbero utiliza para designar todo um conjunto sistêmico de saberes técnicos já incrustados na estrutura do conhecimento e da vida cotidiana – ganhe visibilidade nas tramas com toda sua gama de atualizações. Assim, assuntos do momento e inovações tecnológicas de todas as ordens são inseridos na trama como elemento ativo de uma determinada intriga ou até mesmo passam a ser o tema sobre o qual gira a história.

Desta forma, o drama da paternidade perdida que era o cerne da trama de O direito de nascer de Félix Caignet (1965), atualmente é resolvido com um teste de DNA, cujos resultados podem ser folhetinescamente alterados, gerando novos conflitos. A chantagem feita com o material sonoro gravado em fitas K7 na novela Vale tudo (1988) de Gilberto Braga reaparece em Celebridade (2003) do mesmo autor. Mas, desta vez, a vítima do chantagista tem que ceder às pressões, porque seu algoz possui imagens comprometedoras captadas por câmeras de vigilância.
Quatro anos depois, em Paraíso tropical, também de Braga, o vilão vale-se de processos digitais para alterar uma conversa telefônica do herói e, desta forma, consegue separá-lo da mocinha. Já em A favorita (2008) de João Emanuel Carneiro, antes de sabermos quem era a boa e quem era má, Donatela (Cláudia Raia) monitora os passos de Flora (Patrícia Pillar) com o auxílio de um chip e de uma microcâmera. (Inserir vídeo de Paraíso tropical. Legenda:Gravações originais selam acordo entre vilões.)
Além de aparecer como instrumento complicador ou de resolução em diversos momentos da narrativa, a tecnologia pode aparecer como temática principal de uma telenovela, por meio de discussões acerca de como a vida das pessoas pode ser alterada pelo surgimento de novas possibilidades técnicas. A autora Glória Perez fez de barrigas de aluguel, transplantes, clonagem e encontros amorosos via internet temas centrais de algumas de suas novelas e, em boa parte delas, colocou como contraponto o impacto de tais inovações em culturas muito tradicionais como a cigana e a muçulmana.

Se na obra do escritor americano Mark Twain encontramos uma idéia da interação entre tecnocracia e os valores do Velho Mundo no século XIX (POSTMAN, 1994), na obra de Glória, podemos verificar a tensão inquieta existente entre a visão de mundo tecnológica e a tradicional. As tramas nascem justamente desse choque e refletem questionamentos contemporâneos sobre como ficam as velhas emoções em um admirável mundo novo. (Inserir vídeo O Clone Teaser 1. Legenda: Teaser de “O clone” traz idéia de tradição x avanços da ciência).

Advento da internet – Inovações nas telenovelas

Durante a década de 70, as novelas da Rede Globo de Televisão eram campeãs absolutas de audiência. Algumas tramas como Selva de pedra (1972) e O astro (1977), ambas de Janete Clair, conseguiram atingir a marca de 100% de aparelhos ligados. Trinta anos depois, uma novela de sucesso, de acordo com o Ibope, é aquela que consegue uma média entre 45 e 50 pontos ao longo de oito meses de exibição, com picos de 60 em seus momentos de clímax.

Os estudiosos e autores de telenovela apontam várias razões para esta queda, entre elas o desenvolvimento técnico e qualitativo de outros tipos de programa; a entrada no mercado das TVs a cabo com outras formas de atração e o surgimento da internet que possibilita uma nova maneira de fruição da novela como observou o autor Sílvio de Abreu na palestra de abertura do seminário “Eu vejo novela”: “Por que vou ficar em casa pra ver o último capítulo se posso vê-lo amanhã no site da Globo ou no You Tube?” (ABREU, 2008).

De fato, as pessoas hoje assistem, escutam, incorporam, vivenciam, enfim, reelaboram a telenovela de uma outra forma, mesmo nas classes populares, na qual o acesso à internet ainda é deficitário. A dimensão do fetiche ligado à técnica materializa-se não mais na tela da TV, como mostrava a leitura social feita por Ondina Leal sobre a novela das oito Sol de verão (1982). Transferiu-se para a tela do computador. Nela, sucessos do presente convivem com hits do passado, cujas tramas continuam consagradas. As narrações são assim libertadas de sua submissão ao progresso e possibilitam novas formas de relação com o passado, ou melhor, com os diversos passados de que estamos feitos (MARTÍN-BARBERO, 2000).

Não é difícil constatar o tamanho do culto. No You Tube, personagens como Odete Roitman, Maria de Fátima e Heleninha da novela Vale tudo e as antagonistas Júlia Matos e Yolanda Pratini da novela Dancin’ days (1978) sobrevivem em inúmeros vídeos. Os trechos das cenas voltam à tona graças à dedicação dos fãs das novelas, que digitalizam velhas fitas caseiras e organizam os vídeos em canais virtuais como o Mofo TV. Isso sem falar nas inúmeras comunidades do Orkut dedicadas a novelas antigas e atuais, bem como a personagens marcantes em tramas de ontem e de hoje (LEITÃO, 2008, p.15). (Inserir Dancin Days. Legenda: Cena final de Dancin’ days é objeto de culto na internet).

Mas não é apenas como culto que a telenovela vem procurando sobreviver à massificação da internet. Outra forma é por meio de hibridismos artísticos e midiáticos, incorporando, por exemplo, em suas tramas elementos de reality shows como o Big brother – formato originado pelas webcams e primeiro produto midiático global a mesclar TV, internet e telefonia. Essa incorporação de características dos reality shows vem tornando a fronteira entre realidade e ficção, entre linguagem jornalística/documental e linguagem dramática mais tênue na telenovela. Elementos da realidade têm sido cada vez mais misturados às tramas, com a inserção inclusive de cenas reais. Em 2003, por exemplo, a novela Mulheres apaixonadas exibiu como parte da história cenas de uma passeata pela paz que realmente ocorreu no Rio de Janeiro.

Em 2002, na novela O clone, depoimentos de dependentes químicos eram inseridos após as cenas da personagem Mel (Débora Falabella) que enfrentava o mesmo problema na ficção. Em Celebridade, artistas consagrados faziam apresentações nas casas de shows da trama e eram agenciados pelas produtoras rivais Maria Clara Diniz (Malu Mader) e Laura Prudente da Costa (Claudia Abreu). Finalmente, em Páginas da vida de 2006, os capítulos eram encerrados com depoimentos de pessoas comuns que tinham alguma vivência relacionada aos principais assuntos da trama: AIDS, alcoolismo e síndrome de Down. (Inserir Depoimento de Páginas da Vida. Legenda: Depoimento de idosa sobre primeiro orgasmo causa polêmica em “Páginas da vida”).

Considerações finais

Ao fim desse breve exame de como a telenovela absorve as novas condições técnicas e também de como o impacto dessa absorção traduz-se em inovações para o gênero, é inevitável não fazer uma referência à história de Thamus – rei de uma cidade do alto Egito – e de seu encontro com o deus Theuth – suposto inventor da escrita. Ao apresentar a sua invenção ao faraó Thamus, Theuth deixou o monarca temeroso ante a possibilidade de que o novo dispositivo tecnológico pudesse fazer com que as pessoas não fossem mais obrigadas a treinar a memória. Segundo o rei, elas passariam a se lembrar das coisas não por causa de um esforço interno, mas por mera virtude de um dispositivo externo.

O que se depreende dessa lenda, relembrada por Neil Postman no livro Tecnopólio A rendição da cultura à tecnologia, é que toda tecnologia pode se configurar sob dois aspectos: pode ser lida e interpretada tanto como um fardo ou como uma benção; não como uma coisa ou outra, mas sim isto e aquilo (POSTMAN, 1994). Essa moeda tecnológica de dupla face tem o mesmo valor quando se pensa sobre as alterações sofridas pela telenovela em função da incorporação de novos dispositivos técnicos, seja em seus meios de transmissão, seja em suas tramas. Afinal, tais recursos tecnológicos geram para esse produto cultural aspectos positivos e negativos, contribuem para a evolução do gênero, mas também trazem impasses.

Ao pensarmos sobre as relações entre os avanços tecnológicos da TV e os avanços do gênero, é patente que recursos como o videoteipe, a cor, câmeras e ilhas de edição de última geração tornaram a novela um produto cultural muito mais atrativo. Em contrapartida, as recentes HDTV e a TV digital mergulham as tramas televisivas diárias numa nova fase de incertezas quanto ao futuro, exigindo de todos os envolvidos na produção uma readaptação frente a novas formas de fruição da obra.

Passando desse aspecto para o exame do papel da tecnologia nas tramas, é possível constatar que a própria técnica fornece o antídoto para a rigidez dos roteiros esquemáticos impostos pelo modo de produção da Indústria Cultural. Assim, os roteiristas extraem das tecnologias mais recentes novas possibilidades criativas para tratar de temas-padrão que vêm desde o folhetim, tais como: gêmeos trocados, chantagens, usurpações de fortuna e identidade etc. Além disso, a técnica também pode aparecer como mola propulsora do conflito amoroso, já que muitas vezes é o pomo da discórdia de um casal no qual um ama o passado e o outro vê que o novo sempre vem. Ao colocar a tecnologia no epicentro da discussão, a telenovela às vezes corrobora, mas também pode seguir um caminho contrário do que prega o tecnopólio. Nas tramas, nem sempre a inovação tecnológica caminha junto com o progresso humano (POSTMAN, 1994).

Por fim, ao avaliarmos as inovações da novela advindas do surgimento da internet, são visíveis as tentativas do gênero para sobreviver à massificação do novo meio. “Se não há como vencer o inimigo, junte-se a ele” é um ditado que traduz os movimentos da teledramaturgia para continuar existindo. Um desses movimentos é o valor de culto adquirido por antigas produções disponibilizadas na rede mundial de computadores. Tal aspecto remete novamente a McLuhan, quando o teórico afirmava que uma nova tecnologia de comunicação transforma a anterior numa forma de arte (2005). Se a televisão consagrou o cinema como manifestação artística, a internet vem, em alguns casos, fazendo o mesmo com o principal bem cultural televisivo.

Outros esforços de sobrevivência do gênero são: a adoção de procedimentos dos reality shows e ainda a criação de sites para novelas específicas com as cenas disponibilizadas, o que gera outras formas de envolvimento com a trama. Em função dessas novas formas de fruição, a tal queda na audiência é mensurável, mas questionável. Uma solução para isso talvez seja a adoção de modos alternativos para a medição da audiência, que não levem em conta apenas a presença em frente ao aparelho de TV.

O resultado desses movimentos só o tempo dirá. O que hoje parece negativo poderá se transformar em algo positivo, ou seja, numa contribuição para o avanço do gênero. A única coisa certa é que haverá o desenvolvimento de habilidades que poderão responder à nova configuração do ambiente sempre imposta pelo surgimento de toda e qualquer tecnologia. Afinal, há na técnica novos modos de perceber, ver, ouvir, ler, aprender novas linguagens, novas formas de expressão, de textualidade e escritura. Isto porque, como bem avançou Heidegger a partir do pensamento de Husserls, a técnica tem a ver com a essência do ser humano, com sua capacidade de inventar, de fazer existir o que não existia.

Cláudio Felicio Pifano Silva é mestrando em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Jornalista com graduação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, cursou a Oficina de Roteiristas da Rede Globo de Televisão, ministrada por Flávio de Campos. Em 2005, recebeu Menção Honrosa no concurso de novos autores de novela promovido pela Rede Record de Televisão. Atualmente, é roteirista do Estúdio F, programa da Rádio Nacional do Rio de Janeiro dedicado a compositores e intérpretes brasileiros.
Referências Bibliográficas

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DELEUZE, Gilles & PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.
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LEAL, Ondina. A leitura social da novela das oito. Petrópolis: Vozes, 1986.
FERNANDES, Ismael. Memória da telenovela brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1994.
HAMBURGER, Esther. Brasil antenado: A sociedade da novela. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
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MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2005.
MATTELART, Armand & MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1999. MORIN, Edgar. Cultura de massa no século XX. Vol. 1. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
MEYER, Marlyse. Folhetim: Uma história. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
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XAVIER, Nilson. Teledramaturgia. Disponível: . Acesso em: 3 dez. 2008.

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Tempo de leitura estimado: 35 minutos

Memória e a construção audiovisual da realidade: Uma análise do documentário Nós e os outros – uma sociedade plural | de Gabriela Borges

* Dados da autora

Memória e a construção audiovisual da realidade: Uma análise do documentário Nós e os outros – uma sociedade plural

Este trabalho discute o episódio Nós e os outros: uma sociedade plural da série documental Portugal, um retrato social. A análise é proposta sob duas perspectivas. Por um lado, discute o papel desempenhado pelo serviço público de televisão ao produzir esta série que aborda a sociedade portuguesa contemporânea. E, por outro lado, analisa o quarto episódio intitulado “Nós e os outros – uma sociedade plural”, que trata das mudanças que ocorreram no país com a entrada de imigrantes estrangeiros nos últimos anos. Este trabalho insere-se no pós-doutoramento sobre a qualidade na televisão, realizado no CIAC da Universidade do Algarve (Portugal) com financiamento da FCT/MCTES, e analisa tanto a produção de conteúdos de qualidade que têm como referência a realidade, quanto a contribuição da televisão pública para a discussão sobre as relações entre a história e a memória recente do país. Problematiza ainda a contribuição de obras audiovisuais como Portugal, um retrato social no atual processo de inscrição pelo qual a sociedade portuguesa atravessa a partir da obra Portugal, hoje. O medo de existir.

Serviço público de televisão português

Desde os anos 1990 o serviço público de televisão português tem passado por vários revezes, como os seus congêneres europeus. A abertura do mercado e a concessão de licenças de funcionamento aos canais privados, no início da década de 1990, reconfigurou o mercado audiovisual e pressionou a discussão a respeito do papel e das funções a serem desempenhadas pelo serviço público de radiodifusão e de televisão. Neste período, o governo e a sociedade civil estiveram envolvidos em diálogos a fim de regular o serviço de radiodifusão e de televisão, em especial, o serviço público. A Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) encontrava-se em crise, com enormes dívidas agravadas principalmente pela abolição da taxa de licença paga pelos cidadãos em 1991 e pela redução da emissão de publicidade devido às pressões exercidas pelos dois canais privados, SIC e TVI, cujas licenças foram concedidas respectivamente em 1992 e 1993. O déficit financeiro da RTP cresceu de cerca de 50 milhões em 1995 para 200 milhões em 2001, enquanto os canais privados aumentaram consideravelmente os seus lucros.

Em 1995 o governo socialista criou uma Comissão de Reflexão sobre o Futuro da Televisão, cujas sugestões dos especialistas foram aceites, mas não foram implementadas, levando com isso ao agravamento do cenário. Porém, tanto o governo quanto a sociedade civil têm conhecimento da importância da regulação do papel a ser desempenhado pelo serviço público de televisão.

Nas questões levantadas durante a Conferência Internacional sobre Televisão, realizada no ISCTE em 1997, o então Secretário de Estado Arons de Carvalho (apud SOARES, 1997:14) enfatizou que o grande desafio do serviço público era conseguir conjugar o máximo de audiências e de qualidade com o mínimo de custos, garantindo a diversidade e a qualidade da programação, além da independência em relação ao poder público e aos interesses privados.

Em dezembro de 2002, o governo social democrata apresentou as suas propostas no documento intitulado “Novas Opções para o Audiovisual”1. Este documento salientou a crise de identidade do setor em relação à estratégia, à organização e à integridade, principalmente devido ao não cumprimento das obrigações de serviço público, à perda das audiências, aos altos custos de produção e de recursos humanos e à má gestão dos fundos públicos. As novas estratégias delineadas para a reestruturação do serviço público de rádio e televisão enfatizavam a defesa e a garantia da identidade nacional e a complementaridade dos princípios básicos do serviço público (educar, informar e divertir) em todos os gêneros da programação, promovendo assim a diversidade e a inovação.

Em 2003 foi aprovada a Lei da Televisão, em que o segundo canal do serviço público passou a ter uma concessão especial cujo objetivo era a sua entrega a algumas entidades da sociedade civil no período de oito anos. Com a mudança do governo e a volta do Partido Socialista ao poder, a lei foi revista e, em 2007, foi aprovada uma nova Lei da Televisão que se encontra atualmente em vigor. Este panorama dos percursos e dos percalços, pelos quais o serviço público de televisão tem atravessado nos últimos anos, é importante de ser mencionado porque, de certa maneira, explica a dificuldade em implementar a produção e a transmissão sistemática de conteúdos de qualidade. A cada novo governo mudam-se as leis, mudam-se as regras e a produção audiovisual, como seria de se esperar, sofre com isso.

Entretanto, nem que seja em termos retóricos, as leis e os contratos de concessão de serviço público têm enfatizado a importância do incentivo à produção de conteúdos audiovisuais de caráter nacional, e também de língua portuguesa, especialmente de documentários, de obras de animação e de ficção. O artigo 48.º da Lei da Televisão de 2007 2 incumbe o Estado de assegurar a existência de medidas de incentivo à produção audiovisual de ficção, documentário e animação de criação original em língua portuguesa. No artigo 53.º consta que o serviço de programas generalista nacional, isto é, o canal RTP1, deve ser dirigido ao grande público e

atender às realidades territoriais e aos diferentes grupos constitutivos da sociedade portuguesa, concedendo especial relevo: a) À informação, designadamente através da difusão de debates, entrevistas, reportagens e documentários; b) Ao entretenimento de qualidade e de expressão originária portuguesa; c) À transmissão de programas de carácter cultural; d) À sensibilização dos telespectadores para os seus direitos e deveres enquanto cidadãos.

A cláusula 9.ª do Contrato de Concessão de Serviço Público de 25 de março de 2008, relativa ao primeiro serviço de programas generalista de âmbito nacional, refere que o serviço público generalista deve, pelo menos, incluir espaços regulares de difusão de documentários originais, focando a realidade social, histórica, cultural, ambiental, científica ou artística portuguesa.

A fim de incentivar e patrocinar a produção de documentários, a RTP e o ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual, antigo ICAM – Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimedia) firmaram um protocolo que abrange o apoio financeiro à produção, difusão, promoção e divulgação de obras cinematográficas assim como a disponibilização de imagens do arguivo pela RTP. Sendo assim, a RTP apoia a produção cinematográfica nacional, nos seus vários formatos e gêneros, designadamente longas-metragens, curtas-metragens, ficção, documentários e animação.

Porém, a relação entre a RTP2 e os documentaristas tem sido bastante conturbada. Num comentário ao número 5 da revista Docs.pt dedicada ao tema da relação entre o documentário e televisão, Leonor Areal enfatiza que a RTP não tem exibido os documentários que ela própria patrocina ao abrigo do protocolo com o ICA.

(…) são filmes financiados oficialmente, mas a RTP recusa-se a emiti-los e a devolvê-los à sociedade de onde provêm, que reflectem e a quem se dirigem, impossibilitando o seu escrutínio público, a existência de crítica, de discussão e de vozes diversas no espaço público de televisão (nem que fosse tarde e a más horas!).

A documentarista ressalta que pode-se confirmar, na entrevista com o diretor da RTP2 para a referida revista, o que os documentaristas vêm chamando a atenção há alguns anos. A RTP não tem interesse em exibir os documentários produzidos ao abrigo deste protocolo simplesmente porque, na opinião do diretor, eles não condizem com a programação oferecida pelo canal. Reproduzo parte do texto de Leonor Areal em que enfatiza a opinião de Wemans: “Sendo mais claro, eu acho que há documentários de autor que não foram feitos a pensar em televisão e que portanto eu, como programador, acho que não têm lugar na grelha.” E ainda diz:

Eu não tenho nenhum espaço televisivo permanente que corresponda à ideia mais estreita de documentário de autor e nem estou interessado em criá-lo porque acho que ele deve dialogar com outros documentários. (…) É verdade que se o documentário de autor me surge como uma proposta em que eu não decidi nada, (…) que foi realizado por quem quis, com o olhar que quis, recorrendo aos financiamentos que pôde, esse documentário tem um espaço mais limitado na RTP2.

Na opinião de Areal só a diversidade pode garantir a liberdade de expressão, sendo que

cabe a um programador impor o seu programa estético e ideológico centralizado, mas dar abertura e espaço a que a diversidade de perspectivas se manifeste e chegue aos seus interlocutores: a sociedade, o público. O programador deve servir o espectador, não enquanto público-alvo, como em publicidade e televisão comercial, mas enquanto sociedade – isso é que é serviço público.

A documentarista Catarina Mourão, em um trecho não publicado da sua entrevista para a revista Docs.pt3, número 5, afirma o seguinte:

Se pensarmos no panorama do documentário criativo em Portugal em 1996 e agora 2006 é evidente que muita coisa mudou. (…) No entanto a Televisão pública continua a negar-lhe um espaço, impedindo o acesso do Documentário criativo ao grande público. Os apoios do ICAM existem e procuram ser regulares, mas diminuem de ano para ano (2000, 21 projectos; 2001, 23; 2002, 16; 2003, 15; 2004, 13 e 2005, 13 projectos). Por outro lado, os projectos que os concursos do ICAM apoiam são na sua maioria abordagens bastante convencionais e os critérios de escolha continuam a insistir nas temáticas e não nos olhares. Finalmente, dos projectos apoiados anualmente só um terço são divulgados e circulam nos festivais e mostras. E mesmo esses, produzidos ao abrigo do protocolo ICAM/RTP, nunca são transmitidos pela TV. Quanto aos restantes dois terços, será que existem? Por vezes surgem documentários apoiados marginalmente que surpreendem e nos deixam optimistas mas a grande maioria dos documentários produzidos no fio da navalha são muito frágeis.

A polêmica está, de certa forma, instalada entre os documentaristas, principalmente aqueles que procuram fazer documentários de autor, e a direção de programas da RTP2. Entretanto, por outro lado, o serviço público de televisão tem financiado iniciativas pontuais e tem produzido, não apenas ao abrigo do protocolo com o ICA, alguns documentários dignos de nota e que, conforme a própria afirmação de Wemans na referida entrevista, se apresentam como uma “iniciativa fundamentalmente centrada nos documentários sobre a cultura e património português.”

Em 2005 a Direção de Programas da RTP definiu três áreas temáticas como linhas de orientação para a produção de documentários: a História recente de Portugal, (séculos XIX e XX), Retratos da sociedade contemporânea e Biografias. Em 2006 o objetivo da RTP era emitir entre 40 a 45 horas de documentários de produção nacional. Foram exibidas quatro séries documentais “Portugal-Retratos de sucesso”, e outras três sobre o terramoto de 1755, sobre a sida em Moçambique e sobre o antigo primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro.

Em 2007 foram exibidos dois documentários que obtiveram mais de 20% de quota de mercado4, “Portugal, um retrato social” (20,8%) e “A guerra” (26,9%sh), da autoria de Joaquim Furtado. Neste mesmo ano, na comemoração dos 50 anos de televisão em Portugal, também foram produzidos dois documentários da autoria de António Barreto e Joana Pontes: “Nós e a televisão” e “A televisão e o poder”.

Em nota de imprensa lançada pela emissora5, a RTP2 afirma que tem dedicado mais de 25 horas semanais da sua programação à divulgação de diferentes tipos de documentários, além de exibir as criações resultantes do acordo RTP-ICA e tem apoiado financeiramente dezenas de projetos que lhe são diretamente apresentados por realizadores. No final de 2007, RTP2 lançou um concurso público para que as produtoras apresentassem projetos no âmbito de duas séries documentais compostas de seis documentários de uma hora. O objetivo era de contribuir para consolidar as estruturas de produção audiovisual nacional e reforçar a qualidade da sua criação. Com isso, até ao final do primeiro trimestre de 2009, a RTP2 receberá 12 obras encomendadas que têm como autores e realizadores nomes como Fernando Lopes, Jorge Silva Melo, Catarina Alves, Joana da Cunha Ferreira, entre outros. Neste momento, conforme informação obtida no site TV Universo6 a RTP2 tem mais de 80 documentários encomendados. As séries documentais nacionais podem ser consideradas a grande aposta do canal para arentrée de 2008/09, com seis produções em andamento nos próximos dois meses: “Trabalhamos com mais de três dezenas de produtores independentes, cumprimos uma das nossas obrigações”, referiu Jorge Wemans na apresentação dos novos programas aos jornalistas.

Alguns dos documentários a destacar são: A vida normalmente, uma série de 10 programas sobre pessoas de bairros problemáticos; Recantos, um guia de descoberta por Portugal; Histórias da vida da terra, uma produção sobre a vida selvagem na Europa e também em Portugal; Percursos da vida portuguesa, que aborda a música erudita nacional desde o século XII até à atualidade; Gente da cidade, que mostra várias cidades europeias através do percurso de três pessoas, uma co-produção de diversas estações de televisão europeias produzida há aproximadamente 10 anos e Voluntário, uma série documental sobre histórias de voluntariado em Portugal. É de destacar ainda uma série documental de 12 episódios, feita em parceria pela RTP e televisão de Moçambique, que será da autoria do renomado escritor moçambicano Mia Couto e terá como tema os Parques Naturais de Moçambique. A série começa a ser gravada este ano e irá para o ar em 2009.

Portugal um retrato social

A série de documentários Portugal, um retrato social é de autoria do sociólogo António Barreto com direção de Joana Pontes e música de Rodrigo Leão, tendo sido produzido e transmitido pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP) em 2007. Esta série aborda as grandes transformações sociais verificadas na sociedade portuguesa ao longo das últimas quatro décadas, as quais foram bastante profundas e muito mais rápidas do que na maioria dos países europeus. A emigração, a guerra colonial, a revolução política e social iniciada com a queda da ditadura, a fundação do Estado democrático, a descolonização e a contra-revolução, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram este período e que resultaram ou aceleraram estas transformações. Barreto7 ressalta que

as sociedades pequenas e fechadas ao exterior, politicamente autoritárias, culturalmente viradas para si próprias, dotadas de insuficientes elites e com uma reduzida expressão das classes médias, como era o caso de Portugal, não têm, em certas circunstâncias, forças, dinâmicas e dimensão suficientes para gerar uma mudança social acelerada.

Com certeza que não foi efetivamente fácil para o país

(…) libertar-se de tudo aquilo que o tinha condicionado durante décadas: a ignorância e a reverência; a delação e o medo; o autoritarismo e a repressão. Ao mesmo tempo em que se separava de África, se voltava para a Europa; em que sacudia o paternalismo e criava uma República de cidadãos.

A série de documentários Portugal, um retrato social conta com oito documentários de uma hora. O primeiro documentário da série, intitulado Gente diferente: Quem somos, quantos somos e onde vivemos aborda o modo de vida dos portugueses em comparação com trinta atrás. O segundo documentário Ganhar o pão: O que fazemos lida com a questão do trabalho, mostrando que a maioria dos portugueses trabalha na área dos serviços, sendo que poucos ainda trabalham na agricultura e nas pescas e muitos emigraram para outros países europeus e da América do Norte. O terceiro documentário, intitulado Mudar de vida: O fim da sociedade rural, mostra a transformação da sociedade rural em urbana, com as emigrações campo-cidade e a organização de uma nova vida cotidiana nas áreas metropolitanas. O quarto documentário, Nós e os outros: Uma sociedade plural, mostra as mudanças no que diz respeito à abertura da sociedade portuguesa com a emigração, o turismo, a democracia e a chegada dos imigrantes estrangeiros. Hoje fala-se muitas línguas e pratica-se muitas religiões, o que levou os portugueses a aprenderem a viver com os outros. O quinto documentário, Cidadãos, discute a integração europeia e o crescimento económico, que fizeram dos portugueses cidadãos de pleno direito pela primeira vez na sua história. Porém a justiça, que deveria acompanhar este progresso, ainda está a adaptar-se a esta nova sociedade e tem dificuldades em garantir os direitos dos cidadãos. Em Igualdade e conflito: As relações sociais aborda-se o crescimento das classes médias e da sociedade de consumo de massas em relação às diferenças de classes, de poder económico, de geração, de sexo e de região que ainda subsistem na sociedade. As famílias portuguesas vivem melhor, sendo que em vinte ou trinta anos o bem-estar melhorou mais que nos cem anos anteriores. Em Um país como os outros: A formação de uma sociedade europeia constata-se que Portugal já não se distingue, a nível europeu, como o país da ditadura, da pobreza e do analfabetismo. Embora o país ainda esteja atrasado e com algumas deficiências a colmatar, os portugueses são cidadãos livres e têm acesso ao Estado de Bem-Estar Social como os outros europeus.

Nós e os outros: Uma sociedade plural: a construção audiovisual da realidade

A narrativa documental de Nós e os outros: Uma sociedade plural é construída por meio de imagens de arquivo, que contextualizam a vida do país desde os anos 60 até os dias de hoje, e de imagens e entrevistas gravadas recentemente. São utilizadas imagens de filmes e programas antigos que foram selecionadas dos Arquivos da RTP. As imagens recentes apresentadas são das vindimas, dos cultos religiosos, das fábricas, das cidades, dos bairros sociais onde vivem os imigrantes, das pessoas trabalhando, se divertindo e consumindo. As entrevistas foram feitas com portugueses, gente comum ou de renome, e com imigrantes de diversas nacionalidades. Foram apresentadas entrevistas com Fernando Lemos, Rui Saraiva e Silva, Rosa Peixe Rola (agente da PSP em 1972), emigrantes portugueses, Etelvino Batista (ex-soldado, Angola 1961-63) soldados portugueses retornados da Guerra colonial, Vitorino Sanches (um dos poucos africanos que chegaram a Portugal antes da descolonização), Carrie Jorgensen (agricultora americana de avós portugueses), Susana Esteban (enóloga), Catherine Henke (artista plástica e agricultora), Ansor Ahrorov (ucraniano), irmã Mafalda Muniz (de um centro social de bairro), António Pinto (empresário), imigrantes brasileiros, Andriy Kristopchuk (médico ucraniano), irmã Deolinda Rodrigues, Arminda Soares (presidente conselho executivo de escola), Anabela Rodrigues (jurista), Francisca Van Dunem (procuradora-geral adjunta).

A narração do documentário é realizada por uma voz fora-de-campo masculina, onisciente, que constrói a narrativa mostrando um ponto de vista sociológico sobre a história e modo de vida do país desde os anos 60, analisando as transformações sociais pelas quais a sociedade portuguesa tem atravessado, com ênfase, neste caso, na relação entre os portugueses e os outros povos que escolheram o país como local de residência nos últimos anos. O documentário mostra como os estrangeiros estão inseridos em vários âmbitos da vida social e econômica portuguesa. Nas entrevistas, algumas vezes se escuta a voz do entrevistador a interagir com o entrevistado.

Em termos de roteiro, a narrativa é cronológica e descritiva a fim de facilitar a compreensão do telespectador e tenta, de alguma forma, mostrar um ponto de vista crítico que também informa o telespectador das mudanças e das dificuldades, principalmente de integração dos estrangeiros. A última parte do documentário lida com as questões mais complicadas em relação a esta integração, mostrando casos concretos.

O percurso narrativo pode ser resumido na seguinte sinopse: o documentário começa com um ponto de vista dos portugueses durante a ditadura salazarista. Nesta época estes deviam ser vistos como pobres, honestos e trabalhadores. O Estado e a Igreja Católica ensinavam um só ponto de vista, contidos num manual único de ensino escolar. O país quase não tinha conhecimento sobre o que se passava em outros países. A sociedade era fechada, não havia muitos estrangeiros, praticava-se apenas a religião católica, os partidos estavam proibidos e falava-se apenas a língua portuguesa. A polícia secreta, denominada PIDE8 , controlava desde as cartas enviadas pelos correios, até a imprensa, a televisão, o cinema e o teatro, censurando os diálogos que eram considerados inapropriados nestes diversos modos de expressão. Com isso a vigilância fazia parte do cotidiano das pessoas. Poucas mulheres trabalhavam, as professoras estavam proibidas de usar maquiagem e, tal como as enfermeiras, necessitavam de autorização do governo para se casarem. As aeromoças, por sua vez, não podiam se casar. Os namorados que se beijassem na rua recebiam multas. Não havia muita manifestação pública de afeto. Os sentimentos eram socialmente reprováveis, sendo que o divórcio era uma das principais interdições neste terreno. Os empregos públicos dependiam de certificados de bom comportamento passados pelos governadores civis em que se afirmava: “declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela constituição política de 1933 com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”.

Até os anos 60 vivia-se com muito medo. Foi quando as coisas começaram a mudar, devido ao grande crescimento econômico, os empregos gerados nas cidades e o consumo de massa. Os estrangeiros começaram a visitar o país trazendo novos comportamentos, as mulheres começaram a trabalhar, as classes médias quiseram dar mais educação aos seus filhos. Começou a haver mais consumo e mais opções de lazer, assim como os portugueses emigraram para o exterior, tendo emigrado mais de 1 milhão e meio de portugueses. Por outro lado, a ida à guerra transformou a cabeça dos jovens, que voltaram com outros pontos de vista. Em entrevista, Etelvino Batista afirma que a vida na Angola era muito diferente: “Nós eramos os provincianos e eles eram os citadinos”. Em Luanda as mulheres eram mais livres e a própria sociedade era mais aberta.

Atualmente, a sociedade portuguesa tornou-se plural e o país fechado passou à história. Na televisão, o modelo americano é o predominante, sendo que as novelas são copiadas do Brasil. Mudaram-se as ideias, os hábitos e as populações. Em 1975 cerca de 600 mil portugueses voltaram da África, fugindo da guerra e acabaram se integrando, apesar das dificuldades. Nos anos 80 os brasileiros e os africanos vieram trabalhar em Portugal. São os chamados imigrantes económicos. Surgem problemas em relação à identidade, como por exemplo as crianças africanas que praticamente nem falavam português e viviam em guetos. Nos anos 90 chegam os russos, os ucranianos e os romenos, que são mais qualificados do que a média dos portugueses, mas se disponibilizam para trabalhar em qualquer tipo de emprego. A chegada dos imigrantes teve um impacto positivo na economia, aumentando a produção. Meio milhão de estrangeiros estão legalizados, sendo que estima-se que 100 mil ainda continuam ilegais. Com isso surgiram também algumas questões problemáticas relacionadas com a dificuldade de adaptação, o trabalho, a língua e outras necessidades básicas, como a saúde, a educação, a moradia e o saneamento básico. Além do preconceito e da exploração pela qual os imigrantes passam. A questão da integração também se coloca, como por exemplo com a segunda geração de africanos em Portugal, porque muitos deles se sentem, ao mesmo tempo, africanos e europeus, caboverdianos e portugueses. E outros, mesmo sendo descendentes de africanos, são portugueses e sentem-se como portugueses, mas são vistos como descendentes de africanos e portanto africanos. Muitos deles nem sequer conhece o país de origem dos seus pais e avós.

Portanto, a abertura da sociedade foi o corte mais radical com o passado. Portugal é hoje um país moderno, integrado na União Europeia e, apesar de ter um atraso em relação a alguns níveis de vida europeus, não se pode dizer, como há alguns anos, que é um país subdesenvolvido. Porém, o que este documentário chama a atenção e de certo modo cumpre com a sua função social, é sobre questões mais complicadas que estão relacionadas com as mentalidades e com a identidade de um povo, questões estas que se tecem e se imbricam na vida das pessoas de forma ténue e, por isso mesmo, são mais delicadas e difíceis de lidar. Mas trabalhos audiovisuais como este, que são exibidos em horário nobre na televisão pública e têm uma grande audiência, podem de certa maneira colocar na pauta da agenda mediática nacional, e não só, as preocupações e as dificuldades de integração dos imigrantes, alertando para o facto de que os portugueses um dia também emigraram e que os imigrantes podem acrescentar valores não apenas econômicos, mas também culturais, à vida dos portugueses. Esta forma de debate, que não é maniqueísta mas que mostra diferentes pontos de vista, daqueles que vivem cá e também daqueles que vêm de fora, enriquece a vida social e cultural dos que vivem neste país.

A discussão da Qualidade

Pelo que foi exposto percebe-se que as obrigações legislativas impostas à televisão pública portuguesa vêm, de certa forma, sendo cumpridas ou, pelo menos, percebe-se que há uma forte intenção da RTP em cumpri-las. A RTP procura, apesar deste ser um esforço ainda mínimo, produzir documentários de qualidade, que lidam com temas de interesse nacional, que promovem a conscientização política e social dos habitantes do país e que, neste caso, trabalham com temas muito delicados como o preconceito, a integração e a formação de uma identidade nacional.

Nos estudos que estão sendo desenvolvidos no meu pós-doutoramento9 , estão a ser definidos parâmetros de qualidade a fim de discutir os programas emitidos pelos canais de serviço público português. Este documentário está inserido nos programas que veiculam conteúdos de âmbito social, e portanto na sua análise discute-se o papel institucional da televisão pública no sentido de informar e também estimular o desenvolvimento político e cultural dos sujeitos sociais.

Na análise do plano do conteúdo tanto da série documental Portugal, um retrato social como do documentário Nós e os outros: Uma sociedade plural percebe-se que os parâmetros de qualidade abaixo enunciados estão presentes.

1. Papel social desempenhado pela televisão pública – Promoção de sentimentos de pertencimento e a criação de laços sociais entre as comunidades, que têm reflexos sobre a democratização da sociedade e o desenvolvimento da cidadania. – Discussão de temas de carácter social e político, que enriquecem a vida social, cultural e política do público quando estimulam o seu interesse. – Acesso aos debates que, em outras esferas da sociedade, são mais difíceis de serem empreendidos. – Promoção da pluralidade da informação, o fomento de debates e a formação do público em geral. – Acesso ao conhecimento e à cultura das minorias que geralmente não têm representatividade nos media. – Produção de narrativas úteis a fim de gerar uma multiplicidade de sentidos que podem contribuir para a formação dos indivíduos.

2. Papel pedagógico da televisão na abordagem de assuntos de suma importância na era da globalização, como por exemplo, reciclagem, defesa do meio ambiente, imigração, preconceito etc…

3. Cumprimento das funções informativa, social, política, cultural, identitária, de mobilização de valores e de divulgação.

Em corroboração com os parâmetros de qualidade é possível afirmar que o documentário cumpre com vinte e um indicadores de qualidade, os quais foram também elaborados no meu estudo10 . São eles: Relevância; Estímulo ao pensamento, Estímulo ao debate de ideias e Apresentação de desafios; Ampliação do horizonte do público; Promoção da consciencialização política e/ou social dos cidadãos; Diversidade de temas e pontos de vista; Bom nível informativo; Entretenimento; Recurso às fontes; Seriedade; Objetividade; Subjetividade; Precisão; Oportunidade; Interesse público; Produção de sentido; Credibilidade; Promoção da identificação do espectador; Adequação em relação ao público e Exatidão dos factos narrados.

Em relação à Mensagem Audiovisual não se pode dizer que haja muita inovação no formato, uma vez que este documentário apresenta-se como um documentário televisivo padrão, apesar da originalidade na abordagem do tema e da música, encomendada ao renomado músico Rodrigo Leão, que é um dos integrantes do grupo musical Madredeus. Dos 11 indicadores de qualidade definidos no estudo, pode-se afirmar que o documentário cumpre com a Qualidade artística; Apelo à curiosidade; Apresentação de uma estrutura organizada; Clareza da proposta; Eficácia da transmissão da mensagem e Tratamento válido do assunto.

A inscrição da memória

Neste sentido, eu gostaria de ressaltar um último aspecto que está relacionado com o papel do serviço público de televisão no sentido de contribuir para o resgate do passado histórico, a inscrição da memória e a afirmação da identidade de uma nação. Na obra Portugal, hoje. O medo de existir o filósofo e professor da Universidade Nova de Lisboa José Gil tece uma severa crítica à sociedade portuguesa contemporânea sobre o que denomina como uma falta de inscrição dos cidadãos no sentido de agirem e atuarem efetivamente sobre os destinos do seu país.

Com a frase “Em Portugal, nada acontece.” José Gil (2005:15) afirma que se nada acontece quer dizer que nada se inscreve, seja na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico. Um dos pontos nevrálgicos da não-inscrição, na opinião do filósofo, encontra-se na denominada Revolução de 25 de Abril, que recusou-se a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo salazarista. Ou seja, a dita revolução ocorreu mas não houve uma mudança no modo de vida e no modo de pensar e perceber as relações sociais. O mesmo já havia acontecido com a queda do antigo regime. Não houve julgamentos nem dos responsáveis da PIDE, nem dos responsáveis do antigo regime. Pelo contrário, “um imenso perdão recobriu com um véu a realidade repressiva, castradora e humilhante de onde provínhamos. Como se a exaltação ‘afirmativa’ da Revolução pudesse varrer, de uma penada, esse passado negro.” Desta forma, o autor chama a atenção para o facto de que todos os crimes, assim como a guerra colonial e a cultura do medo e da pequenez medíocre engendradas pelo salazarismo se apagaram das consciências e da vida das pessoas. Quer dizer, no fundo não se apagaram, porque continuam de certa forma reprimindo a inscrição e a atuação dos cidadãos na sociedade.

Outro aspecto que o autor ressalta está relacionado com a criação e a existência de um espaço público de troca e discussão de ideias. Na época do salazarismo o espaço público foi reduzido ao mínimo, tendo desaparecido com a censura e a supressão da liberdade de expressão e de associação. O clima de anestesia gerado neste período continua a persistir. O autor indaga como funciona o espaço público em Portugal trinta anos depois do estabelecimento da democracia e constata que o país continua a não ter esse espaço aberto de discussão e troca de ideias, que é essencial para que a liberdade e a criação circulem no campo social. Nem mesmo na televisão.

Neste sentido, por exemplo, não há debate político. Os debates presenciados na mídia limitam-se às trocas de opiniões e de argumentos entre políticos, sempre de um partido, ou de comentaristas, os pretensos formadores de opinião que dialogam entre si. Além disso, muitos políticos são também comentadores, ou seja, fazem o discurso e o metadiscurso. Em outros campos, como nas artes e na literatura acontece o mesmo, não há espaço público de troca de opiniões, os artistas, os críticos e os acadêmicos vivem nos seus casulos e não dialogam de forma mais ampla, por meio por exemplo de publicações, exposições e conferências.

Se, por um lado, a televisão e a imprensa estão abertas ao país e ao mundo, por outro filtram tudo o que transmitem pela sua especificidade enquanto meios de comunicação. A função da mídia consiste em

abrir o espaço da comunicação social, que difere do espaço público, mas nem mesmo nesse nível se edificou um sistema que desse voz aos “sujeitos coletivos da enunciação”, sempre enquadrados (…) em fórmulas expressivas de representação que pervertem o que deveria ser (…) um fórum em que os cidadãos pudessem discutir problemas, levantarem questões, pensar e agir sobre a sua sociedade (GIL, 2005:33).

Com isso, a própria mídia contribui para esta situação geral da não-inscrição. O autor defende que, pela sua aparência de espaço público, o espaço midiático dá-se como anônimo, ou melhor, como uma realidade anônima, uma espécie de elemento pertencente ao aparelho de Estado, como os tribunais e as escolas. Sendo assim, como pertence a todos e a ninguém, a mídia não promove nem a participação nem a discussão.

Por outro lado, a mídia deveria ser um dispositivo essencial do poder público dos cidadãos e, nesse sentido, deveria se diferir dos aparelhos do Estado. Na opinião de José Gil, a televisão, a rádio e a imprensa têm vocação para construir o real cotidiano das comunicações concretas, não apenas das “notícias”.

Neste sentido, a série Portugal, um retrato social pode ser vista como uma contribuição da própria mídia para repensar um período importante da história do país, ao resgatá-la e recontá-la audiovisualmente, por meio das imagens de arquivo. Mas não só. Considerando que a televisão promove um espécie de laço social entre as pessoas (como argumenta Dominique Wolton), no sentido em que fazem parte das conversas do dia a dia e geram um certo hábito no público de seguir e comentar a história que está sendo contada, esta série discute as transformações sociais, políticas, econômicas e culturais do país nos últimos 40 anos e contribui à sua maneira, e pontualmente, para que as mentalidades mudem e para que se saia da inércia da não-inscrição.

Gil (2005: 55) afirma que

conversar, dialogar são maneiras de construir um plano de inscrição de falas e pensamentos. Por vocação interna a fala inscreve o espaço público e, enquanto tal, ela é, por si só, uma pré-inscrição (como expressão de um afecto, de uma obra, de um pensamento). O plano da inscrição das falas constrói-se como plano de forças com uma independência própria: só a partir da sua existência a conversa pode desenvolver-se, fluir sem esforço, como que movida por uma mola interior.

Sendo assim, podemos considerar que a televisão pública cumpre um papel essencial não apenas de resgate de um modo de vida, mas também de inscrição; não apenas do passado mas que tem, também, repercussões no presente. Neste sentido, o trabalho realizado por António Barreto e Joana Pontes tem grande relevância no panorama midiático português. Ao resgatar a história, recontá-la audiovisualmente, com imagens de arquivo e apresentar dados não apenas interpretativos mas também quantitativos e estatísticos, que dão certa objetividade ao discurso, os autores apresentam um ponto de vista histórico e sociológico e também promovem a discussão sobre as transformações sociais, econômicas e culturais do país nos últimos 40 anos contribuindo à sua maneira, e pontualmente, para que se saia da inércia da não-inscrição.

 

* Gabriela Borges é pesquisadora e professora de Estéticas e Linguagens Audiovisuais. Graduada em Comunicação Social pela UFMG. Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com estágios de investigação na Universidade Autónoma de Barcelona e no Trinity College Dublin. Lecionou disciplinas práticas e teóricas nos cursos de Comunicação Social em universidades brasileiras e no curso de Cinema e Teatro do Trinity College Dublin. Realizou o seu pós-doutoramento no Ciac (Centro de Investigação em Artes e Comunicação) e leciona actualmente como professora convidada na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve. Tem vários artigos publicados em revistas científicas brasileiras e estrangeiras e organizou o livroDiscursos e práticas de qualidade na televisão lançado recentemente pela Livros Horizonte, Lisboa.

 

 

Referências Bibliográficas

BORGES, Gabriela. Reflexões sobre o projecto A 2: em cena: estudo de parâmetros de qualidade para a análise de programas. Anais do V SOPCOM, Universidade do Minho, Setembro, ISBN 978-989-95500-1-8.http://lasics.uminho.pt/ojs/index.php/5sopcom (no prelo).

 

———————. Parâmetros de qualidade para a análise de programas de âmbito cultural: uma proposta teórico-metodológica. Revista Electrónica Nau do NP Comunicação Audiovisual do Intercom, Vol. 1, Nº. 1, E-ISSN 1983-6376. Disponível em http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/NAU/issue/current/showToc, 2008.

 

GIL, José. Portugal, hoje. O medo de existir. Lisboa, Ed. Relógio D’Água, 2005.

 

WOLTON, Dominique. Elogio do grande público. Uma teoria crítica da televisão. São Paulo. Ed. Ática, 2006.

 

 

NOTAS

1 Disponível em http://www.ics.pt/Ficheiros/serv_pub/Neo_Op_AV.pdf . Consulta em 25/09/2006.

 

2 Disponível em http://www.anacom.pt/content.jsp?contentId=506380 . Consulta em 25/09/08.

 

3 Disponível no blog DOC LOG da documentarista Leonor Areal em http://doc-log.blogspot.com/2006/07/passado-e-futuro-do-documentrio.html . Consulta em 27/08/08.

 

4 RTP newsletter Nº. 9, de dezembro de 2007. Disponível emhttp://ww1.rtp.pt/wportal/grupo/newsletter/index9.php . Consulta em 25/09/08.

 

5 Disponível em http://www.tvuniverso.com/index.php/RTP/Documentarios-em-forca-na-nova-grelha-da-RTP2.html . Consulta em 20/09/08

 

6 Disponível em http://www.tvuniverso.com/index.php/RTP/Documentarios-em-forca-na-nova-grelha-da-RTP2.html . Consulta em 20/09/08

 

7 Texto de apresentação da série de documentários. Disponível emhttp://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/portugal_retrato/index.shtm . Consulta em 25/09/08.

 

8 A polícia secreta da ditadura salazarista.

 

9 A discussão do modelo teórico de análise da qualidade está disponível emReflexões sobre o projecto A 2: em cena: estudo de parâmetros de qualidade para a análise de programas. Anais do V SOPCOM, Universidade do Minho, setembro, ISBN 978-989-95500-1-8. http://lasics.uminho.pt/ojs/index.php/5sopcom (no prelo).

 

10 A explicação pormenorizada dos indicadores de qualidade do Plano do Conteúdo e da Mensagem Audiovisual foi desenvolvida em artigo publicado na Revista NAU. Disponível emhttp://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/NAU/article/view/4216/4326 . Consulta em 20/09/08.

 

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Ana Crelia Dias entrevista Silviano Santiago

 

Ana Crelia Dias: Silviano Santiago é um nome que remete a um ser plural: professor, crítico, ficcionista. De que forma essa pluralidade interfere (ou não interfere) na sua escrita de ficção? E que face desse sujeito múltiplo mais se revela hoje?

Silviano Santiago: Para o escritor, todas as formas de saber e de conhecimento são bem-vindas e benéficas. Por definição, a literatura – tanto a reflexão teórica e a docência, quanto a prática crítica e a criação – é predisposta à multidisciplinaridade, já que o que esteve e está em questão é a condição humana, e não determinado conhecimento disciplinar (no sentimento universitário da palavra) sobre esse ou aquele aspecto da vida social, política, econômica etc., do ser humano em certa nação ou continente. Mais do que um conhecimento (knowledge, para usar a terminologia anglo-saxã), a literatura é portadora de uma sabedoria (wisdom, idem). Seu compromisso fundador – pelo menos nos países do Ocidente – se deu no momento histórico da expansão da tradição filosófica e literária greco-latina. Portanto, aproximações recentes da literatura às disciplinas das chamadas ciências sociais apenas empobrecem seu escopo. Há que tomar cuidado com o verbo empobrecer. Tome, por exemplo, o caso da medicina, muitas vezes o empobrecimento no plano da totalização do conhecimento médico, de que é exemplo o médico generalista, pode redundar num aprofundamento do conhecimento particular, de que é exemplo o médico especialista. Muitas das formas modernas de literatura, ou de crítica literária, repousam no aprofundamento de questões sobre a condição humana que se passam no plano das reivindicações de cunho particular, ou seja, social, político e econômico. Um romance como Vidas Secas, de Graciliano Ramos ou uma coleção de poemas como A rosa do povo, de Carlos Drummond, apesar de mais especializados disciplinarmente, não são menos ambiciosos do que Memórias póstumas de Brás CubasLibertinagem, de Manuel Bandeira. Faço a comparação para acrescentar que chega um determinado momento da avaliação da obra de arte em que o que conta é a genialidade do escritor. Todas as demais teorias bem intencionadas caem por terra.

Falando em particular do romance – um gênero desprovido de poéticas, como dizem os anglo-saxões, um gênero lawless, sem lei, bandido – tudo é permitido e graças a Deus. O progresso do gênero se dá pela transgressão às regras estabelecidas. O GuaraniMemórias sentimentais de João Miramar e Grande Sertão: Veredas são bem ou totalmente diferentes e, no entanto…

Estabelecido esse patamar mínimo para a resposta, acrescento que me sinto muito bem sendo polivalente. E tive a sorte de poder ambicionar a polivalência no momento em que a literatura é julgada como produção de discursos, e não mera expressão em um único gênero da personalidade do autor. Tenho uma boa formação em literatura – isto é, minha curiosidade intelectual foi devidamente satisfeita por determinado conhecimento, determinada erudição –, e o que faço é eleger um dos discursos literários que estão à minha disposição para expressar-me artisticamente do modo que julgo mais conveniente, habilidoso, agradável e convincente.

O discurso reflexivo, por exemplo, requer que o aparato teórico-metodológico adquirido ampare a paciente análise textual a ser feita. O problema é saber se me julgo competente para enfrentar aparato e análise, e movimentá-los com palavras na folha de papel em branco. A experiência didática deu-me a segurança indispensável para tal tarefa. Ela veio de sucessivos experimentos com estudantes em sala de aula. Por outro lado, o exercício do discurso ficcional/poético proporcionou-me um saber que é o de padeiro, ou seja, de quem “já pôs a mão na massa”. Sinto-me, pois, apto a produzir um ensaio. Se dedicar a ele o tempo indispensável à boa realização, publico-o como tal. Não terei vergonha, mais tarde, em juntá-lo a outros e reuni-los em livro, é o caso recente de O cosmopolitismo do pobre.

Ponhamos que tenha elegido o discurso ficcional. Minhas leituras da ficção e da teoria poética no período de formação e as demais feitas no período de exercício da profissão como professor universitário me dão a garantia de ter certo domínio da matéria. Logo depois dos anos 1976, abandonei a análise de romances, contos e poemas, e comecei a trabalhar nos cursos da PUC autobiografias, memórias e correspondência literária – o que se chamou a literatura do eu, recentemente recoberta pelo neologismo autoficção (autobiografia ficcionalizada, ficção autobiográfica). Se quisesse escrever algo nesses gêneros, não me sentiria um escritor espontâneo a pôr em ordem na folha de papel os fatos da vida vivida. Estaria menos próximo de Meus verdes anos, de José Lins do Rego, e mais próximo de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. Este se transforma, por assim dizer, em modelo, com tudo o que a palavra contém de positivo (emulação) e de negativo (filiação), que se traduz afinal pela expressão vitoriosa de “a ansiedade da influência” (Harold Bloom). Por outro lado, não posso deixar de viver o momento que vivo. Naquela mesma época, informava-me e me enriquecia com o knowledge, que me chegava através da leitura sobre a realidade sócio-política e econômica do Brasil e da América Latina. Bem lá no fundo da formação, havia a tese sobre André Gide e um paradoxo. Não era ele que dizia que somos mais sinceros quando fazemos ficção do que ao escrever autobiografia? Pois é, misturemos tudo isso numa coqueteleira e teremos o drinque que idealizei, pesquisei e produzi, intituladoEm liberdade, uma ficção. Ainda nessa linha, mas já no novo milênio, senti-me à vontade para aceitar a encomenda da Bem-te-vi e organizar a correspondência de Carlos Drummond & Mário de Andrade. Os laços se atam e se desatam e se reatam. Veja você, por uma questão estratégica posso dedicar-me um ano ou mais a tal ou a tal outro discurso, mas isso não significa preferência. Significa, antes, as contingências da soma de tempo e dinheiro. Um se perde e o outro se ganha. Isso se chama sobrevivência.

ACD: Com uma vasta publicação ficcional e crítica, já poderíamos pensar em ousar a pergunta: qual é a sua grande obra? Por quê?

SS: Pelo rabicho da resposta anterior, você já viu que, em matéria de preferência, sou a favor da obra mais próxima. Por motivos que não vêm ao caso aqui, desde os doze anos de idade fui jogado contra os muros da vida prática. Sobrevivo, trabalhando. Não consigo ser saudosista (ou de maneira brutal: não tenho tempo nem dinheiro para ser saudosista). Tenho memória razoável e com constância revisito o passado. Não tenho prazer em viver no passado nem em revivê-lo no presente. Sigo ao pé da letra a “errata pensante”, de que falou Machado de Assis num de seus romances: “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”. Uma tradução aproximada da metáfora machadiana se encontra no livro de poemas Cheiro forte, e a versão irônica correspondente em De cócoras. No momento, minha grande obra é Heranças, romance que será publicado daqui a dois ou três meses pela Editora Rocco. Aguardo sua leitura.

ACD: Seus textos ficcionais apresentam, especificamente os dois últimos, narradores que se constituem muito mais como antinarradores, dada a reflexão que tecem acerca do processo de criação. Duas perguntas: o que é narrar para você hoje? E o que motiva esse processo de avanço e recuo na narração, muitas vezes até desfazendo o que foi construído: é uma tendência da literatura contemporânea ou é um processo do escritor Silviano?

SS: Respeito sua observação, mas não sei se os chamaria de antinarradores. Em termos de narratividade, performam a ação de maneira semelhante a dos narradores que conhecemos tradicionalmente na ficção ocidental. O romance é narrado de fio a pavio. Tem começo, meio e fim. Os contos são também narrados na integridade da proposta de cada um. O que choca num caso e no outro é o título de cada uma das obras, dicas de novas poéticas da ficção. O falso mentiroso eHistórias mal contadas, respectivamente.

O narrador do primeiro deles perdeu a certeza sobre a própria verdade. Ele constrói ficções dentro da ficção. Estamos acostumados a narradores que têm absoluta certeza sobre o episódio que narram. Quando o escritor (e não mais o narrador) quer passar ao leitor a incerteza do que lhe foi dito pelo narrador X, cria um segundo, terceiro, quarto… narradores. É o caso clássico do filme japonêsRashomon, de Akira Kurosawa, onde temos várias versões para o estupro duma mulher e o possível assassinato do marido. A mesma estória é narrada de quatro ou cinco pontos de vista diferentes, levando o espectador cauto ou incauto a optar por uma das versões ou se naufragar nelas. É o caso ainda de alguns romances de William Faulkner, entre eles e mais sintomaticamente The sound and the fury. O narrador de O falso mentiroso não delega a outro narrador o desmentido da própria palavra. Ele só não tem absoluta certeza sobre a veracidade, por exemplo, duma versão sobre o episódio de seu nascimento (sobre sua filiação, em suma). Em lugar de questioná-la, inventando/propondo um segundo narrador, prefere “inventar” (no sentido de: partir para) uma segunda versão, uma terceira versão. A ficção em estado larvar. Não é o que acontece no trabalho de análise? O trabalho feito por mim é diferente do que acontece no romance de Alain Robbe-Grillet, La jalousie, por exemplo, onde é a lembrança (a memória) do narrador que se julga incapaz de reproduzir exatamente o que aconteceu – veja-se o episódio clássico da centopéia que é esmagada contra a parede. É através do lento trabalho do leitor que se pode chegar a uma decifração (precária, talvez) do episódio A decifração é feita pela justaposição – agora, pela memória do leitor – das diferenças na repetição do episódio. As versões que se repetem do episódio não são idênticas. Não é a somadas semelhanças que traz ao leitor a verdade sobre o esmagamento, mas antes a soma das diferenças – se é que se podem somar diferenças. Como não se podem somar as diferenças, a verdade é um buraco na narrativa. Ao leitor é oferecida umalacuna. A literatura do nada (néant), de que tanto se falou. Minha experiência talvez esteja mais próxima do narrador ficcional beckettiano. Se você resolver o enigma proposto, te dou um doce.

Em O falso mentiroso o leitor pouco pode fazer para ajudar/aconselhar o narrador. Por mais que ele tente justapor/compor as várias versões expressas pelo narrador fica sempre o gosto de cada versão não lhe ter sido bem contada. Não adianta, portanto, reuni-las, analisá-las em conjunto, nas semelhanças ou nas diferenças. Não há buraco, não há lacuna a ser oferecida ao leitor. O mal contado é a essência (se me permite o palavrão) da literatura ficcional.

Já aí passamos para os narradores dos vários contos de Histórias mal contadas. O buraco é mais embaixo, se me permite agora a expressão grosseira, mas feliz. O problema da narratividade (e do narrador) em literatura ficcional é mais complicado do que apresentava o narrador do citado romance. Todas as estórias são mal contadas. Caso não o fossem, seriam chatíssimas e, por isso, deixariam de ser ficção. A graça duma estória está no fato de ser mal contada, competindo ao leitor dar-lhe o significado que lhe escapa. Tradicionalmente – e falo da crítica literária antes do advento da psicanálise – os grandes críticos, aqueles que se destacaram para a posteridade, agiam dessa forma sem terem consciência do que faziam. Em termos analíticos, quero dizer que toda estória literária (e talvez toda narrativa subjetiva, independente do esforço de torná-la artística) parece dizer mais do que aparentemente está dizendo. Isso porque existe um significado latente que é mais poderoso semanticamente do que o significado manifesto. Dou o exemplo mais contundente. Freud ao descobrir que Hamlet era uma história mal contada conseguiu extrair da peça shakesperiana o compromisso da trama com o complexo de Édipo. Sem que o soubéssemos cientificamente, o complexo já estava latente na arte dramática desde a Grécia e o período elisabetano. Depois dessas palavras, talvez se evidencie de maneira mais clara a razão pela qual não me agrada a qualificação de antinarradores para os meus últimos livros de ficção. Deixo claro, no entanto, que não sei o que você entende por antinarrador. Faço-lhe a pergunta.

ACD: O senhor assistiu ao documentário Jogo de cena, de Eduardo Coutinho? Sua obra também faz, em alguns casos, esse jogo entre o real e o ficcional. Em sua opinião, isso é uma tendência da arte em geral?

SS: Não consigo comparar o trabalho ficcional que faço com o trabalho que os documentaristas brasileiros (ou não) realizam. Partimos de premissas muito diferentes – opostas, talvez ? sobre o estatuto da realidade e do real em arte. Estamos mais para o acirrado do jogo entre times diferentes, do que para o empate de dois a dois, ou zero a zero.

ACD: Acredito ser De cócoras sua narrativa de maior nuance lírica, assim como os contos “Ed e Tom”, “O verão e as rosas”, entre outros. O senhor teme sentimentalismos em seus textos? (Que fique claro que não acho piegas nenhum dos textos citados. Ao contrário, eles têm forte aprofundamento lírico e são todos muito bem construídos nesse sentido. A pergunta vem apenas da curiosidade do porquê de não haver muitos textos assim hoje.)

SS: Acreditava que tinha dado a mais plena vazão a um narrador lírico em Keith Jarrett no Blue Note. Será que me engano? Meus livros de ficção anteriores eram muito compostos, trabalhados que tinham sido na cabeça e em sucessivos planejamentos e rascunhos antes de serem trabalhados anarquicamente pelo próprio trabalho de escrita (não há simetria perfeita entre forma imaginada e forma realizada – alerto – mesmo em romances como Em liberdade). No caso de Keith Jarrett deixei que o narrador fosse conduzido pelo andante da música popular norte-americana, sentimental por natureza, pelo improviso que representa o jazz e que o pianista Keith Jarrett representa dentro do improviso no jazz. A letra (the lyrics) da canção não contava, não tinha importância para cada narrador, até mesmo porque estava a escutar um disco instrumental. Contava apenas num importantíssimo detalhe. Falavam todas as letras do amor heterossexual, algo que é consensual na arte popular ou pop. Os contos seriam sobre o amor homossexual. Depois de livro tão trabalhado quanto Stella Manhattan, com personagens tão sofridos na busca da satisfação amorosa (para contraste com o outro livro, veja as inserções poéticas no primeiro capítulo, a ser catalogadas por No money, no fuck, no love), pensei em sublimar as questões propriamente práticas que envolvem o surgimento do amor, e deixá-las serem compensadas pela pobreza/riqueza do sentimento de solidão – dominante em todo o livro. A solidão é o ponto de vista que deixa a descoberto a plenitude da experiência amorosa – paradoxalmente? Qualquer coisa no gênero “esquecer para lembrar”, título de livro de Carlos Drummond. Experimentar o sexo, esquecê-lo para lembrá-lo como amor. O ponto alto da abstração musical do texto escrito está ao meio do livro, no conto “Bop be” (be bob de trás para diante).

Se quisesse trabalhar a letra das canções, o narrador teria que evocá-las. Como se trata de canções muito conhecidas, verdadeiros hits internacionais, pode haver aqui e ali lembranças ocasionais de um ou outro verso. Mas o importante era dar continuidade em palavra ao mistério do improviso de Keith Jarrett (pensava também no “Concerto de Colônia”, dele também). O narrador lírico é, portanto, um narrador em total liberdade (pelo menos para mim), daí também o tom confessional da escrita (se pseudo ou verdadeiro, pouco importa). Certamente, esse é também o caso de De cócoras, onde deixo que meus temas clássicos sejam contaminados pela questão da experiência lírica na tela (o filme Gilda) e a espiritualidade anti-rilkiana (em especial os dois anjos ao final do romance). Minhas narrativas tendem a ser pão pão queijo queijo. Não é o caso do romance em questão e não é o caso do conto “O verão e as rosas” (em segredo, te digo que é uma homenagem a Clarice Lispector). Já o conto “Ed e Tom” escapa ao narrador lírico, pelo menos da maneira que acreditava estar concebendo-o. É um libelo a favor de colega meu, que teve a carreira cortada ainda nos anos 1960 (a não ser o episódio em si, todos os detalhes na caracterização dele foram modificados). Está vendo que nem sempre é bom dar a palavra ao autor. Não é a melhor palavra e muito menos a última. A palavra do autor é semelhante ao andaime, de que se valem os pedreiros para levantar um edifício de apartamentos. Habitado o edifício, qual é o morador que se lembra da importância dos andaimes? Quem se lembra do trabalho incansável e mal remunerado dos pedreiros?

ACD: São muitas as referências do cinema, da literatura, do teatro em sua obra. O senhor acha que um texto que se valha de tais recursos tende à erudição? Isso pode ser empecilho para o grupo que o mercado chama de “leitor comum”?

SS: Toda referência ou alusão é um entrave para o chamado leitor comum (se é que podemos juntar a vasta gama de leitores ingênuos, naïfs, debaixo da única etiqueta leitor comum). A solução para o problema não está em evitá-las. Está antes em torná-las palatáveis, isto é, assimiláveis como uma espécie de alusão a amigo ou a caso notoriamente conhecido, em conversa mole. Se não se pode deixar o leitor entrar na referência ou alusão, há que buscar uma maneira de deixá-lo pelo menos feliz (ou presunçoso) às margens do rio da narrativa. O mesmo problema existe na leitura do poema, como também na leitura do ensaio. No meu caso, quantas referências e alusões me escapam/escaparam ao ler os notáveis ensaios de Jacques Derrida, para ficar com um exemplo? Quantas referências e alusões me escaparam/escapam na leitura de As flores do mal, de Baudelaire, para citar outro exemplo? Apesar de me faltar erudição filosófica ou erudição poética, tenho a impressão de que chego a penetrá-los com relativa segurança. Aliás, acredito que nenhum leitor tem total segurança sobre o texto que lê. Por isso é que relemos os que julgamos notáveis. Há gradações na aproximação dos leitores ao texto, dos espectadores à peça de teatro, ao filme, às obras de artes plásticas. Cada um faz do texto lido o que pode. Às vezes alguém que acredita estar desencavando mistérios num romance está na verdade cada vez mais à flor da pele, a dizer sandices de bom sandeu. Ao passo que um crítico dito impressionista, como Augusto Meyer, flertando aqui e ali com a obra de Machado de Assis, acaba por enunciar verdadeiras pérolas, que até hoje nos encantam e nos enriquecem. Nesse particular, por que não refletir sobre o quinto capítulo de Esaú e Jacó, intitulado “Há contradições explicáveis”. Lá se lê: “Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção”. Desde que apresentada de maneira palatável, todo bom leitor engole a seco qualquer referência ou alusão.

ACD: A técnica do cinema – a montagem, a direção – encontra na sua obra paralelos estruturais. O senhor lança mão de estruturas muito diferentes de composição a cada texto. O senhor foi crítico de cinema, não foi? Esse recurso estrutural nos romances vem dessa experiência?

SS: Inicia-se lá no Centro de Estudos Cinematográficos (BH), sem dúvida, embora o gosto pela imagem tenha origem mais remota. Já mencionei em entrevistas o fato de que, na infância formiguense, tinha verdadeira loucura pelos gibis. Pelos gibis e pelo cinema que então nos chegava de Hollywood e tratava de temas relacionados à Segunda Grande Guerra (nasci em 1936), eduquei-me como cosmopolita numa cidade interiorana de menos de trinta mil habitantes. Esse tipo de experiência, de experiência da leitura no sentido semiológico do termo, foi trabalhado à exaustão nos poemas iniciais de Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, que na verdade faz pendant com Em liberdade e, certamente, com os vários cursos sobre autobiografia e memorialismo que dei na PUC, para não mencionar o livrinho sobre Drummond, que saiu em 1976 na Vozes. O primeiro poema analisado no livrinho é sintomaticamente “Infância”, o segundo em Alguma poesia. Informado isso, acrescento que sempre me senti à vontade na cultura da imagem, tão à vontade quanto na cultura da palavra. Aliás, seria ridículo tentar separá-las em alguém que cresceu e se formou no século 20, o século por excelência da imagem. Como querer ser artista sem freqüentar as salas de cinema e os museus? Como diz ou dizia o mote da revista semanal, “veja e leia”.

É claro que na cultura da imagem cinematográfica é de enorme importância a questão da montagem. Desde cedo, fui apaixonado por ela. Seja pela montagem por atração, cujo teórico maior foi o soviético Eisenstein (há exemplo flagrante dela no romance Uma história de família), seja pela montagem pelo plano-seqüência, cujo grande teórico foi André Bazin da revista Cahiers du cinéma. Tenho dificuldade em aceitar a montagem que se tornou standard nos clipes musicais, ou a montagem pelo recurso à sucessão de close-ups, de que é exemplo a telenovela (devo dizer que Kar Wai faz maravilhas com esta e me causa muita inveja). No entanto, a possível diversidade na composição de meus livros não advém de minha familiaridade com o cinema, ou com as artes plásticas, ou melhor, advém em parte. Advém, antes, de detalhe muito pessoal (quem sabe original) de minha personalidade criadora. Não gosto de repetir o feito. Não gosto de transformá-lo em receita. Para mim, cada obra é um experimento (a não ser confundido com o mero experimentalismo formal). Se por acaso reclamo para mim a condição de vanguardista é porque ponho fé nas graças, mistério e loucura do experimento, à semelhança do doutor Silvana, dos gibis, ou de algum cientista em sofisticado laboratório de pesquisa europeu ou norte-americano. Estou mais perto do doutor Jekyll, ao criar Mr. Hyde, do que da maioria dos nossos escritores que se apegam com unhas e dentes a uma fórmula de romance, ou a um estilo que julgam ser ultra pessoal.

ACD: A formatação de um gênero literário não encontra muita facilidade de adequação em seus textos: eles parecem constituir uma reelaboração do conceito de gêneros. Viagem ao México, por exemplo, promete-nos uma epopéia e transita por diário íntimo, ensaio, biografia e romance. O senhor pensa a arquitetura de um livro com o rigor que se mostra depois da realização?

SS: Tinha pressentido atrás a iminência dessa pergunta. A forma pensada, planejada, posta em rascunhos, não apresenta simetria perfeita com a forma realizada, embora muito daquela esteja nesta. Uma não existe sem a outra, é verdade (a não ser no caso muito especial de Keith Jarrett, onde a forma pensada não existiu, e existiu de maneira mais violenta a correção depois do texto já escrito). Por ser um experimentalista (veja a resposta anterior), não teria sentido que seguisse ao pé da letra as noções de gênero, tal qual expostas nas poéticas. Aliás, atrás também alertava para o fato de que o gênero que elegi com mais freqüência, o romance, é por falta de poéticas e por definição, lawless. Em meus experimentos, procuro levar até as últimas conseqüências esse aspecto do gênero. A tal intensidade levo o experimento, que Heranças, meu último romance, representa o fracasso. Tenta se enquadrar perfeitamente às regras do gênero. Quem vai acreditar? Criei um romance de personagens, com uma dicção realista. No mais, a pergunta está perfeitamente formulada.

ACD: De onde vem o conceito de autoficção de que o senhor fala ao se referir a sua obra?

SS: Desde criança, por razões de caráter extremamente pessoal e íntimo – refiro-me à morte prematura de minha mãe ? não conseguia articular com vistas ao outro o discurso da subjetividade plena, ou seja, o discurso confessional. Não estou querendo dizer que minha personalidade infantil, isto é, meus impulsos vitais e secretos eram-me desconhecidos. Pelo contrário, conhecia-os muito bem. Tão bem os conhecia que sabia de seu alto poder de autodestruição e destruição. Acreditei ter de esconder dos ouvidos alheios a personalidade de menino-suicida e de menino-predador, escondê-la debaixo de discursos inventados (ficcionais, se me permitem), onde eram criadas subjetividades similares à minha, passíveis de serem jogadas com certa inocência e, principalmente, sem culpa no comércio dos homens. Criava falas autobiográficas que não eram confessionais, embora partissem do cristal multifacetado que é o trágico acidente da perda materna. Já eram falas ficcionais e, como tal, co-existiam aos montões. Nenhuma das falas era plena e sinceramente confessional, embora retirassem o poder de fabulação da autobiografia. O dado confessional que poderia chegar à condição plena ficava encoberto, camuflado, para usar a linguagem da Segunda Grande Guerra, então dominante. Não tinha interesse em escarafunchá-lo em público. Os fatosautobiográficos fabulam, embora nunca queiram aceitar a cobertura da fala confessional, visto que se deixavam apropriar pelo discurso que vim a conhecer no futuro como ficcional. O sujeito ressemantizava o sujeito pelo discurso híbrido – o autoficcional. Não estou querendo dizer que não vivia a angústia de não poder articular em público o dado da subjetividade plena, dita confessional. Vivia-o, só que não o exercitava como fala nem o escrevia. Agarrar-me e subtrair-me a essa angústia era o modo vital da sobrevivência do corpo e dos impulsos vitais, era o modo como o discurso autobiográfico se distanciava do discurso confessional e já flertava, inconscientemente, com o discurso ficcional.. Onde mais forte se fazia o sentido da angústia e mais necessária sua subtração era à mesa de jantar ou no confessionário. Fiquemos com este exemplo.

Meu pai não era católico praticante, mas nos obrigava a ser. Segui o catecismo e fiz primeira comunhão. Ia à missa todos os domingos. Aos sábados, diante do padre-confessor de sotaque germânico, no escurinho protegido pelas grades do pseudo-anonimato (morava numa cidade do interior), tinha de fazer exame de autoconsciência e ser sincero ao enumerar e confessar os pecados da semana. Costumava trazê-los escritos numa folha de papel. Uma pitada de paranóia, e acrescento que os pecados eram muitos e, perdão pelo trocadilho, inconfessáveis. Apesar da lista avantajada, não proferia no confessionário uma fala sincera, confessional. Mentia. Ficcionalizava o sujeito – a mim mesmo – ao narrar os pecados constantes da lista. Inventava para mim e para o padre-confessor outra(s) infância(s) menos pecaminosa(s) e mais ajuizada(s), ou pelo menos onde as atitudes e intenções reprováveis permaneciam camufladas pela fala. Essas mentiras, ou invenções autobiográficas, ou autoficções, tinham estatuto de vivido, tinham consistência de experiência, isso graças ao fato maior que lhes antecedia – a morte prematura da mãe ? e garantia a veracidade ou autenticidade. Aos sábados, diante do confessor, assumia uma fala híbrida – autobiográfica e ficcional ? verossímil. Era “confessional” e “sincero” sem, na verdade, o ser plenamente. O menino ao confessionário já era um falso mentiroso, narrava histórias mal contadas. Faço minhas as palavras contundentes de Michel Foucault em A arqueologia do saber: “Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever”.

ACD: Loucura é um tema que atravessa sua obra. Existe uma razão para isso?

SS: A razão está num poema de Crescendo durante a guerra numa província ultramarina.

 

Transcrevo-o: Loucura Eram muitos os loucos então: Em cada quintal, Correntes para o acesso. Em cada fundo de quintal, Uma sombra suja, entre árvores, Sombra adulta pastando, Armando arapuca De pegar passarinho. A família o protege E só não o esconde dos íntimos.

 

* Ana Crelia Dias é doutora em Literatura Brasileira. É professora do Colégio de Aplicação da UFRJ e do curso de Especialização em Literatura Infantil e Juvenil da Faculdade de Letras da mesma universidade.

 

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Editorial | de Beatriz Resende

A Revista Z Cultural, produzida pelo Programa Avançado de Cultura Contemporânea – PACC/UFRJ – , circula agora de visual novo, com acesso ainda mais fácil aos textos de nossos colaboradores.

Apostando na importância da cultura digital como forma de produção e divulgação também do saber acadêmico, a Revista Z pretende transitar pelos múltiplos espaços de conhecimento, apresentando questões contemporâneas destinadas a provocar debate.

Ágil, mutável, rápida e contundente. Assim quer ser a Revista Z Cultural, disposta a atingir o máximo de leitores num mínimo de tempo, divulgando ensaios sobre arte,  cultura e literatura.

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Los restos de lo real | de Florencia Garramuño

Una literatura que trabaja con restos de lo real: sería posible referirse de esta manera a una lenta transformación del estatuto de lo literario que se ha venido manifestando en las prácticas de escritura desde los años de 1970, y que en las culturas brasileña y argentina puede perseguirse, en senderos variados, a partir de algunas experimentaciones radicales que ocurrieron durante las décadas de 1970 y, con mayor ímpetu, en la de 1980. No se trata de trazar una periodización taxativa: esa transformación, si en aquellos años exhibió algunos de sus primeros ensayos, no deja de revelarse y profundizarse en la literatura más contemporánea. Se trata, sí, de preguntarse por las razones y direcciones de estas primeras mutaciones1

 

En uno de sus Héliotapes de New York, de 1971, Hélio Oiticica se refiere a la poesía de Waly Salomão –uno de los poetas brasileños más activos de la época- con un titubeo sumamente productivo. Dice Hélio Oiticica, refiriéndose a Um minuto de comercial de Waly Salomão:

É como se no dia seguinte, quando você olha para o que você tinha escrito na véspera, você procura recondicionar tudo acrescentando uma nova perspectiva. E cada parte nova que você acrescenta é o recondicionamento do que foi feito antes, quer dizer, inclusive reformula de outra época. Então há essa posição, como se fossem compartimentos do dia a dia, como se fossem lixos que você deposita, não sensações ou experiências do dia a dia. Mas o que eu queria dizer, não é vivências que eu detesto essa palavra, mas seria assim, como se fossem a biblioteca do dia a dia, não, uma euxistênciateca do real, não, é porque a coisa é uma criação em si mesmo.”2

Hélio Oiticica se refería así a la poesía de Waly Salomão que en esos años setenta iniciaba un trabajo poético con materiales tan variados como fragmentos autobiográficos escritos en la cárcel, “itinerarios turísticos” por el Río de Janeiro más marginal, y en donde

“a narração de experiências pessoais -experiências de uma singularidade sintomática, não ensimesmada – se inclui como aproveitamento do mercado de Minha vida daria um romance ou Diário de Anna Frank (…)” (la narración de experiencias personales -experiencias de una singularidad sintomática, no ensimismada- se incluye como aprovechamiento de Mi vida daría una novela o Diario de Anna Frank (…)”.3

En ese trabajo con el yo, lo autobiográfico y la experiencia personal vaciados de toda autoridad, el libro de Waly Salomão comparte con muchas otras formas de la época -poéticas y narrativas- una indistinción entre literatura y vida que tienden a desauratizar lo literario y sus funciones sublimatorias.4

Una euxistênciateca do real, o egoexistenciateca de lo real: el neologismo – y su titubeo- puede servir no sólo para pensar la poesía de Waly Salomão, sino también toda una miríada de prácticas artísticas que surcaron el paisaje cultural de las décadas de 1970 y 1980 en Brasil y Argentina y que establecieron una serie de relaciones problemáticas entre la noción de obra y su afueraexterioridad. La explosión de la subjetividad, la poesía marginal, el abandono del soporte obra del mismo Hélio Oiticica y de Lygia Clark –entre otros–, la proliferación de “formas híbridas” y textos anfibios que se sostienen en el límite entre realidad y ficción, son todos ejemplos de una fuerte impugnación a la categoría de obra de arte como forma autónoma y distanciada de lo real, suplantada por prácticas artísticas que se reconocen abiertas y permeadas por el exterior y que resultan atravesadas por una fuerte preocupación por la relación entre arte y experiencia.

Textos que desestructuran géneros y subjetividades (todos los textos de Clarice Lispector publicados en los años sesenta y setenta, pero también los ilegibles textos de Osvaldo Lamborghini, poéticos y narrativos), narrativas que insisten en una primera persona y que sin embargo desestiman toda pulsión biográfica (El frasquito de Luis Gusmán, La piel de caballo de Ricardo Zelarayán, pero también todas las novelas de João Gilberto Noll), composiciones con apelaciones a eventos y ocurrencias contemporáneas, plagadas de nombres de personas y de espacios reales, de recurrencias a situaciones concretas y contemporáneas a la escritura (las novelas de Silviano Santiago, Nadie nada nunca y Glosa de Juan José Saer), todos esos textos que parecen existir como desgarramientos de formas o implosiones dentro del continente de una obra son ejemplos de estas transformaciones. Se trata de un tipo de escritura que, a pesar de hacer evidente los restos de lo real que forman el material de sus exploraciones, se desprende violentamente de la pretensión de pintar una “realidad” completa regida por un principio de totalidad estructurante.5

Un ejemplo: O cego e a dançarina (1980), el primer libro de relatos de João Gilberto Noll, comenzaba con el que sería considerado posteriormente uno de los cien mejores cuentos brasileños, “Alguma coisa urgentemente”.6 La soledad incomunicable del hijo adolescente que asiste a la lenta agonía de un padre mutilado y silencioso no sólo señalaba en ese cuento una de las primeras apariciones en la narrativa brasileña de lo que inevitablemente debía relacionarse con las dramáticas experiencias contemporáneas de la guerrilla, tortura y persecución política. En ese texto, Noll desplegaba también una escritura novedosa y arriesgadamente experimental que en la proliferación, la errancia y el nomadismo parecía encontrar una de las formas más efectivas para narrar lo inenarrable. En este cuento, lo inenarrable podía referirse a una situación histórica y política específica, pero el modo en que esta referencia se insinuaba y no definía una relación directa con un referente concreto de la realidad ya anunciaba cuánto la escritura de Noll encontraba en la errancia un dispositivo para señalar el fuerte contenido de negatividad de una literatura que responde al supuesto agotamiento de la ficción con la irradiación de nuevas formas de narrar.

Se trata de un relato en primera persona narrado por un niño que vive solo con su padre ausente la mayor parte del tiempo en un departamento de la Zona Sul de Río de Janeiro, hasta que el padre vuelve al departamento herido y no deja que el hijo busque ayuda médica. Los lectores compartimos el desconocimiento del niño sobre las causas de las heridas de su padre y su negativa a ser tratado hasta el final del relato. Esa perspectiva narrativa y una organización de la trama en torno a situaciones que no terminan de describirse o conocerse por completo tiñen la narración, a pesar de su clara situación en un lugar y contexto marcados por sus índices referenciales, de una opresiva atmósfera de fragmentariedad, desconocimiento, y extrañamiento. El cuento se inscribe así en una idea de literatura que se distancia del deseo de explicar para convertirse en la pura exploración emocional de los efectos que determinadas circunstancias y acontecimientos – en este caso manifiestamente históricos – producen sobre las subjetividades presentes en el relato.7

Un lenguaje incontinente, la proliferación de una expresión que no parece encontrar límites y se derrama abandonando el hilo de contención de una trama o de una intriga, el vagabundeo oscilante de la narración -figurado no sólo en esa lengua incontinente sino también en las figuras de personajes y narradores errabundos, desorientados, en un permanente fluir sin sentido fijo y determinado- hablan de las compuertas rotas de una forma que ya no puede contener una pulsión narrativa que se salió de madre.8 En un texto crítico muy temprano, Silviano Santiago había señalado que en los textos de Noll la frase ‘”sai aos borbotões” (sale en borbotones), llamando la atención hacia una de las características que la escritura de Noll desarrollaría e intensificaría en sus cuentos y novelas posteriores, en donde hasta los mismos parapetos de contención de la narrativa, los capítulos –a su vez también organizadores de la intriga- acaban por desaparecer (como en sus dos últimas novelas Berkeley em Bellagio y Lord).9 En la Argentina, El frasquito de Luis Gusmán también había irrumpido con la misma violencia aunque ciertamente con mayor escándalo. Publicado en 1973, fue tal el éxito del relato que fueron publicadas tres ediciones en un mismo año. Si se leen los suplementos culturales y las revistas de la época, el texto ocupa sin dudas un lugar central en las discusiones del momento. En ese relato en primera persona que se construye como una autobiografía fragmentaria, repetititva y obscena, la figuración descarnada del sexo se hace eco de la revolución sexual operada en la cultura occidental de esos años con una fuerte carga de revulsividad, en una novela que, como dijo Flavia Costa, demuestra “una escritura singular hecha de restos, de fragmentos, de mitos y recuerdos de la infancia. Una escritura en permanente mutación donde la biografía -ese fatal malentendido- es la materia indócil de un estilo, de una voz.”10 Ese estallido de la noción de novela y una desestabilización muy fuerte de categorías narrativas que se repetirá en varios textos de la época encuentra en este relato uno de sus momentos más intensos. Desde la noción de personaje a la de intriga, todo aquí parece disuelto en la narración de intensidades entrecortadas y jadeantes. Ya no se trata de episodios que se van conectando entre sí en una historia con un sentido claro sino más bien de episodios sueltos, a veces repetitivos, que evidencian la ausencia de un principio estructurante de obra o de novela. La propia indefinición con respecto al género al que pertenecería este texto también tiene que ver con esta gran desestabilización de una idea de obra y su reemplazo por la escritura de experiencias.11 En La rueda de Virigilio, Gusmán recorre las diferentes experiencias autobiográficas que incorporó en su relato, en especial la enfermedad de su padre:

“La publicación de mi primer libro, El frasquito, coincidió con su agonía y su muerte. Recuerdo que en relación con el escándalo que produjo la aparición del libro, me llamó por teléfono para decirme con la voz enronquecida por el cáncer: “¡Cómo nos hiciste quedar!”. Sólo pude responderle, atenuando mi insolencia, producto de la juventud y de un éxito efímero, amparándome en la interrogación: ‘¿Acaso no fue eso lo que pasó?”12

Son varios los dispositivos, tanto en narrativas como en poesías de la época, que conspiran contra la idea de una obra contenida, regida por un principio estructurante de rigor formal y que, en su lugar, proponen una idea de escritura como puro devenir que no sólo desarma la idea de obra sino que a menudo incluso se dirige explícitamente a cuestionar, por un lado, la posibilidad de enmarcar o contener dentro de una obra la pura intensidad que la escritura, en tanto escritura de una experiencia, pretende registrar. La escritura aparece más cercana a una idea de organismo vivo, irracional, que respira, que a la de una construcción acabada u objeto concluido que se expondría, incólume y soberano, ante la mirada de los otros.13

El neologismo de Hélio Oiticica me atrae porque no sólo señala esa relación entre el texto y su exterior, sino porque además concibe al texto como biblioteca, como archivo de un exterior que no permanecería salvo ni íntegro en la obra, sino apenas en guiñapos, en tanto restos de lo real. Lixos –dice Hélio Oiticica-: basura, que en su condición misérrima y abyecta ya cuestiona varios mitos esteticistas sobre el poder redentor de una “obra” en la que restallarían los fulgores de un sujeto todopoderoso. Según Osvaldo Lamborghini,

“El archivo que no cesa. Porque este escribir ya no tiene nada que ver con la estética (llamemos estética a cualquier amor), entonces: el archivo. Caso es decir cerrado, que no cesa.” La conciencia y la pulsión, en fin, se estrellan contra la celda microscópica del fue del yo sé que ahora.”14

Si bien esa impugnación a la estética se da de una forma tan extrema en la escritura de Osvaldo Lamborghini que hace difícil pensar en otros ejemplos comparables en esa violencia, la desauratización de lo literario de ese gesto fue compartida también por algunos otros casos de la literatura argentina de la época. Para Sergio Chejfec, que incluye dentro de esta problemática a Rodolfo Walsh, Copi, y Manuel Puig, se trata de un momento de la literatura argentina en el que se cuestionaron fuertemente las convenciones de la estética hasta decretarse una rotunda “suspensión de la estética”.15 También Reinaldo Ladagga ve en Lamborghini al testigo lúcido de las marcas de una obsolescencia de la literatura que en la escritura de Lamborghini de los años ochenta se manifestará en la resistencia al impulso de la novela, la utilización de “un mismo Yo” del escritor

“que toma el territorio del relato como si fuera la superficie de un diario, que ensaya volverlo sensible a los impactos del presente en que se despliegan las acciones del que escribe como quien organiza sus materiales. Este “mismo Yo” se resiste a la elevación y, más bien, recurre a la hora de componer sus declaraciones y parlamentos a ciertas formas bajas: el insulto, el chiste, el discurso de una sentimentalidad que se aferra, como a objetos preciados, a ciertas frases (porque este Lamborghini es un sujeto de lo que Barthes, en La preparación de la novela, llama un “fetichismo de la frase”) que más bien se montan, que se integran en los textos en que aparecen, como si estos fueran vitrinas, soportes, relicarios.”16

En esa mezcla y combinación como procedimientos para una construcción proliferante, la escritura presiona los límites entre los géneros y produce textos fuertemente híbridos.17 Pero se trata de una hibridez que no se manifiesta sólo en la mezcla de diferentes modalidades discursivas, sino que incluso llega a presionar -de forma muy intensa en algunos casos- los límites de la literatura, para ubicarla en un campo expandido en el cual la distinción entre la literatura y la vida, personajes y sujetos, narradores y yoes parece resultar irrelevante.18 Porque estas literaturas apuntan a una idea de obra para la cual el propio concepto de obra sería inapropiado; una suerte de archivo de lo real despedazado parece emerger de estas prácticas que cabría nombrar con Hélio Oiticica como euxistenciatecas do real. Y el neologismo de Oiticica interesa además precisamente porque baraja de una forma novedosa una relación entre archivo y experiencia que siempre ha sido problemática. El archivo, al archivar –como el museo– convierte la experiencia en cadáver; el archivamiento, por lo tanto, sitúa la experiencia bajo el signo de la muerte, de la finitud.19

La existencia de uno supone la muerte o inexistencia de la otra; la cancelación de la condición de existencia pura de esa experiencia archivada. Cuando se trata de arte no hay afuera, no hay exterior, o no hay experiencia, sino sólo –en todo caso- el residuo opaco, ya elaborado y por lo tanto otra cosa que ese otro exterior. Esa distinción –a menudo más rígida en algunas de sus teorizaciones que en estas prácticas de escritura- tiene varias consecuencias no siempre claramente entrevistas: la superioridad que se le otorga al arte en desmedro de una experiencia o vivencia que se desprecia es apenas una de las más evidentes; la confrontación entre una noción ingenua de experiencia como pura presencia y su opuesta y no menos ingenua – y mecánica – noción de experiencia siempre mediada por el lenguaje, otra quizás no tan evidente, pero igualmente influyente.

En esas euxistenciatecas de lo real, muy por el contrario, archivo y experiencia o archivo y vida, no se contradicen o autoaniquilan sino que se conjugan en la formulación de un concepto de obra estriado por el exterior que sugiere nuevas operaciones y conceptos para entender la literatura y el arte más contemporáneo. Además de haber sido uno de los artistas más prolíficos en ese nuevo tipo de producción, Hélio Oiticica fue también uno de sus teóricos más eficaces.20 Pero un impulso semejante a esa expansión de los límites de la obra de arte que conlleva una suspensión o transformación de la estética puede leerse en una serie de prácticas literarias que comienzan a emerger en las culturas brasileña y argentina alrededor de la década de 1970 y que señalan, a través de una serie heterogénea de procedimientos y experimentos, una explosión de la subjetividad y un retorno fuertemente marcado al cuerpo y a la experiencia. Esas prácticas que enfatizan la relación con el exterior a través de un concepto renovado de experiencia muestran una transformación del funcionamiento de la cultura en el que la autonomía artística, que sostuvo tanto un determinado tipo de politización como el esteticismo, comienza a ser seriamente erosionada.

La experiencia del tacto

“Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”. La cita es de Clarice Lispector, y la tomo de A Hora da Estrela, su última novela, publicada en 1977. Allí, la construcción de un personaje marginal de tan intensa tradición social en la literatura brasileña como lo es una inmigrante nordestina parecía poner en primer plano una referencia social que llegó a plantear la posibilidad de pensar a partir de esa novela en una “nueva” Clarice Lispector, “exterior e explícita”.21 Para 1977 no era ésa novedad si se tiene en cuenta que desde por lo menos los años sesenta Clarice Lispector había venido ejercitándose en un intento por captar la vida en su más íntima ocurrencia, lo que se manifiesta en su esfuerzo por acercar la escritura a un concepto de experiencia que incorpora lo irracional, la locura, y hasta lo incomprensible.22 Pero tal vez lo que sí era novedoso era la intensidad con la que se acercaba en esa novela a la escritura de una captación de la experiencia que supone, como en la primera cita, una cierto rechazo al supuesto prestigio de lo literario que en la cultura brasileña de los años setenta puede verse en varios escritores.23 También Ana Cristina Cesar despreciaba en los años setenta una idea sublimatoria de literatura a la cual se opuso en su propia escritura. En una entrevista, se quejaba:

“A literatura ficou assim associada a tudo isso (…), a uma coisa que te dá prestígio, a um artifício pra você conquistar pessoas (…) Você fala: poeta Ana Cristina, eu acho ridículo. (La literatura quedó así asociada a todo eso (…), a una cosa que te da prestigio, a un artificio para que conquistes personas (…) Decís: poeta Ana Cristina, y me parece ridículo.)”24

En muchos de esos casos, la postulación de un tipo de escritura que violenta los límites entre lo que es y lo que no es “literario” se opone claramente a un uso burgués de la literatura como marca de distinción y diletantismo. En lugar de ese uso de la literatura se propone un acercamiento a la experiencia que conlleva la postulación de una escritura no aurática que se identifica, más que por una serie de procedimientos, por la proposición de un funcionamiento diferenciado del arte, orientado a la desfetichización del objeto y a una idea de arte en tanto soporte de experiencias.25 Como señalaba, también Clarice Lispector, en una de las tantas crónicas publicadas en el Jornal do Brasil que versan sobre el oficio de escribir, mientras discute sobre algunas críticas realizadas a su novela A paixão segundo G.H.:

“Mas é que me sorprende um pouco a discussão sobre se um romance é ou não um romance. (…) O que é ficção? é, em suma, suponho, a criação de seres e acontecimentos que não existiram realmente mas de tal modo poderiam existir que se tornam vivos. Mas que o livro obedeça a uma determinada forma de romance – sem nenhuma irritação, je m´em fiche. Sei que o romance se faria muito mas romance de concepção clássica se eu o tornasse mais atraente, com a descrição de algumas das coisas que emolduram uma vida, um romance, um personagem, etc. Mas exatamente o que não quero é a moldura. Tornar um livro atraente é um truque perfectamente legítimo. Prefiro, no en tanto, escrever com um mínimo de truques.”26

No se trata, sin embargo –o por lo menos no únicamente-, de una escritura “debochada”, desprolija o resueltamente “abyecta”, a pesar de que en muchos casos pueda llegar a manifestarse a través de estos recursos. En otros, en cambio, la escritura puede ser incluso, como en algunas novelas de Clarice Lispector, intensamente “poética” o de un lirisimo que con alguna distracción podría llegar a confundirse con lo que se llamó “novela del lenguaje”. De uno a otro extremo, se trata de formas diversas de impugnación a una idea de objeto literario acabado –de allí las numerosas interrupciones e interferencias sobre las cuales se construyen estos textos- que nunca sería capaz de apresar la vivencia o la experiencia, idiosincráticamente inapresables.

En esa inapresabilidad, y en la figuración de esa inapresabilidad a través de una escritura que insiste en una desauratización de lo literario, este tipo de escritura diseña un concepto de experiencia alejado de toda certidumbre. Porque tampoco se trata de sustancializar una experiencia primera, corporal y absoluta sobre la cual se sostendría una narrativa o se desarrollaría un yo lírico. Sería imposible asumir el concepto de experiencia como un concepto fundacional a partir de una lectura de estas prácticas que enfatizan la incomensurabilidad y la fragilidad de esa noción.

En Songs of Experience, Martin Jay ha perseguido con minuciosidad los distintos significados que el concepto de experiencia ha convocado a lo largo de la historia.27 Pero no es sólo el concepto el que ha sido definido y evaluado de forma diferente. La experiencia misma, estremecida en la corriente turbulenta del devenir histórico, se encontraría, según varios pensadores, en estado terminal.28 La existencia en la modernidad se caracteriza por una disolución cada vez más dramática de la experiencia, agravada a cada paso por una radical devastación a través de la violencia histórica que precisamente en Brasil y Argentina se vio intensificada durantes los años setenta y ochenta en el contexto de sus respectivas dictaduras militares.

La escritura literaria es uno de los espacios en los que se exhibe esa historicidad del concepto de experiencia. A lo largo de los años la literatura se ha relacionado de manera diferente con lo que en cada uno de esos momentos se llamó experiencia. En su modo de relación con la experiencia, en el género y forma que adopta la literatura para hablar de ella, en la forma en que la literatura “constituye” experiencia, se definen también los diferentes conceptos de lo que es literario o no, de lo que es la literatura y de cuál es su rol, su función, y su lugar en la sociedad. ¿Hasta qué punto determinadas concepciones de la experiencia privilegian ciertas formas literarias para ser narradas y no otras? ¿De qué forma la literatura incide en la construcción de una determinada concepción de la experiencia y, a su vez, de qué forma un determinado concepto histórico de experiencia precipita en formas literarias que se adecuan a esos conceptos de experiencia?

Estas prácticas artísticas fueron acompañadas por una serie de experimentos vitales que se convirtieron en una marca histórica de estos momentos: la experiencia con las drogas, el descubrimiento del cuerpo, la noción de experimentación, el desbunde, la curtição, incluso, los numerosos suicidios y muertes precoces de estos artistas, así como la experiencia del exilio, de la guerrilla y de la militancia política, parecen más bien señalar no tanto una pobreza de experiencia, sino la emergencia de otras formas de la experiencia, dramáticamente intensas, pero sin dudas no necesariamente relacionadas con una decantación del saber y una narración lineal, completa y totalizadora, de esa experiencia.29 Al evitar asociar la experiencia a “lo vivido”, estos textos cercenan la experiencia de su relación con la certeza y con el conocimiento. Intensifican un poder de afección y se proponen ellos mismos como formas de producir experiencia, sosteniendo en la presencia la posibilidad de una narración de las fracturas mismas que constituyen esa experiencia histórica y personal, sin intentar suturar esas fracturas. Se trata de una presencia de la experiencia que es imposible reconciliar con una idea de representación porque, al incorporar la dimensión de la cercanía física y de la tactilidad, escapa a la distancia que sostiene a la representación. Como señaló Jean Luc Nancy, “La presencia no viene sino borrando la presencia que a la representación le gustaría designar.” (“Presence does not come without effacing the presence that representation would like to designate”).30

Se trata de experiencias que arrancan al sujeto de sí mismo, de experiencias ubicadas no sólo afuera de la representación, sino –sobre todo- afuera de la existencia “vivida”, distanciadas de esa noción tan problemática. De allí que en esos textos deambulen sujetos espectrales que se definen por una levedad extendida y una suerte de vaciamiento y despersonalización radical. Se trata de post-yoes, como dice Tamara Kamenszain para referirse a alguna poesía más contemporánea, en la que los sujetos líricos en primera persona se vacían de intimidad para ponerse fuera de sí en un yo acentuado por los otros.31

“Subjetividade se parece com um roubo inicial”, decía Ana Cristina Cesar en uno de sus poemas. También en estas novelas y cuentos desfilan personajes con varios nombres o sin nombre, protagonistas que se superponen y confunden con otros personajes, situaciones en las que confluyen personajes diferentes para componer un sujeto compósito que vale por varios o por un ser cual sea cuya individualidad, en tanto identificación de una autoridad única, se desarma en el deshilachamiento de esas construcciones. “Me chame como quiser”, dice el protagonista y narrador de A fúria do corpo, de João Gilberto Noll. En el caso de La piel de caballo, de Ricardo Zelarayán, el protagonista no sólo carece de nombre durante una parte importante de la novela –casi toda la mitad de la primera parte–, sino que distintas formas de individualización del personaje entran en colisión desarmando toda posibilidad de coagular en una identidad estable y en una historia que lo constituya en tanto sujeto único.32 Los personajes que deambulan por las páginas de La piel de caballo evidencian una suerte de amnesia constitutiva que los hace fluir por una narrativa que a menudo los confunde y diluye. Y sin embargo, es esa insistencia subjetiva, con la impronta indeleble de una experiencia históricamente marcada, la que esos textos relatan y esos sujetos encarnan.33

Ese “cáncer del sujeto” que reina en nuestra era despunta en estos textos y se hará, con el pasar de los años, cada vez más evidente.34 En la despersonalización, en la distancia de la individualización, en la generalización de una experiencia que puede pertenecer a cualquiera pero que no deja de ser subjetiva, la cuestión del sujeto -que ha recobrado relevancia-, se instituye como una réplica activa a esa “sombra de nuestra era”. La pregunta por el sujeto vuelve a ser relevante, no para reinstalarlo en el trono de un sujeto todopoderoso, sino precisamente por reconocer que, si la modernización capitalista ha triunfado en la fragmentación y el desmembramiento del sujeto, los ataques a esta noción, así como a la noción de autor, se convierten en peroratas fuera de tiempo y foco. Ante la fragmentación cada vez más violenta del sujeto, las novelas responden suspendiendo lo que Huyssen llamó “the modernist letany of the death of the subject”, reemplazándola por una intensificación de los estados emocionales y las subjetividades paradojales que esta fragmentación engendra.35

A partir de ese sujeto cuyos límites porosos dejan entrar una realidad que lo desborda, la escritura de lo real despedazado permite pensar una forma de experiencia diferente. Como decía el narrador-personaje Rodrigo S. M. Relato de A hora da estrela: “transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa.” (transgredir, sin embargo, mis propios límites, me fascinó de repente. Y fue cuando pensé en escribir sobre la realidad, ya que esta me supera.)36

Una serie de pensadores contemporáneos han intentado pensar este tipo de presencia más asociada al tacto y la cercanía que al conocimiento o la representación, y que reinaría en varias prácticas artísticas más contemporáneas. En el caso de estas prácticas, me interesa sobre todo insistir en que al pensar la experiencia como tacto no intento simplemente señalar la predominancia de experiencias táctiles en el arte del período –como hará táctilmente visible el desarrollo del arte de Hélio Oiticica o Víctor Grippo, con la utilización de telas y sustancias que se exhiben –y en muchos casos se ofrecen– al tacto del espectador. De hecho, quedarse en eso sería limitarse a un puro esteticismo que muchos de estos artistas impugnan con la misma violencia con la que se despliega en estas elaboraciones la impugnación al fetichismo de la obra. Más que una referencia a los materiales o recursos con los cuales se construyen estos textos y prácticas, investigar esa tactilidad apunta a percibir la transformación radical que con respecto a la relación entre arte y experiencia supone esta hapticidad.

Como dice Hélio Oiticica, en relación a la participación del espectador,

“Não quero isolar aquí as experiências sensoriais, vivenciais etc.; que este seria o lado esteticista da coisa; quero é dar um sentido global que sugira um novo comportamento, um comportamento este de ordem ético-social, que traga ao indivíduo um novo sentido das coisas.”37

Ese mismo tipo de impugnación a una categoría de arte sostenida en objetos que se ofrecen a la distancia de una contemplación ascética es la que se encuentra en el parangolé –las capas de tejidos que los participadores deben vestir- y que se insertan en este concepto de “antiarte” de Oiticica:

“parangolé é antiarte por excelência; inclusive pretendo estender o sentido de “apropriação” às coisas do mundo com que deparo nas ruas, terrenos baldios, campos, o mundo ambiente, emfim – coisas que não seriam transportáveis mas para as quais eu chamaria o público à participação – seria isto um golpe fatal ao conceito de museu, galeria de arte, etc., e ao próprio conceito de “exposição” – ou nós modificamos ou continuamos na mesma. Museu é o mundo; é a experiência cotidiana.”38

De allí que esta tactilidad deba entenderse como signo de una apertura mayor al mundo que precisamente parece cuestionar todo tipo de concepción de la estética como aspecto puramente formal, abandonando ese formalismo de la autonomía en pos de una cierta heteronomía que basa en esa entrega a lógicas desestabilizadoras e incluso desconocidas, que pueden desviar la construcción del objeto y el cierre mismo del objeto estético en tanto objeto, la búsqueda de una pulsión ética en la producción del arte. La noción de autonomía, entendida como autorreferencialidad y centramiento exclusivo en el lenguaje que se sostiene sobre una fuerte antinarratividad ya ha dejado de funcionar para estos textos. A la pérdida del valor trascendente de la literatura y del arte, estas prácticas desplazan la noción de valor estético para colocar el énfasis en aquello que, en esas obras, afecta al lector o espectador.39

Como señala Derrida,

“All touch traverses the boundary between interiority and externality and reciprocally returns to the agent of touching. Touch, like dizziness, is a treshold activity –subjectivity and objectivity come quite close to each other.” (Todo tacto atraviesa la frontera entre interioridad y exterioridad y recíprocamente retorna al agente del tacto. Tacto, como el vértigo, es una actividad situada en un umbral: subjetividad y objetividad llegan muy cerca una de la otra.)40

También para Emanuel Levinas el tacto no es un sentido en absoluto; según la interpretación que el mismo Derrida hace de este filósofo, para él tacto “is in fact a metaphor for the impingement of the world as a whole upon subjectivity.” (es de hecho una metáfora para nombrar el modo en el que el mundo como un todo vulnera la subjetividad)41

La experiencia que emerge de estas prácticas brasileñas y argentinas no adopta nunca la figura del conocimiento o del saber. Concebida como comarca de la fantasía y del goce, cuando no del sufrimiento, la experiencia aparece en ellas como devenir que no cesa y al que su acceso es siempre fracturado, dudoso, pero no por eso menos contundente. De allí que las operaciones de interrupción, que nunca se conciben como fines o finales cerrados, sea tan ubicua en estos textos y prácticas. No resulta de ellas la idea de que un sujeto y experiencia plenos habiten en “lo real” pero no puedan ser capturados por la poesía o la escritura, sino más bien que en esa captación de un sujeto y experiencia cercenados los textos se postulan como indiferenciados de lo real. Y allí la escritura se niega a la sutura de esos desvíos y elige en cambio, por operaciones diversas, la figuración de esas fracturas, dibujando una continuidad, sin dudas problemática, entre arte y vida. Esa captación bruta, directa, sin mediaciones de lo real, puede ser incomprensible y desesperanzadora –cuando no descarada y políticamente problemática-, pero sin dudas desarma una idea del arte que se erigiría como contestación, sublimación o promesa de felicidad de una vida sin sentido. O que respondería, de esa manera, a una previa pobreza de experiencia.

La utopía de la autonomía artística o de lo que, en la crítica latinoamericana, se llamó “la ciudad letrada”, vio en ese espacio autónomo y distanciado el lugar desde el cual construir el valor trascendente y prestigioso de un arte que proponía realidades alternativas.42 En esas realidades alternativas estaba la idea de que una repetición de la experiencia podía facilitar una redención de esa experiencia fracturada y fragmentada.

Según Leo Bersani refiriéndose a lo que él llamó como “la cultura de la redención”,

“A crucial assumption in the culture of redemption is that a certain type of repetition of experience in art repairs inherently damaged or valueless experience. Experience may be overwhelming, practically impossible to absorb, but it is assumed -and this is especially evident in much encyclopedic fiction- that the work of art has the authority to master the presumed raw material of experience in a manner that uniquely fixes value to, perhaps even redeems, that material. This may sound like an unattackable truism, and yet I want to show that such apparently acceptable virus of art’s beneficently reconstructive function in culture depend on a devaluation of historical experience and art.”43

En lugar de esa simultánea devaluación del arte y de la experiencia, estas prácticas estriadas por el exterior que impugnan la idea de obra autónoma parecen otorgarle mayor importancia y lugar a esa experiencia, y un valor más inmanente que trascendente al arte.

La intensidad en esa exploración de lo real que adquiere la literatura de Clarice Lispector a partir de fines de los años sesenta y la forma en la que esa exploración se asocia a una suerte de desauratización de lo literario condensa varias de estas cuestiones. Escritora de poderosas novelas experimentales, hasta los años sesenta la extrañeza de su escritura aparecía contenida en una forma que hasta entonces podía ser pensada –no sin cierta violencia, sin embargo- dentro de los moldes de la novela –o, para Laços de Família, cuentos- psicológica existencialista. En los años sesenta y setenta, sin embargo, pasa a producir una serie de textos de lo más dispares e inquietantes en donde ya no es posible hablar de obra sino de experimentaciones: Água VivaA hora da estrela, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, sus crónicas en el Jornal do Brasil y los diversos volúmenes que construirá y compilará con ellas –algunos denominados, cuentos, otros crónicas, como Para não esquecer, Fundo da gaveta, A via crucis do corpo, Visão do Esplendor-, son todos textos en los que no sólo una categorización genérica se hace difícil -novela, prosa poética, “textos curtos”- sino donde todas las categorías tradicionales del quehacer literario –autor, personaje, tiempo, narrador, intriga- aparecen trastocadas. Cuando publica en 1964 la primera edición de A Legião Estrangeira, divide el libro en dos partes, y sobre la segunda parte, avisa:

“Esta segunda parte se chamará, como uma vez me sugeriu o nunca assaz citado Otto Lara Resende, de “Fundo de gaveta”. Mas por que livrar-se do que se amontoa, como em todas as casas, no fundo das gavetas? Vide Manuel Bandeira: para que ela me encontre com “a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”. Por que tirar do fundo da gaveta, por exemplo, “a pecadora queimada”, escrita apenas por diversão, enquanto esperava o nascimento de meu primeiro filho? Porque publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão”.44

Durante esos mismos años, Lygia Clark y Hélio Oiticica abandonaron el concepto de obra artística como objeto ofrecido a la contemplación del espectador. En los itinerarios artísticos de Hélio Oiticica y Lygia Clark, el abandono de la obra en tanto objeto ofrecido a la fruición de un espectador solitario supone un intento de reemplazar esta idea por la de una incitación a la experimentación: el arte se propone entonces como una suerte de soporte para producir él mismo experiencia en un sujeto activo que participa de la experiencia y la produce en su “consumición” (y las Cosmococas de Hélio Oiticica, o sus Ninhos, exacerban esta disposición).45

En todos esos experimentos puede leerse una fuerte impugnación a la categoría de obra como forma autónoma y distanciada de lo real, reemplazada por una idea de obra como archivo de un exterior cuyos despojos no arrojan luz sino apenas emanaciones tenues de luminosidad equívoca.

¿Hasta qué punto todas estas experimentaciones nos proponen una idea de obra diferente, donde a la autonomía artística se opone una cierta noción de heteronomía que desarma –o complejiza- las oposiciones entre obra y exterior? ¿Hasta qué punto esas prácticas señalan un cambio en la cultura en la que esa idea de arte como redención de lo social –que se sostiene sobre la autonomía artística- se encuentra absolutamente interrumpida? En su apertura y vulnerabilidad ante el mundo, este tipo de arte y de escritura conjuga lógicas diferentes y desestabilizadores que exponen una vulnerabilidad del sujeto y de la experiencia que nunca podría corresponderse con la noción de un objeto u obra autónomos. No se trataría sólo de una transformación en la sensibilidad, sino de una transformación de los sentidos posibles del arte en la sociedad contemporánea. Abandonada la utopía de la autonomía, este tipo de literatura se propone como reflexión sobre las lógicas diferentes y heterogéneas que rigen el espacio social. Objetiva y subjetiva, se trata de una literatura que sólo piensa en la forma en tanto manifestación heterónoma de las lógicas heterogéneas sobre las cuales reflexiona.46

Desde ya que al pensar en todas estas cuestiones, muchas otras producciones literarias y artísticas de otras épocas y de otros países resuenan en mis oídos. Quiero decir con esto que no busco ni un cierre periodizador, ni una limitación de aquellas conclusiones provisorias a las que pudiera llegar, a la literatura brasileña y argentina más contemporánea. Como algunos de los capítulos harán evidente al poner en relación estas producciones brasileñas y argentinas con otros momentos de la historia y otros lugares del mundo, la literatura brasileña y argentina contemporánea se propone aquí, más que como objeto de estudio, como un campo de experimentación teórica.

* Florencia Garramuño é diretora do Programa em Cultura Brasileira da Universidade de San Andrés em Buenos Aires. Recebeu o seu PhD in Romance Languages and Literatures da Universidade de Princeton e fez pós-doutorado no PACC, UFRJ. É Fellow da John Simon Guggenheim Foundation e autora de Genealogías Culturales: Argentina, Brasil y Uruguay en la novela contemporánea; Modernidades Primitivas. Tango, samba y nación e numerosas antologias e artigos. Seu próximo livro, La experiencia opaca. Literatura y desencanto, sairá até marco 2009 na editora Fondo de cultura economica. Tem traduzido para o espanhol textos de Guimaraes Rosa, Graciliano Ramos, Silviano Santiago e Ana Cristina Cesar, entre outros.

NOTAS

1 Numerosos críticos y analistas han trabajado sobre estas transformaciones, dentro y fuera de Latinoamérica. Destaco aquí sólo algunos de los trabajos que más me han inspirado para pensar estos problemas: Josefina Ludmer, “Temporalidades del presente”, Margens/Márgenes, no. 2, diciembre 2002, y “Literaturas postautónomas”, Ciberletras, nº 17, 2007; Tamara Kamenszain, La boca del testimonio -en ambos casos se trata de una teorización sobre literaturas más contemporáneas, aunque en el caso de Kamenszain se ponen estos problemas en relación con un autor de este período, Osvaldo Lamborghini-, Jean Franco, The Decline and Fall of the Lettered City, y Raúl Antelo, “La arealidad setentista”, en Garramuño, Aguilar y di Leone, Experiencia, cuerpo y subjetividades. Literatura brasileña contemporánea, Rosario, Beatriz Viterbo, 2007. Jean Franco resume estas transformaciones como una progresiva invasión de las fronteras de la “ciudad letrada” que en algunos casos extremos irá a concretarse en un trabajo con lo real. Dice Franco: “What counts as literature has changed, for it is no longer confined to categories that separate fiction and reality. Hybrids of fiction and “real life”, of true and invented history, of travel and literature and novel blur such boundaries. There are new possibilites and constraints”. En op. cit., p. 261. Raúl Antelo parte desde los años setenta para elaborar una teoría inspiradora que permite conectar con otros textos y prácticas de otros momentos históricos a partir del concepto de arealidad de Jean Luc Nancy en el que, según Antelo: “Hay la obstinada pasión de lo real que se depara al fin y al cabo con una máquina ambivalente, de un lado, el ex-agio, la superficie de la piel de un cuerpo –le vide papie– visto como conjunto de sensores o pantalla proyectiva, pero también, al lado suyo, ad-agio, ese poco, nada, esta espuma, de realidad material o substantiva, que constituye, en última instancia, lo innombrable de la historia. Lo real areal.” En op.cit., p. 196.

2 Hélio Oiticica, “Héliotape”, pp. 202-203. En Waly Salomão, Me segura qu’eu vou dar um troço.

3 Cf. Waly Salomão, Me segura que’eu vou dar um troço, p.172, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2004. Um minuto de comercial se titulan los últimos fragmentos de este libro de Waly Salomão que se inicia con una suerte de diario escrito en 1970 en la cárcel de Carandiru donde había sido encerrado. En su primera edición en 1972 el texto fue producido de modo artesanal como tantos otros textos de lo que se llamaría “poesía marginal”, mostrando en esa producción no sólo la búsqueda de un circuito alternativo sino también la presencia hasta corporal del autor en el libro. En el año 2000, la editorial Aeroplano publicó una edición facsimilar que recupera ese trabajo.

4 En un trabajo pionero, Literatura e Vida literária, Flora Süssekind analizó esa “explosión de la subjetividad” en la literatura brasileña de los años 70 y 80 distinguiendo entre la literatura del yo que cree en la expresión de una subjetividad y otra que, también enunciada en primera persona, juega con esa literatura del yo como una forma de exponer el vacío de la subjetividad y el astillamiento del narrador. En el análisis que realizó de la literatura de los años de 1970 y 1980, Süssekind inauguró en ese libro un análisis de la relación entre literatura y vida que sería fundamental para entender las transformaciones de la literatura brasileña durante la época de la dictadura. Cf. Vidrieras astilladas, Buenos Aires, Corregidor, 2003, p. 62-136 (este libro compila y traduce al español Literatura e vida literária junto a otros textos de Süssekind sobre la literatura de los años ochenta publicados en otros libros de la autora). Heloisa Buarque de Hollanda hizo hincapié en esta misma relación entre poesía y vida o experiencia personal tanto en el prólogo como en el epílogo de 26 Poetas Hoje, la célebre primera antología de nuevos poetas de los años setenta en los que veía “a presença de uma linguagem informal, à primeirva vista fácil, leve e engraçada e que fala da experiência vivida (…)”. Cf. Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje, p. 10. Ver también, de la misma autora, “Depois do poemão”, en Elio Gaspari, Heloisa Buarque de Hollanda e Zuenir Ventura, 70/80. Cultura em trânsito. Da Repressão à Abertura, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2000. También Beatriz Sarlo en Tiempo pasado. Cultura de la memoria y giro subjetivo. Una discusión, Buenos Aires, Siglo XXI, 2005 y Leonor Arfuch, en El espacio biográfico: dilemas de la subjetividad contemporánea, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2002, analizan desde otras perspectivas estos problemas.

5 Dentro del contexto de la crítica argentina se ha desarrollado una discusión sobre un cierto retorno a formas de narrar que estarían conectadas de una manera u otra al realismo para referirse a algunos ejemplos de este tipo de literatura, aunque todas las intervenciones coinciden en señalar las transformaciones que estos textos manifestarían frente a una estética realista, transformaciones que para algunos bastarían para incluir a estos textos en un “nuevo realismo” y que para otros no. Cf. Graciela Speranza, “Magias parciales del realismo” en milpalabras, nº 2, verano 2001 y “Por un realismo idiota”, en Boletín/12 del Centro de Estudios de Teoría y Crítica, 2005; Kohan, Martín, “Significación actual del realismo críptico”, Boletín/12 del Centro de Estudios de Teoría y Crítica Literaria, diciembre 2005; Sandra Contreras, “En torno al realismo”, Confines, nº 17, diciembre 2005 y “Discusiones sobre el realismo en la narrativa argentina contemporánea”, Orbis Tertius, n° 12, 2006; Luz Horne, Hacia un nuevo realismo. Caio Fernando Abreu, César Aira, Sergio Chejfec y João Gilberto Noll. PhD Dissertation, Yale University, 2005.

6 Fue incluido en la exitosa antología realizada por Italo Moriconi, Os cem melhores contos da literatura brasileira.

7 Véase, por ejemplo: “Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Eu fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimiento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio.” (No me gustaba constatar cuánto me atormentaban algunas cosas. Hasta que mi padre desapareció de nuevo. Me quedé solo en el departamento de la Avenida Atlántica sin que nadie se diera cuenta. Ya me había acostumbrado al misterio de aquel departamento. Ya no quería saber a quién pertenecía, por qué vivía vacío. El secreto alimentaba mi silencio.) João Gilberto Noll, O Cego e a Dançarina, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, p. 14.

8 Según Sandro Ornellas, “A escritura de João Gilberto Noll engendra uma narração desejante, uma máquina de produção de sentidos múltiplos que explodem em parágrafos elípticos e sem pontos, encadeando formas significadoras suspensas temporariamente por vírgulas, ou então se insinua em saltos espaço-temporais do narrado, saltos localizados nos signos impressos na página do livro, transformando o, até então, “fora do texto” em “dentro””(subrayado mío). (La escritura de João Gilberto Noll engendra una narración deseante, una máquina de producción de sentidos múltiples que explotan en párrafos elípticos y sin puntos, encadenando formas significantes suspendidas temporariamente por comas, o luego se insinúa en saltos espacio-temporales de lo narrado, saltos localizados en los signos impresos en la página del libro, transformando el, hasta entonces, “fuera del texto” en “dentro”.) Cf. “A narrativa subjetivante de João Gilberto Noll”, Revista Verbo, n° 21.

9 Cf. Santiago, “O Evangelho segundo João”, Nas Malhas da Letra, pp. 72-78. Según Silviano Santiago, se trataría de una opción no racional por el cuerpo en furia y el deseo que habría sido practicada por autores como Clarice Lispector, Ferreira Gullar, José Agrippino de Paula o Raduam Nassar.

10 Flavia Costa, “El paraíso de los amores perdidos”, Clarín, domingo 4 de julio de 1999.

11 En la contratapa de la segunda edición, se reproduce un fragmento de la reseña de la primera edición publicado en Primera Plana: “Testimonio, nada verista, de un mundo marginal en el cual se depuran hasta la insolencia las contradicciones y lacras de un sistema social, el libro se levanta asumiendo despiadadamente, los elementos que ese universo otorga: represión, necesidades insatisfechas, violencias cotidianas, el sadismo de los juegos infantiles y los juegos sádicos del mundo adulto.” Cf. Luis Gusmán, El frasquito, Buenos Aires, Ediciones Noé, 1973, contrapa. En un reportaje realizado por Silvia Hopenhayn, Gusmán señala que sintió en este texto más exposición que en La rueda de Virgilio, su autobiografía. Cf. Hopenhayn, Silvia, La Nación, 19 de octubre de 1997. También en www.literatura.org/Gusman/repo-gusman.html.

12 Luis Gusmán, La rueda de Virgilio, p. 13.

13 Silviano Santiago, op. cit., señala, pp. 77: “Para escritores como João Gilberto uma frase não é composta. Ela poreja. Gilberto-Evangelista se situa nas antípodas de um projeto construtivista da arte. A frase sai aos borbotões, pois ela é o ser do homem que fala. A frase surge das instâncias do desejo e da afirmação individual com vistas ao coletivo. É comunhão com o outro e celebração do divino sobre a terra. Articula o real na sua essencialidade. (Para escritores como João Gilberto uma frase no es construída. Ella supura. Gilberto-Evangelista se sitúa en las antípodas de un proyecto constructivista de arte. La frase sale en borbotones, pues ella es el ser del hombre que habla. La frase surge de las instancias del deseo y de la afirmación individual con vistas a lo colectivo. Es comunión con el otro y celebración de lo divino sobre la tierra. Articula lo real en su esencialidad.)”

14 Osvaldo Lamborghini, Poemas 1969-1985, p. 144.

15 Cf. Sergio Chejfec, “Fábula política y renovación estética”, en El punto vacilante.

16 Reinaldo Laddaga, “La estética del paroxismo”, en Espectáculos de realidad. Ensayo sobre la narrativa latinoamericana de las últimas décadas, pp. 102-103. También publicado en Las ranas, n° 2.

17 La característica de hibridez fue señalada por numerosos estudios críticos que analizan de modo individual algunos de estos textos, como los artículos de Silviano Santiago sobre Clarice Lispector, de Flora Süssekind sobre Ana Cristina Cesar, o de Reinaldo Laddaga sobre Lamborghini. Maria Ester Maciel, en “Escritas híbridas na poesia brasileira dos anos 70 e 80”, analizó con particular minuciosidad esa hibridez en la poesía brasileña de los años 70 y 80. Cf. Maria Ester Maciel en Garramuño, Aguilar y di Leone, Experiencia, cuerpo y subjetividades. Literatura brasileña contemporánea. En un trabajo notable de reconstrucción de la “opaca” década del setenta, Luis Chitarroni se refiere a varios de estos mismos textos como “relatos de los límites” porque ellos pasarían por alto “los modelos y antinomias vigentes en el tiempo de su tiempo”. Cf. Luis Chitarroni, “Continuidad de las partes o relatos de los límites”, en Elsa Drucaroff, La narración gana la partida, vol. 11 de la Historia crítica de la literatura argentina, dirigida por Noé Jitrik, Buenos Aires, Emecé, 2000, p. 172.

18 Wander Melo Miranda, refiriéndose a la literatura de Silviano Santiago, señala: “Uma coisa ficou clara: a divisão dos gêneros, o desprezo pelos chamados “gêneros menores” não tem mais sentido, e isto vai além da idéia evidente de mistura possível de gêneros literários. É o conceito mesmo de literatura como arte da imaginação que passa a ser revisto, talvez junto com a revisão também da idéia de uma possível separação entre cidade real e cidade imaginada”. (Uma cosa quedo clara: la división de los géneros, el desprecio por los llamados “géneros menores”, ya no tiene sentido, y esto va más allá de la idea evidente de mezcla posible de géneros literarios. Es el concepto mismo de literatura como arte de la imaginación lo que pasa a ser revisado, tal vez junto con la revisión, también, de la idea de una posible separación entre ciudad real y ciudad imaginada.”) Wander Melo Miranda, “Memórias: Modos de ursar”, en Eneida Leal Cunha (org.) Leituras Críticas sobre Silviano Santiago.

19 Cf. Jacques Derrida, Mal d’Archive, Paris, Galilée, 1995, pp. 26-27 : “(…) s’il n’y a pas d’archive sans consignation en quelque lieu exterieur qui assure la possibilité de la mémorisation, de la répétition, de la reproduction ou de la ré-impression, alors rappelons nous aussi que la répétition même, la logique de la répétition, voire la compulsion de répétition reste, selon Freud, indissocialbe de la pulsion de mort. Donc de la destruction. Conséquence: à même ce qui permet et conditionne l’arquivation, nous ne trouverons jamais rien d’autre que ce qui expose à la destruction, et em vérité menace de destruction, introduisant a priori l’oubli et l’arquiviolithique au coeur du monument.” Poner cita en español.

20 La bibliografía sobre las obras y experiencias de Hélio Oiticica es extensa y rica, y en general ha tendido ha ponerse en relación esa producción con sus textos teóricos y programas, escritos que en muchos sentidos incluso deberían pensarse como indistinguibles de sus “obras” o “experiencias” no sólo por la fuerte interdependencia entre unos y otras, sino por el semejante impacto de reflexión y conmoción de la estética que ambos producen. La relación entre esa producción de Hélio Oiticica con otros ejemplos de manifestaciones culturales de la época y su estudio como práctica que evidencia una transformación estética en curso durante esos años es algo que todavía está por hacerse. Silviano Santiago inició ese estudio al reconstruir la cantidad de literatos, músicos, artistas y cineastas que se agolparon en torno a Hélio Oiticica en sus babylonests en Nueva York en su “Hélio Oiticica, a gramática da anarquia”. En el artículo señalado, dice Santiago: “No ambiente criado para o loft, havia algo que questionava a imagen clássica de ateliê de artista plástico. Favorecia um tipo de espaço ideal para o trabalho artístico coletivo, no qual celebridades como os poetas Augusto e Haroldo de Campos cruzavam com desconhecidos, como o modelo Romero, belo rapaz, ou o irmão mais novo de Waly Salomão que, para ganhar dinheiro, trabalhava num engraxate na Rua 42. Irmanados pelo ninho comum deviam interagir como numa usina de arte (…). O apartamento supria o ateliê clássico com um salão de encontros onde as mais ousadas experiências com palavras e outras armas eram feitas. Tratava-se de um legítimo laboratório artístico contemporâneo, já que o humano e a cultura eram postos à prova graças aos princípios duma estética da aventura e do risco.” (En el ambiente creado para el loft, había algo que cuestionaba la imagen clásica del taller de artista plástico. Favorecía un tipo de espacio ideal para el trabajo artístico colectivo, en el cual celebridades como los poetas Augusto y Haroldo de Campos se cruzaban con desconocidos, como el modelo Romero, bello joven, o el hermano menor de Waly Salomão que, para ganar dinero, trabajaba de lustrador de botas en la calle 42. hermanados por el nido común debían interactuar como en una usina de arte (…). El departamento suplantaba el taller clásico con un salón de encuentros donde se realizaban las más osadas experiencias con palabras y otras armas. Se trataba de un legítimo laboratorio artístico contemporáneo, ya que lo humano y la cultura eran puestos a prueba gracias a los principios de una estética de la aventura y del riesgo.) Cf. Silviano Santiago, “A gramática a anarquia”, p. 36. Las “Proposições” -propuestas abiertas de trabajo que funcionaban como anotaciones para ser ejecutadas por otros artistas elegidos por el propio Hélio – son la más clara cristalización de este trabajo de inspiración y concreción colaborativa. Cf. Frederico Oliveira Coelho, “Apresentação e transcrição de “Vigília”, de Hélio Oiticica. Em Margens/Márgenes, n° 8, p. 87. Ver también Gonzalo Aguilar, “Hélio Oiticia: la invención del espacio”, en Punto de Vista no. 84, abril 2006 y Nicolau Sevcenko, “Configurando os anos setenta: a imaginação no poder e a arte nas ruas”, Antonio Risério et alii, Anos 70: trajetórias, São Paulo, Iluminuras, Itaú Cultural, 2005.

21 Eduardo Portella en “O grito do silêncio”, introducción a la novela en su primera edición por la editorial José Olympio.

22 “Não vou ser autobiográfica –dice en Agua Viva-, quero ser “bio””, intentado apresar la intensidad de la vivencia sin domesticaciones. Cf. Lispector, Água Viva, p. 33. (Traducción al español en Agua Viva, Madrid, Siruela, 2004) La escritura de Clarice Lispector -tal vez influenciada por su escritura semanal de las crónicas que se publicarían en el Jornal do Brasil – trasvasa los límites y fronteras de los géneros y libros, republicando fragmentos que aparecieron como crónicas como fragmentos y partes de otros textos. Água Viva reutiliza fragmentos de algunas crónicas publicadas en el Jornal do Brasil y republicadas posteriormente en A descoberta do mundo; Para não esquecer publica algunos de los cuentos que ya habían aparecido como crónicas y como cuentos en A via crucis do corpo, y ese mismo tránsito entre libros y géneros puede perseguirse en A Legião Estrangeira y Visão do Esplendor. Por otro lado, también a partir de los años sesenta Clarice Lispector comienza a incorporar en sus textos referencias biográficas. Cf. Martha Peixoto, Passionate Fictions, p. 91, y Silviano Santiago,”Bestiário”. Según Santiago, “A indiferenciação entre ficão e confissão é bastante comum em escritores que repousam sua escrita em processos que o francês Michel Foucault quailificou de “subjetivação”, ou seja, processos em que há um movimento de ressemantização do sujeito pelo próprio sujeito. De maneira geral, estamos falando de escritores que abastecem os escritos ficcionais com os diários íntimos e as cartas que escreveram (…) Clarice Lispector pertencia a essa categoria muito especial de ficcionistas onde é alta a densidade autobiográfica nos textos propriamente ficcionais”. (“La indiferenciación dentre ficción y confesión es bastante común en escritores que apoyan su escritura em procesos que el francés Michel Foucault calificó de “subjetivación”, o sea, procesos en los que hay un movimiento de resemantización del sujeto por el propio sujeto. De modo general, estamos hablando de escritores que abastecieron los escritos ficcionales con los diarios íntimos y las cartas que escribieron. (…) Clarice Lispector pertenecía aesa categoría muy especial de ficcionistas donde es alta la densidada autobiográfica en los textos propiamente ficcionales.”)

23 La cita aparece como epígrafe del libro de cuentos de Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, uno de los tantos escritores de los años setenta para los cuales Clarice Lispector fue una referencia inspiradora. Cf. Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, p. 5. Véase también sobre este problema la nota del autor a la segunda edición de 1995.

24 Entrevista en Carlos Alberto Messeder Pereira, Retrato de Época: anos 70.

25 En “The Hour Trash of Clarice Lispector”, Ítalo Moriconi analizó los textos de Clarice Lispector que a partir de los años sesenta sostienen un juego entre lo sublime y la desublimación que muestran los límites, el agotamiento de un proyecto de progresiva radicalización de la escritura. Caracterizados por una fragmentación extrema, son libros cortos, esquemáticos, que interactúan con la escritura periodística y muestran una dualidad entre lo literario y lo periodístico, la vanguardia y el kitsch, el buen gusto y lo cursi, la poesía y el cliché, la ironía y el sentimentalismo.

26 “Ficção ou nao”, publicada el 14 de febrero de 1970, recopilada en A descoberta do mundo, p. 270-271. En una carta enviada por Pessanha que se encuentra en el archivo de Clarice Lispector depositado en el Insituto Moreira Salles, se encuentran subrayadas –probablemente por la mano de la misma Clarice- las siguientes frases referidas a Água Viva: “I tried to place the book; notes? Thoughts? Autobiographical fragments? I came to the conclusion that it is all of that together… I had the impression that you wanted to write spontaneously, a-literarily. Is that so? It seems that afer the artifices and trics of reason (or better yet of rationalizations) you seem to want to reject the artifices of art. And to denude yourself, disguising yourself less in your own eyes and in those of the reader.” Citado por Martha Peixoto, Passionate Fictions, pp. 67. La carta está fechada el 5 de marzo de 1972.

27 Martin Jay, Songs of Experience.

28 Trabajé sobre estas cuestiones en “La experiencia y sus riesgos”, en Experiencia, cuerpo y subjetividades. Literatura brasileña contemporánea.

29 Desbunde y curtição son palabras intraducibles intensamente asociadas con los años que van de fines de los sesenta a los setenta. Ambas están relacionadas con una entrega a experiencias intensas de placer y desborde, en muchos casos –pero no exclusivamente– asociadas a las drogas y el sexo. Hay un arte y una cultura del desbunde y la curtição que definen una parte importante de la cultura de los años setenta en el Brasil y, aunque no existan términos equivalentes, podría llegar a proponerse algo semejante para cierta zona de la cultura argentina de esos mismos años. Para un análisis de estos dos términos en el contexto brasileño, cf. Silviano Santiago, “Os arbutres” y “Caetano Veloso enquanto superastro”, ambos en Uma literatura nos trópicos, Río de Janeiro, Rocco.

30 Jean Luc Nancy, The Birth to Presence, p. 3 y 4. Para una lectura de la categoría de presencia en Nancy y en general, para una reflexión sobre esta categoría como propuesta para las humanidades, ver Hans Ulrich Gumbrecht, The Production of Presence. What Meaning Cannot Convey, Stanford, Stanford University Press, 2007.

31 Tamara Kamenszain, La boca del testimonio, pp. 138-40. En este libro, Kamenszain trabaja sobre lo que ve como “un esfuerzo por profanar los límites de la literatura en un tiempo en que esta, envuelta en su propia parálisis sacralizadora, está amenazada de desaparición.”

32 Señala Nancy Fernández: “Aquí, los personajes son restos diurnos de una caminata con resaca y sobras de un baile trasnochado; son también las piezas de una fuga perpetua y a su vez, el intento vano por recomponer los fragmentos de una identidad.”. En “Cucurto y Zelarayán”, en www.elinterpretador.net/29NancyFernandez-CucurtoYZelarayan.html.

 

33 Según Alan Pauls sobre La piel de caballo: “No es una precisión de experiencia lo que hay que pedirle; como una réplica sarcástica del Gauna de El sueño de los héroes, el Chuck de La piel de caballo tampoco se acuerda de nada, ni sabe quién es, ni podría decir cuánto tiempo pasó desde que… Pero su relato es implacable, de una escrupulosidad casi maniática, cuando se posa en esos brillantes cristales sociales que salpican la novela: un pantalón de acrocel verde, la camisa grafa, el “botín Patria 45”, el “chaqueñito”, el “formoseño”, el “tucumano metalúrgico”, el “obrerito teléfónico”, la “turca”, el “gallego roña”, la Charca, la Costanera Sur… Es todo un imaginario de la subalternidad, hecho de tonadas, manchas de grasa, diminutivos, injurias, marcas populares y topografías marginales, el que reaparece con una fuerza extraordinaria en la novela de Zelarayán, el mismo que alguna vez había despuntado en Las hamacas voladoras de Briante, Nanina de Germán García o en El frasquito de Luis Gusmán”.

34 Señala Philippe Lacoue Labarthe, en Poetry as Experience: “Nothing, not even the most obvious phenomena, not even the purest, the most wrenching love, can escape this era’s shadow: a cancer of the subject, whether in the ego or in the masses. To deny this on pretext of avoiding the pull of pathos is to behave like a sleep walker. To transform it into pathos, so as to be able “still” to produce art (sentiment, etc.) is unacceptable.” Poetry as Experience, p. 8-9.

35 Andreas Huyssen, “Mapping the Postmodern”, en After the Great Divide, p. 213.

36 Clarice Lispector, A Hora da Estrela, p. 23.

37 Cf. Hélio Oiticica, “Preguntas e respostas para Mário Barata (fragmentos), 15 de julio de 1967, Aspiro ao grande labirinto, Río de Janeiro, Rocco, 1986, p. 100.

38 Hélio Oiticica, “Anotações sobre o Parangolé”, p. 79. En Aspiro ao grande labirinto.

39 Son varios los pensadores que han postulado una necesidad de repensar la estética a partir de prácticas más contemporáneas. John Rajchman hace una reseña útil de ellos en “Unhappy returns: John Rajchman on the po-mo decade – Writing the ’80s – post-modernism”. Cito un breve párrafo de su resumen del pensamiento de Jean Luc Nancy sobre este problema: “He also thinks aesthetics needs to become anew what it in fact began as, a “science of the sensible,” now concerned with exposing us to what is singular and outside rather than with the internalizing “sublimation” of the Kantian “I judge.” For we should not imagine that aesthetics in the first instance is about norms of judgment concerning artworks or “beauty” (or “quality”). The basic problem, to be elaborated in many variants in post-Kantian aesthetics, is instead to question how thinking itself becomes “sensible”–something we can see, sense, touch, feel, something that “affects” us.” (Él también piensa que la estética necesita renovar lo que de hecho comenzó como una “ciencia de lo sensible”, ocupada ahora con exponernos a lo que es singular y exterior en lugar de internalizar la “sublimación” del kantiano “Yo juzgo”. Porque no deberíamos imaginar que la estética es en primera instancia sobre normas de juicio concernientes a obras de arte o “belleza” (o “calidad”). El problema básico a ser elaborado en muchas variantes en la estética post kantiana es en cambio preguntarse cómo el pensamiento mismo se convierte en “sensible” – algo que podemos ver, sentir, tocar, percibir, algo que nos “afecta”.) En Art Forum, April 2003.

40 Jacques Derrida, On Touching – Jean-Luc Nancy, p. 178.

41 Ibíd., p. 42 Cf. Jean Franco, The Decline and Fall of the Lettered City, p. 7.

43 Leo Bersani, The Culture of Redemption, p. 1. Ver sobre esto también John Rajchman, “Foucault, or the Ends of Modernism”, October, Vol. 24 (Spring 1983), p. 55. 44 Clarice Lispector, A Legião Estrangeira, p. 3.

45 Tanto las Cosmococas como los Ninhos son definidas por Helio Oiticica como formas de su “arte ambiental” en la que se busca producir “blocos de experiências”. Así como la idea de arte ambiental se aleja de cualquier tipo de esteticismo sostenido en un “objeto”, la transformación fundamental se da sobre el polo del espectador, y por lo tanto, de la función que cumple la “obra” más que de su “forma” –aunque obviamente es una transformación de este concepto el que produce la transformación subsiguiente. Como dice Ivana Bentes, en una notable intervención, “Nos seus ambientes, Hélio desloca o espectador de um “ponto de vista” e o instala num “ponto de existência” (descalço, afundado na espuma do chão, ouvindo rumores, ruídos, fragmentos de música, sentindo texturas, experimentando um cinema-mundo) (En sus ambientes, Helio saca al espectador de un “punto de vista” y lo instala en un punto de “existência” (descalzo, ahondado en la espuma del suelo, oyendo rumores, ruídos, fragmentos de música, sintiendo texturas, experimentando un cine-mundo)”. Cf. “Quase-cinema. Cosmococa”, Grumo 5, Buenos Aires, Rio de Janeiro, 2006, p. 96.

46 Trabajo esta transformación de la sensibilidad en relación con la poesía más contemporánea en “La tersura áspera de lo real”, en Grumo 6.2.